quarta-feira, 30, setembro, 2020
Início Filmes Críticas Crítica: Alien: Covenant

Crítica: Alien: Covenant

Antes de começar este texto, preciso fazer a seguinte declaração: a carreira de Ridley Scott acabou há muito tempo. O diretor de obras-primas como Alien, O Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Andróides não existe mais. No lugar, o que se tem atualmente é um cineasta realizando algumas atrocidades e cuja noção do que pode ser visual e narrativamente fascinante é inteiramente similar à de vários outros cineastas sem o talento que ele já provou ter. Pelo jeito, nem mesmo o retorno à franquia que o lançou ao estrelato é capaz de ressuscitar o seu trabalho, já que o novo projeto, o longa Alien: Covenant, é muito ruim, chegando a ser até pior que Prometheus.

É verdade que a realização de uma obra inferior ao filme de 2012 é uma conquista e tanto. Porém, infelizmente, é uma conquista às avessas. Se passando dez anos anos depois dos eventos do longa anterior e vinte e três anos antes do clássico de 1979 e narrando a história de um grupo de cientistas que, em uma missão colonizadora, entra em contato com a infame raça alienígena, o novo filme é uma constante decepção, além de dar a impressão de que foi concebido e dirigido com uma enorme má vontade.

Escrito por John Logan (que, curiosamente, é um contador de histórias talentoso) e Dante Harper  – a partir de um argumento desenvolvido por Michael Green e Jack  Paglen –, o roteiro já começa genérico e mal construído. Depois de uma cena inicial em que o o impacto é menor do que o pretendido e que só serve para restabelecer o conflito interno de David (Michael Fassbender), o androide de Prometheus, há uma sequência de motivações superficiais e pontos de partida que são códigos comuns dentro das obras de ficção científica.

Crítica: Alien: Covenant 1
Alien: Covenant | Imagem: Fox

Apresentando um drama que, de tão imediato, não ressoa junto ao público e nada faz para ajudar a criar empatia com a protagonista – e que, além disso, não tem importância alguma para o desenvolvimento da trama – , os roteiristas recorrem a clichés usados rotineiramente por escritores preguiçosos, como uma explosão estelar que acorda os tripulantes antes do necessário e a interceptação de uma transmissão anônima, além de tomarem algumas decisões irracionais e impossíveis de serem justificadas (como é possível acreditar que depois de estudarem por anos as propriedades físicas e químicas do planeta que irá abrigá-los, os personagens aceitam ir a um local completamente desconhecido e misterioso? Porque o personagem interpretado pelo Billy Crudup, para provar a sua autoridade, exigiu que eles fossem? Me poupe!).

Após essa primeira parte desastrosa – que falha no propósito de atrair a atenção do espectador – e de uma longa cena em que os cientistas aterrissam no planeta misterioso e que é muito parecida com o momento da chegada da nave em Prometheus, o segundo ato gira em torno de temas manjados da ficção científica. Questões envolvendo o poder da criação e fé e racionalidade (para deixar claro para o espectador que o capitão Oram é religioso, os roteiristas precisam fazer o próprio personagem comentar exaustivamente sobre a sua fé) são abordadas, mas com a profundidade de uma piscina de um metro.

Há também a intenção de discutir as propriedades da inteligência artificial através do personagem do androide Walter (também interpretado por Michael Fassbender) e de questionamentos acerca da natureza humana de um robô (há até a tentativa de fazer implicações sexuais) e do sentimento de superioridade que uma criatura tem em relação ao seu criador. Mas, novamente, tudo é desenvolvido de uma maneira superficial e entediante (como esses temas são mal trabalhados, o segundo ato tem um ritmo muito irregular).

Crítica: Alien: Covenant 2
Alien: Covenant | Imagem: Fox

Já o terço final chega ao cúmulo de ter três clímax, cada um mais previsível e anêmico que o outro. As revelações finais, por sua vez, uma vez feitas, acabam por apontar algumas incongruências e furos. Nesse terceiro ato, algo que também salta aos olhos é a indefinição dos realizadores sobre qual direção seguir. Eles chegam até mesmo a flertar com o slasher em determinado momento (a cena do banheiro é inacreditavelmente ruim). No texto que escrevi sobre Vida, disse que o filme repetia alguns dos elementos presentes em Alien, O Oitavo Passageiro. Nunca achei que diria que uma produção da milionária franquia me faria lembrar do longa de Daniel Espinosa.

Por fim, tecnicamente, apesar de ser competente, o filme não apresenta nada de excepcional. A montagem de Pietro Scalia acelera ou diminui o ritmo nos momentos errados (alguns acontecimentos também vão sendo jogados na trama) e a trilha sonora de Jed Kurzel, além de ser genérica, está muito longe de ter o charme da de Jerry Golsmith ou até mesmo da do compositor Marc Streitenfeld (não é à toa que o tema de Prometheus é repetido duas vezes). No que diz respeito ao design de produção (um dos poucos pontos positivos), o trabalho de Chris Seagers é condizente com o universo visto nos outros filmes da franquia.

O mesmo já não pode ser dito do trabalho de Dariusz Wolski e da equipe de efeitos. Aliás, é impressionante ver como esta e o diretor de fotografia compõem um universo imagético que abusa indevidamente da tecnologia disponível nos dias de hoje, gerando a incômoda impressão que o filme se passa, na verdade, depois da história da obra de 1979.  Visualmente, há uma enorme irregularidade no universo cinematográfico de Alien. O que é um desmérito também de Ridley Scott, cuja condução impessoal (se tivesse sido um diretor menos talentoso o encarregado de dar vida ao filme, o resultado seria o mesmo) e apressada nada tem a ver com Alien, O Oitavo Passageiro. Para que tê-lo no cargo se ele fez algo que outro diretor insignificante poderia ter feito?

Com atuações e personagens esquecíveis (como há um monte deles, todos são muito mal trabalhados), Alien: Covenant é uma mancha na carreira dos envolvidos. Não tem fôlego, não impressiona e pouco adiciona tematicamente ao universo da franquia. Ademais, esse mesmo filme já foi visto em produções bem menos ambiciosas ou esperadas. Não precisava ressuscitar um diretor do seu mortuário artístico para fazer isso. Era melhor tê-lo deixado onde estava. Agora, temos de lidar com a péssima notícia de que ele fará mais filmes da saga. Somos imensamente gratos às contribuições pretéritas de Ridley Scott, mas, atualmente, do ponto de vista artístico, não há como negar que ele é um zumbi com uma câmera na mão. O seu último filme está aí para provar.

Veja a ficha técnica e elenco completo de Alien: Covenant

Quer comentar sobre as produções com pessoas que possuem o mesmo interesse? Entre no nosso grupo do facebook e comece a discussão!

Nota do Thunder Wave
Alien: Covenant não impressiona e pouco adiciona tematicamente ao universo da franquia.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por Favor insira seu nome aqui

Siga nossas redes sociais

7,008FãsCurtir
3,084SeguidoresSeguir
4,359SeguidoresSeguir

Crítica | Magnatas do Crime

0
O longa de Guy Richie de 2019, chega finalmente ao Brasil. Magnatas do Crime é um filme que mistura comédia com boas...

The Walking Dead | Cena de momento íntimo causa nojo nos...

0
Cena de momento íntimo entre Negan e Alpha causou reações negativas nos fãs de The Walking Dead. Veja.
pt_BRPT_BR
en_USEN pt_BRPT_BR
Thunder Wave-Filmes, Séries, Quadrinhos, Livros e Games Thunder Wave