sexta-feira, 24, setembro, 2021

A representatividade negra no audiovisual

O mês de março é conhecido como o mês em que comemoramos uma das datas mais importantes, o Dia Internacional da Mulher que acontece no dia 08. E essa data é muito importante, pois assim podemos debater sobre o papel e a importância das mulheres na sociedade em que estamos.

O ano de 2020 trouxe a pandemia de Coronavírus e com essa doença que matou mais de 270.000 pessoas no Brasil. Por trás desse número, muitas famílias despedaçadas e a única solução para que isso termine, é com a vacina que é um meio importante de conter o avanço dos vírus. Porém, como ficam as outras pandemias? A pandemia do racismo? Tem vacina? A pandemia da corrupção política que é um ralo de dinheiro? Existe vacina para isso? E a pandemia da violência contra mulheres? Essa certamente está longe de ter uma vacina, assim como muitas outras pandemias que o Covid-19 escancarou.

No mês de julho do ano de 2020, fizemos uma matéria sobre vários projetos com o intuito de ajudar mulheres que são violentadas. A matéria nos apresenta dados do relatório da ONU, “Violência contra as mulheres e meninas é pandemia invisível”, que destaca o fato da subnotificação já ser um desafio sem pandemia e que menos de 40% das mulheres vítimas de violência buscavam qualquer tipo de ajuda ou denunciavam o crime. Menos de 10% das mulheres que procuravam ajuda, iam à polícia.

Leia Mulheres na pandemia: uma cicatriz que o band-aid não cobre

E atualmente, com esse novo cenário é mais complicado, pois muitas vítimas estão em isolamento com o agressor. Apesar disso, algumas medidas já criadas, outras sendo aprovadas, o debate por meio de produções audiovisuais, a discussão que vem sido fomentada pelas redes sociais, tudo isso pode abrir um caminho para que mais mulheres consigam denunciar e viver livre de agressões e da violência.

Indo nessa linha, uma matéria publicada pela Folha de S.Paulo, mostra um dado alarmante, para cada mulher branca vítima de homicídio, foram atacadas 1,8 mulheres negras (soma de pretas e pardas), segundo o Atlas da Violência 2020, isso no Brasil. A violência não é só de gênero, é racial também. A matéria também destaca que a chance de uma mulher negra ser morta é de 64% maior do que uma mulher branca.

Em meio aos dados de uma realidade desastrosa, encontramos no audiovisual a possibilidade de mudar e de trilhar novos caminhos para as mulheres. Mesmo que seja uma jornada árdua e muitas vezes solitária. Infelizmente, como na maioria das esferas sociais, a indústria audiovisual também é um reflexo da desigualdade de gênero e racial no mercado de trabalho como um todo.

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Adélia Sampaio, considerada a primeira cineasta negra a dirigir um longa-metragem / Reprodução Imagem Mulher No Cinema

Durante muito tempo, mulheres foram desqualificadas para realizar certos trabalhos assim como sua presença em determinados espaços era vista como inadequada. Essa proposição social se repete até os dias de hoje no cinema, principalmente em funções que envolvem aspectos técnicos, como as áreas de direção e fotografia, por exemplo.

Leia | Dia Internacional da Mulher | 08 Grandes profissionais do cinema

Atualmente, a falta de profissionais mulheres por trás das câmeras é um reflexo de uma sociedade desigual e problemática. De acordo com a matéria publicada pelo Instituto de Cinema, entre as 100 maiores bilheterias norte-americanas de 2018, temos apenas 8% de diretoras no comando. Os dados pioram em relação a outras funções, como apenas 10% dos roteiristas são mulheres, 2% das direções de fotografia, 14% das edições e 24% como produtoras. Isso sem diferenciar quem é branca ou não.

Porém, estamos vendo uma crescente representatividade no meio cinematográfico. Mais mulheres estão se impondo e tem muita mulher negra fazendo história. Na hora em que a claquete bate, o silêncio histórico é quebrado e essas mulheres negras e periféricas encabeçam suas próprias narrativas e se colocam como protagonistas das produções. Deveria ser natural, mas o preconceito faz com que muita gente ainda tenha que se provar cada vez mais e nesse processo de apagamento, surge as perolas como Adélia Sampaio, considerada a primeira cineasta negra a dirigir um longa-metragem.

A cineasta, roteirista, atriz e produtora carioca, Sabrina Fidalgo, comenta sobre a necessidade de termos profissionais não só na frente das câmeras, mas atrás delas também. Para Fidalgo, falta conquistar espaço, principalmente no topo da cadeia evolutiva da criação. Não basta a presença negra na frente das câmeras, pois as decisões, a visão estética e as narrativas estão por detrás das câmeras.

A representatividade negra no audiovisual 2
Sabrina Fidalgo / Reprodução Imagem Modefica

Infelizmente os profissionais negros ainda não ocupam essas posições de forma proporcional. – Sabrina Fidalgo.

Nessa pegada de representatividade negra no cinema nacional, os filmes produzidos por Sabrina Fidalgo já foram exibidos em mais de 300 festivais nacionais e internacionais com destaque para o curta-metragem ficcional Rainha, com a atriz Ana Flavia Cavalcanti, que interpreta Rita, uma jovem que sonha em ser rainha de bateria da escola de samba da sua comunidade e quando finalmente consegue, passa a enfrentar situações obscuras em sua vida. E para a cineasta, os maiores desafios para uma profissional negra no audiovisual é a estigmatização e o apagamento.

A representatividade é muito importante, pois mostra que dentro desse espaço ocupado por homens brancos, pessoas negras também podem ocupar posições de destaque. O filme Pantera Negra com bons números de bilheteria, chamou atenção para um tema muito atual: a representação negra no cinema. Tanto na telona, com um elenco majoritariamente negro composto por nomes como Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong;, Danai Gurira, Angela Bassett e Sterling K. Brown, quanto por trás dela: o filme é dirigido por Ryan Coogler e tem designer de produção de Hannah Beachler (que participou do longa Moonlight: Sob a luz do luar e no disco potente e empoderado de Beyoncé, Lemonade), todos negros.

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T’Challa e Nakia / Reprodução Rachel Morrison – Disney

Além de mostrar representatividade na tela, o filme traz outros aspectos interessantes como a cultura africana, a força dos negros e das mulheres e ainda o conceito de afrofuturismo (movimento estético, cultural e político que unem ficção científica e mitologia africana com abuso de tecnologia). Tudo isso corrobora para promover mais inclusão racial e de gênero nas produções audiovisuais.

A atriz e produtora, doutoranda em Artes Cênicas (Unesp) com pesquisa sobre a
mulher artista-criadora e professora de Atuação para Cinema na Academia Internacional
de Cinema (AIC), Mariela Lamberti, nos conta que a falta de representatividade, os baixos números de mulheres ocupando cargos importantes no mercado audiovisual e sendo reconhecidas como tal, é uma questão muito complexa, que pode ser pensada historicamente, culturalmente, mas uma das possibilidades para se pensar isso é que conforme o cinema foi virando realmente uma indústria, que começou a envolver muito dinheiro e depender de mais habilidades técnicas, as mulheres foram sendo afastadas desse lugar.

A produtora ainda reforça que no começo do cinema, as mulheres tinham uma participação mais ativa, inclusive eram preferidas como montadoras, já que a edição de filmes era considerada uma tarefa manual delicada, quase como uma costura. Foi por volta de 1920 com a chegada do som no cinema que elas foram perdendo a predileção nesse cargo, já que essa atividade passou a ser considerada mais técnica, logo, mais apropriada aos homens.

O paralelo que eu faço é que as dificuldades que nós mulheres enfrentamos no mercado cinematográfico são as mesmas dificuldades que nós encontramos na vida mesmo, no mercado de trabalho em geral, com as diferenças salariais, com a falta de confiança para ocupar cargos de liderança, dificuldade nas questões relacionadas à maternidade e na dualidade da vida profissional versus pessoal. – Mariela Lamberti, atriz e produtora.

Outra cineasta que chama atenção é a Renata Martins que é a diretora do aclamado Aquém das Nuvens e com um coletivo de cerca de 10 mulheres dirigiu a websérie Empoderadas, que ressalta a trajetória de mulheres negras de diferentes áreas e visa expor o racismo e machismo e ampliar a representação e representatividade de mulheres negras, tanto diante quanto atrás das telas.

Apesar de estarmos num momento muito delicado, com o avanço da pandemia não só do Covid-19, mas de tantas outras mazelas sociais, o audiovisual vem se transformando e mostrando algumas mudanças bem significativas. Pela primeira vez, a Academia de Hollywood indica duas diretoras ao troféu da categoria. Embora elas não façam parte da comunidade negra, são mulheres e isso é um grande passo para as profissionais do gênero. No entanto, é dever do público dizer o que quer a partir do seu consumo. Cobrar publicamente, representação honesta de todas as formas. Precisamos ver mais pessoas negras, mais LGBTs, mais minorias – que são maioria – na frente e atrás das telas.

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