quarta-feira, 23, setembro, 2020
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Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey, EUA, 2015), filme homônimo ao livro de E L James, agora tem a sua tão aguardada (por alguns) adaptação para as telonas, dirigida por Sam Taylor-Johnson (O Garoto de Liverpool, 2008), o longa promete ser uma das grandes bilheterias do ano, vide o sucesso dos livros.

Sim, li os livros. Sou livreira por profissão e interessada em tudo que é publicado. Diferente de muitas pessoas do meio, ditas “cultas” e que torcem o nariz empinado para tudo que faz sucesso, best-sellers aguçam minha curiosidade: “Por que está fazendo tanto sucesso?” “Do que os fãs gostam tanto?” “O que odiaram?” Prefiro enfrentar a leitura e tirar minhas próprias conclusões. Assim sendo, leio tudo que me cai nas mãos e, assim, foi com essa trilogia.

Cinquenta Tons de Cinza
Christian e Anastasia: sexo e romantismo nunca foram tão opostos.

Posso começar pelo grande mérito da versão cinematográfica de Cinquenta Tons de Cinza: a adaptação do texto literário para roteiro de cinema. Creio que, pelo fato do livro ser muito imagético – enquanto para descrever uma cena de sexo, por exemplo, leva algumas páginas, mostrá-la em imagens pode resultar em apenas alguns segundos –, a história coube inteira na duração da película e pouca coisa precisou ser tirada. Então, os fãs poderão respirar aliviados. A fotografia, trabalhada por Seamus McGarvey (Desejo e Reparação, 2007), também é bastante clean e agradável, nada de genial. Como era de se esperar, os tons de cinza predominam: a cidade ao fundo, as gravatas na gaveta, o asfalto, entre outras coisas. Apesar de bastante óbvia, esta escolha estilística tem uma simplicidade que emprestou suavidade e um certo ar melancólico à produção, o que combina com a história triste que é apresentada. “Triste?” Sim. Triste.

Todo mundo está cansado de saber a história, mas vá lá: Anastasia Steele (Dakota Johnson, de Need For Speed: O Filme), universitária apaixonada por livros, numa entrevista acidental conhece Christian Grey (Jamie Dornan, de Maria Antonieta), jovem e milionário empresário. Os dois se envolvem e ela descobre que ele é praticante de BDSM (acrônimo para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo). Christian quer que ela aceite e participe de seu mundo. Anastasia fica curiosa, mas quer algo mais do que um contrato sexual. Ela quer romance… e ele desconhece o que é isso.

Claro que existe muito mais na trama, principalmente nas entrelinhas. Para entender o que é incômodo nesse tipo de história, é preciso entender uma classificação fundamental de personagem, conhecida como trope, que ocorre quando algo é muito usado a ponto de virar um clichê na construção das personas dentro dos filmes e da literatura. Assim são criados os estereótipos que propagam imagens idealizadas e preconceitos.

Crítica: Cinquenta Tons de Cinza 1
Anastasia Steele é o “trope” na trama de “Cinquenta Tons de Cinza”.

O trope que aparece em Cinquenta Tons de Cinza é o da Manic Pixie Dream Girl. Esse termo foi cunhado por Nathan Rabin, crítico estadunidense, ao se referir à personagem de Kirsten Dunst em Tudo Acontece em Elizabethtown (Cameron Crowe, 2005), discorrendo que ela não era a primeira do gênero. Nas palavras dele, a MPDG é “aquela criatura cinematográfica borbulhante e rasa, que existe apenas na imaginação febril de roteiristas e diretores sensíveis, para ensinar aos homens jovens, depressivos e sentimentais a abraçar a vida, seus mistérios e aventuras infinitas”. Aqui, podem ser encaixadas a personagem de Zooey Deschanel, em (500) Dias Com Ela (Marc Webb, 2009), a de Kate Winslet, em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Michel Gondry, 2004), e a rainha de todas, Charlize Theron, em Doce Novembro (Pat O’Connor, 2001). Essa personagem tem a função primordial de mudar, transformar o homem com quem está se envolvendo. Elas aparecem em muitos filmes incríveis, mas, por serem mostradas repetidas vezes, acabam passando uma mensagem muito forte para várias mulheres e também para os homens: a de que é desejável e necessário transformar ou ser transformado por alguém. Isso somado aos contos de fadas com os quais quase todos crescemos ouvindo gera expectativas irreais aplicadas à vida. Cada vez que um casal se separa e, logo depois, reata com promessas de mudanças mirabolantes de atitude, é esse trope entrando em ação: uma informação com a qual fomos bombardeados durante a vida toda. A mulher que salva o homem dele mesmo e o homem que devolve a autoestima para a mulher por meio do sentimento que ele tem por ela e que, geralmente, envolve presentes caros, como carros, viagens ou o título de princesa. Familiar?

Como descrito por Rabin, essa mulher geralmente conserva traços infantis, como desbocada e um tanto inconveniente, ensinando o personagem principal a lidar com sua criança interior, ou tímida e virginal (plebeia), que despertará a humanidade no homem frio e calculista com quem se envolve. Assim como Bela, de A Bela e a Fera, assim como Bella, de Crepúsculo… assim como Anastasia Steele.

A grande diferença que pode ser percebida tanto em Crepúsculo quanto em Cinquenta Tons de Cinza (lembrando que esse último começou a ser publicado na internet, originalmente, como fanfic do primeiro) é que a história é contada pelo ponto de vista da MPDG, que não perde sua qualidade fundamental, mas ganha certa personalidade e uma história de vida (que, geralmente, era sem graça, até o aparecimento do salvador). Anastasia se permite experimentar o que lhe é proposto e consegue dizer não quando a situação passa de seus limites, isso já é algum avanço e creio que tal comportamento se deve, principalmente, ao fato de ambos os livros terem sido escritos por mulheres e por vivermos em tempos (um pouco) mais modernos. Ainda assim, esse avanço não é suficiente para sairmos desse clichê e ainda continuarmos a ver mulheres sendo retratadas como se suas vidas se resumissem a se envolver com homens indisponíveis, tentando modificá-los, nascendo da insistência um tipo de amor obsessivo e controlador. Por mais que essas personagens, um pouco mais fortes, resistam a princípio, acabam rendendo-se e, o mais alarmante, as preocupações infundadas do homem acabam provando-se verdadeiras: ela nunca sabe se cuidar sozinha, ele está sempre certo.

Cinquenta Tons de Cinza poderia parar no primeiro livro/filme, quando uma sábia e forte decisão é tomada por Anastasia. Mas as continuações estão por vir e serão comentadas no seu devido tempo.

Crítica: Cinquenta Tons de Cinza 2
BDSM de mentirinha?

Deixando a desconstrução de estereótipos de lado, passemos a falar do que deixou essa saga tão famosa: sexo. Para quem acha que irá no cinema e verá um pornozão, esqueça e parta para o seu site favorito. Somente os mais puritanos acharão o filme ousado. Quem assistiu ao incrível e assustador Shame (Steve McQueen, 2012), ou ao assustador E assustador Anticristo (Lars von Trier, 2009), Cinquenta Tons de Cinza é tão chocante quanto ver alguém dançando valsa. Obviamente, não é um filme para assistir com a mamãe e algumas cenas podem até dar algumas ideias para os casaizinhos que forem ao cinema, mas também farão rolar de rir qualquer praticante real de BDSM (sério, dá um Google e leia alguns textos a respeito), que chegarão à conclusão de que o Sr. Grey não manja nada do que está fazendo, pois a coisa mais séria que acontece durante o sexo é ele usar o chicote pra dar uma espanada na garota. Foi tudo bem coreografado e executado. Não comentarei muito das cenas de castigo, apenas que a primeira delas é patética e a segunda horrorosa. Dizer mais que isso seria dar spoiler, então, que fique para o texto do próximo filme.

Toda forma de entretenimento é válida, desde que seja consensual e satisfaça suas curiosidades e vontades. Você só vai saber se tentar. Isso vale para sexo. Isso vale também para uma ida ao cinema.

Nota do Thunder Wave

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