No cinema, nos streamings e nos livros já vimos todo tipo de gênero ser explorado. Alguns com mais assertividade que outros, mas alguns temas, por mais simples que possam ser, nem sempre são bem abordados em tela e isso acontece devido a nossa bagagem ao longo dos anos, das nossas experiências com o assunto trabalhado e uma certeza que toda a humanidade tem é que tudo que nasce, um dia morre e quando chega esse momento de dar adeus a algo ou alguém, somos incapazes de o fazer, pois dói. 

Talvez, seja por isso, que o tema morte e luto seja tão complicado de representar nas telonas porque por mais que saibamos dessa certeza universal, não nos preparamos para enfrentar essa etapa da vida como se fosse uma prova de vestibular ou entrevista de emprego. 

Sinopse: A série As Pequenas Coisas da Vida (Tiny Beautiful Things) é uma adaptação do livro homônimo da escritora Cheryl Strayed, que conta a história de Clare, uma mulher que se torna colunista anônima de conselhos amorosos no site Rumpus, sob o pseudônimo de Cara Doçura (Dear Sugar, no original).

Em As Pequenas Coisas da Vida, somos apresentados a Claire, papel da talentosa Kathryn Hahn, que está com a vida de cabeça para baixo. Seu casamento não está nos melhores dias e ela não consegue se entender com a filha adolescente. Para piorar a situação atual da nossa protagonista, ela ainda carrega traumas do passado que envolvem relacionamentos, traições e uma ligação com a mãe, a quem ela perdeu para um câncer. Diante desse cenário, e de forma relutante, ela se torna uma colunista anônima de sucesso conhecida apenas como “Doçura” (Dear Sugar).

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Reprodução de As Pequenas Coisas da Vida da Star+

A construção da série segue várias linhas do tempo, narrando sua vida cheia de obstáculos, humor e também de uma beleza que só pode ser vista quando nossas vulnerabilidades nos permitem sermos o que realmente somos: imperfeitos e falhos.

Ao assistir a produção, percebe-se que o grande problema inicial é a conexão do público com a protagonista, pois no primeiro episódio somos bombardeados com muitas informações e mesmo avançando para o segundo capítulo, ainda fica difícil entender qual é o problema central que ramificou os demais e que causam o caos que vemos na vida de Claire.

Crítica | As Pequenas Coisas da Vida 1
Reprodução de As Pequenas Coisas da Vida da Star+

No entanto, As Pequenas Coisas da Vida trabalha com o cenário de que a protagonista tem problemas reais e por ela ser meio excêntrica – no início, em algumas cenas ela parece egoísta, só pensa nela, mas vemos que ela é um ser humano como qualquer outro -, faz com que o espectador reflita sobre a própria vida. A trama mostra como uma transa mal sucedida com o motorista do Uber a fez pensar sobre a sua vida amorosa conturbada.

Há muitas questões envolvendo sua mãe, que a incentivou desde cedo a fazer as coisas e, infelizmente, partiu muito cedo e foi a partir dessa perda que ela precisou aprender a enfrentar sua vida sem sua mãe. Além disso, a conexão com a própria filha não é das melhores e o fato de brigarem o tempo todo, traz à tona coisas que ela viveu com sua mãe enquanto estava viva. 

Parece bizarro e se mostra como um problema essa questão da ligação da protagonista com o público, mas não. Os dois episódios servem de base para mostrar o quanto Claire está quebrada e, por isso, as informações dos episódios introdutórios em abordar problemas desconexos da forma como foi montado se mostra algo positivo, pois a sensação de assisti-los é de que tem algo muito errado nessa trama, mas é o espírito da protagonista que está um caos. Portanto, a sensação de assistir a série não se limita àquilo que quer contar, mas como nos conta. E é então que a produção esclarece ao espectador o ponto onde quer chegar.

Dear Sugar entra aqui

Crítica | As Pequenas Coisas da Vida 2
Reprodução de As Pequenas Coisas da Vida da Star+

A premissa parece ok na teoria, mas quando vemos em tela, nos questionamos como alguém que está com a vida em frangalhos poderia nos ajudar com conselhos? Vemos que é a partir dessa posição, de ajudar pessoas anônimas que pedem conselhos na internet, que a protagonista consegue reavaliar suas decisões e atitudes na vida real.

Vemos que à medida que As Pequenas Coisas da Vida avança, como o lado escritor de Claire ficou de lado. Ao longo de sua trajetória como escritora, a protagonista foi desacreditada por editores, enquanto era a única que acreditava em si – além de sua mãe. Contudo, isso foi um combustível para que ela viesse a se questionar e deixasse sua verdadeira paixão de lado. Infelizmente, ela culpa o casamento e a filha por ter interrompido ou tirado isso dela, quando na verdade, foi ela que se negligenciou e deixou de acreditar no próprio potencial.

Após reencontrar um amigo que acredita na sua escrita, ela decide ser a Dear Sugar. Demoramos para entender, mas percebemos que a protagonista precisa voltar a acreditar em si, em sua força, em sua intuição e não esperar que alguém faça isso por ela. 

Em meio a uma vida bagunçada, ela precisa aconselhar sobre a vida de outras pessoas e são esses conselhos que a ajudam a pensar e analisar o que aconteceu com ela para que chegasse ao momento que enfrenta. Ela tem uma adolescente dentro de casa que a odeia, ela tem um casamento fracassado, e trabalha em um local que cuida de idosos que definitivamente a afastou de onde ela imaginava que sua vida a levaria.

Crítica | As Pequenas Coisas da Vida 3
Reprodução de As Pequenas Coisas da Vida da Star+

Todos esses obstáculos servem para explorar as múltiplas facetas de Kathryn Hahn, que tem muito de suas atuações enraizadas no humor. O humor está até presente, mas ela se mostra muito versátil com todo o material, que a leva do momento de fúria, para a tristeza até chegar na ironia.

Por falar em Hahn, o elenco é competente, mas é a atriz que viveu mulheres excêntricas nos últimos anos, que nos entrega uma protagonista cheia de camadas e uma atuação esplêndida. Sob a supervisão de Liz Tigelaar, a responsável por Little Fires Everywhere, a série é realmente emocionante. O conjunto da obra, sinopse, trailer, premissa – para quem não leu o livro que é a matéria base – é de que as cartas e os conselhos de Claire sejam os motores da série.

Engano seu, As Pequenas Coisas da Vida é movida pela dor e o luto da protagonista ao longo dos anos, e como isso a impactou por toda sua vida. A sua história não é pautada apenas pelo fracasso de um casamento ou de uma relação caótica entre mãe e filha, mas pelo fato de não se perdoar por ter deixado sua mãe partir sozinha. Mas vemos que ela consegue aos poucos fazer a s pazes consigo e começa o processo de superação que é algo que pode libertá-la e assim ela deixe de se sentir vazia ou quebrada.

Ironia ou não, será que essas palavras, que ela usa pra aconselhar outras pessoas, fariam efeito em algum momento de sua caótica vida? Nunca vamos saber, mas pouco importa. Essa série é um achado e merece ser vista, pois num mundo de relações líquidas e de redes sociais que escancaram a vida perfeita, é bom ver que na vida real somos falhos e quebrados, mas que há uma saída e vai ficar tudo bem.

É como ela mesmo diz na série, e que talvez seja a grande lição da trama: “Curar é algo pequeno e simples. E é apenas uma única coisa: É fazer o impossível todos os dias”.As Pequenas Coisas da Vida está disponível no Star Plus.

Além de estrelar a adaptação, Hahn também assina a produção executiva ao lado de nomes de peso, como Lauren Neustadter, Reese Witherspoon, Laura Dern, Jayme Lemons, Cheryl Strayed e Stacey Silverman.

Resumo
Nota do Thunder Wave
critica-as-pequenas-coisas-da-vidaAs Pequenas Coisas da Vida é uma série que encontra sutileza no vazio e na solidão de uma dor não superada. É uma obra extremamente emocionante que nos faz refletir sobre a vida. A partir do texto de Cheryl Strayed (todos os episódios se encerram com a leitura das colunas de Sugar) e da performance de todos os atores, a trama ganha força e mostra que nem só de blockbuster vive o audiovisual. Em especial, há o potente elenco feminino: Kathryn Hahn é uma atriz talentosíssima e versátil. Assim como sua correspondente na juventude – Sarah Pidgeon que consegue nos entregar uma Claire que expressa sua dor latente de forma convincente. Ambas estão esplêndidas em tela. Não é uma série que vai te deixar feliz, mas vai mostrar que é possível se refazer da destruição.

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