quarta-feira, 8, dezembro, 2021

Crítica | A Despedida

Mais um lançamento chegando em 2021 tanto nas salas de cinema quanto nas principais plataformas de streaming sob demanda, “A Despedida” fala sobre a importância da família nos momento bons e, principalmente, nos ruins. A família pode ser uma benção, mas também pode ser uma das esferas sociais mais complexas e geradoras de frustrações e conflitos, muitas vezes deixando de ser acolhedora e se tornando intimidadora e, infelizmente, ás vezes só percebemos isso quando é tarde demais. Por isso, Blackbird se torna uma pérola para a nossa atualidade.

O drama de Roger Michell é um mergulho emocional na vida familiar que nos provoca uma reflexão devido a sua abordagem acerca do suicídio assistido, tema que não é muito debatido e no longa, somos apresentado a uma mãe e esposa que decidiu dar o seu adeus antes do tempo em virtude de uma doença degenerativa e essa despedida é cercado de conflitos que não foram bem resolvidos.

Bom, você deve estar se perguntando o que é esse “suicídio assistido” e/ ou “eutanásia”. Vamos lá! De acordo com uma publicação feita pelo site Politize!, a eutanásia pode ser considerada como um tratamento para pacientes portadores de doenças incuráveis, cujo propósito é garantir a essas pessoas uma morte mais humanizada, com menos sofrimento. É uma prática na qual um agente, movido pelo sentimento de compaixão para com a situação clínica em que o paciente se encontra, antecipa sua morte, para que este não postergue mais o sofrimento. Resumindo, é a morte assistida. No Brasil, não é permitido. Porém, em países como Holanda e Bélgica, são os únicos países do mundo que permitem expressamente a prática da eutanásia. A Suíça, não possui uma legislação expressa acerca da prática, mas reconhece o direito dos pacientes de escolher a morte indolor e humanizada. Já o Uruguai, foi o primeiro país a tolerar tal prática, por meio de uma análise de caso concreto. No longa, temos uma breve explicação sobre a decisão de Lily que quer passar seus últimos momentos com seus familiares.

Crítica | A Despedida 1
Esse é um dos momentos mais complexos e de grande reviravolta no drama A Despedida/ Reprodução

A produção retrata os últimos dias de Lily, vivida por Susan Sarandon, que, com uma doença que a fará vegetar em pouco tempo, decide por morrer de forma consciente e, por isso, marca um final de semana para passar suas últimas horas com pessoas importantes como o marido, as filhas e as pessoas que elas amam. Suas filhas, Jennifer, interpretada por Kate Winslet e Anna, personagem de Mia Wasikowska, viajam para a propriedade dos pais com seus companheiros, companheiras e filhos para o encontro. Percebemos que o diretor tem como objetivo criar um ritual ‘pré-morte’ com as imagens inicias, dando um tom fúnebre que se encarrega até o fim da trama, porém, com dosagens diferentes no decorrer da obra.

Temos uma recepção que se mostra fria e podemos perceber isso devido ao olhar da câmera que se expande da ponta dos cômodos mostrando uma visão geral do espaço da casa, de cada lugar que contempla a presença dos personagens. Porém, quando os personagens começam a interagir entre si, temos uma sensação de intimidade e, de certa forma, é sentida uma sensação de compreensão em torno dessa temática forte como a eutanásia e os conflitos internos e éticos dos envolvidos.

É evidente a qualidade das atuações em “A Despedida“. As personagens de Susan Sarandon, Kate Winslet e Mia Wasikowska são diferentes, mas se complementam, se completam. Um detalhe marcante é uma das cenas iniciais, pois a personagem de Winslet reclama com o marido por ter buzinado de forma alegre antes da chegada de Lily – que está caminhando em direção à morte -, e um tempinho depois ela tem uma atitude de completa epifania como se estivesse celebrando algo muito bom ao ver a mãe chegar. Isso nos mostra que a realidade exige esses comportamentos que necessitam serem, talvez, até fé. Diante disso, o filme se torna muito sensível com esses pequenos gestos de humanidade.

Crítica | A Despedida 2
Kate Winslet e Mia Wasikowska são as irmãs Jennifer e Anna em Blackbird/ Reprodução

Já a personagem Anna de Wasikowska possui sequências com alta força dramática, como o questionamento da irmã sobre sua sexualidade e a não aceitação do aspecto festivo com o qual seus familiares estão reunidos. Porém, em Lily vemos alguém que não quer sofrer mais e que nesse momento o que ela quer é conduzir esse caminho áspero e que muitas vezes se torna uma caminhada solitária, afinal não levamos ninguém conosco para a cova. No entanto, com essa decisão de suicídio assistido e essa “confraternização” pré-morte faz com que o telespectador sinta um carinho e um cuidado por parte de Lily.

Mas é nesse cuidado que vemos as brechas das frustrações começarem a surgir como no jantar de Natal ou na caminhada que eles fazem juntos. São momentos delicados e que nos mostram como é difícil se encaixar na comunidade em que nascemos, é difícil se encaixar na nossa própria família, pois esperamos dela apoio, compreensão e aceitação e isso é negado em muitas situações e a personagem que carrega esse peso sob os ombros é Anna. Ela é a prova real de que achamos que nossas palavras carregadas de críticas não serão absorvidas por aqueles que amamos, mas é muito mais fácil lembrar da crítica do que do afeto, estamos acondicionados à isso. O fato dela se afastar, entendemos como um sinal de que ela quer evitar novas mágoas e esse rancor que ela carrega em si, não pode ser demonstrado ou sentido, pois ele está acompanhado de amor e dor também. Fica difícil entender a ambiguidade desse sentimento, embora já tenhamos sentido alguma vez na vida.

A trilha sonora caminha pelo seguro, sem muita ousadia nem extravagancia, ela é na medida. A fotografia é bonita. O roteiro tem umas falhas e traz uma reviravolta meio “novelesca” que choca e gera um estranhamento e é nesse momento em que alguns cortes e closes acabam insinuando um sensacionalismo que não precisava. Apesar desse gap, o longa retoma o tom fúnebre e com esse ritual faz com que a reflexão sobre a forma como tratamos aqueles que amamos seja mais profunda.

Nota do Thunder Wave
É um filme muito importante, pois pode ser o "start" para o debate sobre a eutanásia. Embora, o longa tenha algumas ressalvas, não deixa de ser contemplativo e reflexivo.

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