Nesta semana, estreia nos cinemas brasileiros mais uma adaptação dos videogames. Dessa vez, o jogo escolhido foi Assassin’s Creed. Protagonizado e produzido por Michael Fassbender, o filme foi durante anos a menina dos olhos do ator. No entanto, apesar de ser visível a sua paixão na maneira com que se entrega ao papel, a obra não consegue escapar da aparente maldição que rodeia as adaptações de jogos eletrônicos para o cinema. Pois, assim como quase todos os filmes que buscaram material nos videogames, Assassin’s Creed é muito ruim.

O protagonista da história é Carl Lynch (Michael Fassbender). Executado na prisão após ter sido sentenciado à morte, ele é ressuscitado uma semana depois pela doutora Sofia (Marion Cotillard). Trabalhando para Rikkin (Jeremy Irons), o seu pai, numa empresa chamada Abstergo, ela está interessada em encontrar uma cura para a violência. Para isso, é preciso achar um artefato antigo chamado de A Maça do Éden. Segundo a tradição, esse artefato detém um poder sobre os instintos mais primitivos do homem. Uma vez que a sua última aparição foi em 1492, quanto estava sob o poder de um homem chamado Aguilar, membro do Credo dos Assassinos, Sofia usa um dispositivo que é capaz de criar projeções a partir das memórias contidas na genética de uma pessoa. Como Aguilar é um dos seus ancestrais, Carl é a única pessoa que pode usar esse dispositivo e encontrar o artefato.

Adaptado por Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Collage, o roteiro de Assassin’s Creed é um desastre completo. Além de contar uma história estapafúrdia que até mesmo a suspensão de descrença mais profunda não é capaz de fazer o espectador acreditar no que está vendo, o ponto de partida do longa é tão absurdo que o público ficará se fazendo a seguinte pergunta ao longo de toda a projeção: “por que uma mulher que tem o poder de ressuscitar uma pessoa está interessada em descobrir uma cura para a violência?!” Afinal, há alguma descoberta científica mais importante que a da ressurreição? É impossível comprar a ideia de que Sofia está preocupada com a violência no mundo depois ter feito uma descoberta dessa magnitude.

Assassin's Creed

Construindo falas assustadoramente ruins (os momentos em que Rikkin coloca a filha ao lado de grandes cientistas e Sofia cita para o pai uma frase de Robert Oppenheimer são particularmente horrorosos), os roteiristas também erram em investir a todo momento em diálogos expositivos para explicar as “motivações” dos personagens e o funcionamento de alguns dispositivos tecnológicos. O uso recorrente desse recurso só serve para deixar explícito a total falta de criatividade visual dos roteiristas e realizadores na hora de passar informações vitais da história do filme para o espectador. Ademais, além de cansar com o passar do tempo, o uso abundante desses diálogos é um desrespeito com o público, já que fica claro que os responsáveis pelo filme não confiam na nossa capacidade de fazer associações e interpretar  imagens.

No entanto, é mesmo a pobreza vista na construção dos personagens que coloca tudo a perder. À medida que Rikkin e Sofia são unidimensionais e unicamente definidos por seus objetivos pessoais (no final, há uma mudança na opinião de Sofia que é totalmente inverossímil dentro da trama e foi colocada apenas como um gancho para possíveis sequências), Carl é um homicida completamente antipático (nem o carisma de Fassbender o torna simpático) que age e faz as coisas que pedem para ele fazer sem nenhuma motivação ou objetivo no horizonte. Além de o espectador ter dificuldade em se relacionar com o protagonista desde o início, a nebulosidade em volta dos elementos que o movem no desenrolar da história torna a experiência de acompanhá-lo em algo inócuo e nada recompensador.

Assassin's Creed

Tecnicamente, a obra é tão pobre quanto o roteiro. Trazido por Fassbender para a função de diretor, Justin Kurzel (o diretor de Macbeth) e sua equipe realizam uma série de escolhas que, além de serem equivocadas, são totalmente injustificáveis. Investindo em câmeras lentas que servem apenas para causar efeito e em inúmeras tomadas aéreas inúteis, Kurzel e Adam Arkapaw, o diretor de fotografia, pintam as cenas que se passam no passado com um amarelo que flerta constantemente com a tonalidade sépia e cuja única justificativa, além da obviedade de usar essa cor para narrar eventos passados, é refletir o calor das paisagens desérticas de Andaluzia. Não há nenhuma relação entre as cores e os tons usados com o mundo interior dos personagens. Além disso, o 3D é aplicado pelo dois de maneira errada, uma vez que em nenhum momento eles exploram a profundidade de campo (nem na esperada cena do salto o recurso é usado corretamente!)

Também apresentado problemas na montagem (Christopher Tellefsen, o montador, recorre a uma montagem alternada entre eventos do passado e presente que compromete o ritmo da história e deixa a trama arrastada em alguns momentos – nesse sentido, o segundo ato é extremamente problemático), o longa sofre sobremaneira com o excesso de efeitos especiais (as já mencionadas tomadas aéreas são criadas totalmente por computador), que deixam claro para o espectador que foram realizados digitalmente (nos dias de hoje, é um absurdo apresentar efeitos tão precários como os vistos neste filme!). O único aspecto técnico que merece ser destacado é a trilha sonora, que, transitando entre diferentes gêneros, consegue embalar o espectador e até mesmo fazer com ele que se envolva momentaneamente com a história em determinadas cenas.

Com um dos clímax mais anticlimáticos dos últimos anos e atuações pouco inspiradas (Fassbender é o que se sai melhor), Assassin’s Creed era a esperança dos fãs de games e dos cinéfilos ao redor do mundo de que, enfim, fosse feito um filme à altura do jogo no qual foi baseado. No entanto, como é possível sentir no começo da obra e confirmar ao término dela, não foi dessa vez que os games foram adaptados com justiça. Infelizmente, Assassin’s Creed figurará ao lado de atrocidades como Street Fighter, Mortal Kombat, a série Resident Evil e tantos outros.

Texto escrito por Miguel Forlin.

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