quarta-feira, 23, setembro, 2020
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Crítica: Bingo- O Rei das Manhãs

Na década de 1940, o palhaço Bozo surgiu nos Estados Unidos. Criado por Alan W. Livingston para protagonizar histórias infantis, ele teve os direitos adquiridos pelo ator Larry Harmon e logo migrou para a televisão. O sucesso do programa foi tão acachapante que várias emissoras locais passaram a transmiti-lo, transformando a figura do palhaço em uma sensação nacional. Para extrapolar o alcance da marca, os realizadores o levaram a outros lugares do mundo, inclusive o Brasil. Em nossas terras, um dos intérpretes mais conhecidos do personagem foi Arlindo Barreto, a figura central do longa Bingo: O Rei das Manhãs.

A narrativa começa mostrando Augusto Mendes (Vladimir Brichta) trabalhando como ator de pornochanchadas (por causa de direitos autorais e das liberdades criativas adotadas pela equipe de produção, os nomes Arlindo Barreto e Bozo foram substituídos). Atrás de um lugar ao Sol, ele busca constantemente papéis que possam lhe alçar à fama. A grande oportunidade surge quando é contratado para interpretar o palhaço Bingo em um show televisivo. Inicialmente, a recepção é fria, porém, o número de espectadores vai aumentando. O sucesso repentino faz Augusto mergulhar em uma espiral de vícios e autodestruição.

Bingo - O Rei das Manhãs
Vladimir Brichta como Bingo | Imagem: Warner Bros.

Estruturalmente, Bingo: O Rei das Manhãs segue a cartilha das cinebiografias: sujeito desconhecido descobre a fama, mas entra em decadência. Nesse sentido, o filme é idêntico a muitos outros cuja narrativa é centrada na história de uma celebridade. No entanto, há algo que o destaca dos de mais: Augusto Mendes não é um sujeito corrompido pela fama. Na verdade, o seu comportamento era errático antes. Embora tenha sido um pai carinhoso e filho devoto, ele já tinha fracassado no casamento, recorria à bebida quando as coisas não davam certo e trabalhava no ramo da pornografia.

Dessa maneira, o personagem é trágico desde o início. Ele trilhava um caminho de perdição antes mesmo de percorrer o trajeto da fama. Tudo o que esta fez foi abrir o leque de possibilidades. Sendo assim, ao calcar o seu roteiro na causalidade, Luiz Bolognesi propõe ao espectador uma dura descida ao Inferno, em que a vertiginosa sucessão de eventos e a tristeza de acompanhar o declínio de um sujeito talentoso transformam a narrativa em uma forte experiência senrorial, a qual, por sua vez, é fortalecida pela atuação memorável de Brichta (o ator encontra o ponto certo, abrançando a caracterização, mas nunca permitindo que o lado humano se enconda sob a caricatura) e a explosão de cores proporcionada pelo figurino e a direção de arte.

Aliás, em relação a estes dois últimos departamentos, é necessário destacar a destreza com que Cássio Amarante e Verônica Julian empregam a mesma paleta de tons fortes para realçar tanto o colorido do programa infantil quanto a tristeza dos apartamentos de Marta Mendes (Ana Lúcia Torre), a mãe, e o de Augusto (a televisão no centro da sala, como se fosse um trono, é uma ótima ideia). Inteligentemente, eles percebem que, até certo ponto, as cores vivas transmitem vivacide, mas, quando esse ponto é ultrapassado, viram um forte indicativo de decadência (fato comum não só à trajetória do protagonista, como à da matriarca). Um outro elemento que também ilustra a ruína dos personagens são as luzes de neon usadas pelo talentoso diretor de fotografia Lula Carvalho.

Com esses méritos, é de se lamentar que a primeira incursão de Daniel Rezende na direção falhe em elevar o filme de patamar. Fomoso por ser o montador de obras como Cidade de Deus, Tropa de Elite e Robocop, ele peca no excesso de maneirismos e na hora de potencializar a performance de Brichta (há instantes que imploram por um close-up que nunca vem). Um momento que sumariza isso é quando Augusto descobre que os produtores estão testando novos atores para interpretar Bingo. Em vez de colocar a câmera na mão e acompanhar o personagem enquanto caminha (no que poderia ser uma cena poderosa), o cineasta prefere deitar a câmera e ir apagando as lâmpadas aos poucos, um recurso que reflete simbolicamente a ligação de Augusto com o palco e as luzes, mas que não consegue extrair toda a emoção que existia na situação.

Esses desperdício também pode ser visto no desenrolar da história. Ao longo da narrativa, aparecem discussões interessantes que Bolognesi simplesmente abandona. Temas como a degradação cultural proporcionada pela televisão e a confusão de identidades entre ator e persona fictícia dão as caras em algum momento, mas ficam apenas no campo das possibilidades. Além disso, na metade final do segundo e início do terceiro, o roteirista podia ter diminuído o drama envolvendo o filho (Cauã Martins) e trabalhado mais a relação de Augusto com a mãe. Do jeito que está, parece uma canção de uma nota só.

Juntas, essas falhas acabam por sabotar a excelência de Bingo: O Rei das Manhãs. Não me entendam mal, o filme é bom. A história é interessante, o roteiro, na maior parte do tempo, é competente, o ator principal brilha em cada segundo, a recriação de época transporta o espectador de volta aos anos 80 e, visualmente, o longa é chamativo. Todavia, se tivesse a coragem de se aprofundar nos tópicos que levanta e, na cadeira de diretor, alguém mais talentoso e experiente, podia ser o melhor filme brasileiro desde a retomada. Bateu na trave. Mas, mesmo assim, o chute foi bonito.

Veja a ficha técnica e elenco completo de Bingo- O Rei das Manhãs

Nota do Thunder Wave

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