terça-feira, 24, novembro, 2020
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Crítica | 365 days

O longa recém lançado tem feito sucesso na Netflix incitando violência física e psicológica contra a mulher

Em pleno confinamento devido ao Covid-19, trocamos as ruas pelo conforto de nosso lar. E com isso, temos tido mais tempos para ficar com nossos familiares, para refletir e se redescobrir. Porém, nesse período, crimes de violência física aumentaram 10% na comparação ao mesmo período do ano passado. Nos crimes de violência sexual o índice subiu 17% em relação a 2019, de acordo com divulgação do Instituto de Segurança Pública do Rio e da Agência Brasil. É muita mulher sendo agredida e o que tem gerado revolta é a mais nova trama da Netflix.

Entre as mais assistidas, um dos “Top 10” da Netflix, o recém lançado longa polonês, 365 Days (365 DNI), conta a história de Laura Biel (Anna‑Maria Sieklucka), uma jovem que sai de férias para Sicília com o namorado e amigos. No segundo dia da viagem, em seu aniversário de 29 anos, Laura é sequestrada pelo chefe de uma família da máfia siciliana, o jovem Massimo (Michele Morrone). Com um passado marcado pela morte e violência, ele tenta fazer Laura o amar no período de 365 dias.

Ela inicialmente se mostra resistente a situação, perdida e assustada. Porém, no decorrer da trama, ela se “apaixona” por seu sequestrador. O que no filme é mostrado como amor, entretanto, é apontado por especialistas como um claro retrato da Síndrome de Estocolmo. No longa, Laura vai a festas, faz muitas compras acompanhada de funcionários que carregam suas sacolas e até passeia de iate. Esse “sonho perfeito” romantizado por tantos filmes, somado ao fato de o protagonista ser um cara bonito, anula todas as problemáticas por trás da produção. 

Essa relação está longe de ser saudável e só quem viveu ou vive um relacionamento abusivo sabe como é essa realidade. E quem nunca viveu, se deslumbra e até sonha com esse falso amor. É o mafioso quem escolhe para onde a mulher vai, como, por exemplo, quando ele decide que Laura viajaria para Varsóvia e ponto. Ele também controla suas roupas, puxa ela pelo braço em inúmeras situações e até chega a passar a mão pelo seu corpo, inclusive em suas partes íntimas, enquanto ela está amarrada dentro de um avião, sem consentimento, o que pode ser considerado abuso sexual. Além de outras cenas em que Massimo a obriga a fazer sexo oral nele ou empurra Laura enquanto fala, calmamente, que “não fará nada sem sua permissão” não é correto. Logo isso é conectar o erotismo com atos de repressão e abuso físico, mental e sexual, atitudes que não devem ser normalizadas.

Se você achou que essa “fanfic” de 50 Tons de Cinza – muitos tem feito comparações entre a franquia e o filme polonês – teria a construção de um romance de forma gradual como acontece com Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson), enganou-se. No momento, os comentários que renderam do longa são sobre qual galã é o favorito entre o público feminino e não sobre o quão problemático ele é. Esse filme é um tapa na cara de quem há anos vem lutando contra abusos de seus parceiros, desmerecendo a mulher quanto ser pessoa.

Nota do Thunder Wave
Uma produção como essa causa espanto, uma vez que, estamos num momento que se tem discutido muito a respeito da violência, seja ela física, psicológica ou sexual, por cor, por religião ou até mesmo por ser gente. É um retrocesso ao movimento feminista, além de objetificar e coisificar a mulher.

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