domingo, 20, setembro, 2020
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Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente

Criado pela escritora inglesa Agatha Christie para protagonizar uma série de romances policiais, Hercule Poirot é uma daquelas figuras que transcendem o meio artístico do qual surgiram e se tornam ícones culturais. A sua influência é tão grande que, décadas após a primeira aparição, o personagem se mantém presente através de novas leituras e adaptações para outras mídias. No entanto, como boa parte das representações que se estendem ao longo dos anos – e em decorrência também de sua exagerada caracterização -, o melhor detetive do mundo (como ele mesmo se define) passou a adquirir uma áurea semidivina, a ponto de ser difícil enxergar nas novas roupagens os seus traços humanos.

Assim, surge a inevitável questão: quem é o homem por trás desse processo de mitificação? Kenneth Brannagh, na sua recente versão de Assassinato no Expresso do Oriente, busca responder a essa pergunta. Transpondo novamente para a grande tela uma das histórias detetivescas mais famosas da literatura (a primeira adaptação foi realizada por Sindey Lumet em 1974 e tinha Albert Finney no papel principal), o longa é uma jornada emocional em que Poirot desce do seu panteão para perscrutar a humanidade, o que lhe faz ver as falhas conceituais presentes na sua visão de mundo e a corrupção das almas alheias. A investigação está presente, mas o que mais parece interessar ao diretor é o arco dramático do protagonista.

Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente 1
Hercule Poirot em Assassinato no Expresso do Oriente | Imagem: Fox

Os próprios minutos iniciais tornam essa intenção evidente. Começando com uma cena que se passa em Jerusalém, no Muro das Lamentações, e na qual uma panorâmica é finalizada por um belíssimo plano plongée (estabelecendo, assim, a visão de cima para baixo, a mesma que ocasionará a desilusão de Poirot), o filme, nos instantes que sucedem essa introdução, está muito mais preocupado em mostrar o protagonista como um sujeito mítico (a demora para revelar a sua face, além da maneira como isso é feito, são provas dessa abordagem) e que se coloca acima dos representantes sacerdotais das três principais religiões do mundo do que nos talentos intuitivos e lógicos que o caracterizam, mas que, na visão de Brannagh, estão longe de defini-lo.

Obviamente, isso pode gerar reações negativas, uma vez que a forma como o personagem soluciona casos policiais talvez seja a sua principal marca. No entanto, embora a trama de mistério pudesse ter sido, de fato, melhor trabalhada pelo roteiro de Michael Green (certas coisas são descobertas muito arbitrariamente por Poirot), Brannagh precisava encontrar uma maneira de transformar uma história cuja resolução é conhecida por grande parte do público em uma obra novamente palatável, capaz de atrair a atenção do sujeito que conhece todas as etapas do texto.

Image from the movie "Um Crime no Expresso do Oriente"
Assassinato no Expresso do Oriente | Imagem: Fox

No final das contas, ao investir moderadamente na investigação e abordar majoritariamente a descida ao Inferno do protagonista, o diretor acabou encontrando um jeito de agradar tanto o público atual quanto aquele que é formado por pessoas mais familiarizadas com o material original. É verdade que, além do que já foi mencionado, a falta de interesse do cineasta em explorar os espaços e a claustrofobia do trem também pode ser um motivo para decepção, mas todos os outros aspectos que caracterizam a direção de Brannagh são tão ricos e significativos que é muito difícil não sair da sala de cinema comovido com a trajetória que Poirot teve de percorrer para descobrir o mundo tal como ele é e não como se configura em sua mente.

Ver a ironia com que é composta a linda cena em que Poirot descreve a sua perspectiva (“Vejo o mundo como ele devia ser, é por isso que consigo enxergar o que está errado”), onde o horizonte que ele tanto fita será aquele que lhe colocará em uma situação na qual todos os seus princípios se mostrarão equivocados, é um verdadeiro regozijo narrativo; posso afirmar o mesmo sobre plano-sequência em que acompanhamos a entrada de Poirot no trem, no qual personagem é sempre visto pelos olhos alheios com fascínio (como se estivessem presenciando a aparição de um anjo ou deus) e a opção de manter a câmera do lado de fora cria um importante jogo de espelhos e reflexos ilusórios (algo que é corroborado ao longo da narrativa);  e por fim, como não se comover com a longa cena em que, à procura de um Judas e triste por ter de sacrificar o seu juízo moral, Poirot se torna uma representação de Cristo na Última Ceia.

Além disso, em razão de Brannagh ser um diretor dono de uma sensibilidade antiga, todos os diálogos são filmados perfeitamente, com os planos, contra-planos e close-ups surgindo nos momentos certos e potencializado as atuações precisas do calibrado elenco (nenhum ator está abaixo do nível estabelecido pelos parceiros de cena). Até os efeitos especiais, algo que parece ter lhe incomodado nas super-produções que dirigiu recentemente, são empregados no filme com um importante propósito narrativo e dão ao trem um caráter mágico e fantasioso, o que é importantíssimo para gerar a sensação de que estamos em uma representação microcósmica de toda a sociedade humana. O preto e branco, por sua vez, nos momentos em que aparecem, transmitem a impressão de um passado que, diante das novas descobertas de Poirot, parece desaparecer e se tornar cada vez mais longínquo.

Image from the movie "Um Crime no Expresso do Oriente"
Assassinato no Expresso do Oriente | Imagem: Fox

Invariavelmente, a reunião de todas essas características transforma Assassinato no Expresso do Oriente em um profundo e emocionante estudo de personagem, no qual as pistas e descobertas do caso se tornam partículas de uma explosão cuja principal característica é a mudança completa de um determinado comportamento. Sai a arrogância e o que entra no lugar é a humildade redentora. Pode desagradar inicialmente, mas nessa investigação, não são as vidas das vítimas e dos culpados que se modificam, mas a do investigador, nos mostrando que atrás do mito se enconde um homem de carne e osso. No fim, se resta algum elemento sobrenatural na narrativa, é apenas o bigode de Poirot, que na sua total magnificência, ainda está abaixo de um nariz farejador e de olhos profundamente sábios.

Nota do Thunder Wave
Sabendo introduzir o importante personagem das obras de Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente é um filme que promete agradar aos leitores e não leitores da autora.

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