sexta-feira, 27, maio, 2022

Crítica | Belfast: A Irlanda do Norte dos Anos 60 Pelos Olhos de uma Criança

Belfast definitivamente é sincero, equilibrado e emocionante, fazendo valer os prêmios que tem recebido e, provavelmente, ainda irá receber.

Belfast está entre os favoritos (se não for “O” favorito) para as premiações do Oscar deste ano. O filme, profundamente pessoal (mas não autobiográfico), escrito e dirigido pelo norte-irlandês Kenneth Branagh, tem chamado a atenção nas premiações ao redor do mundo, tanto pelo seu teor ingênuo, belo, saudosista e melancólico, quanto pelas grandes atuações do seu elenco e a qualidade de sua direção.

Mas ele realmente faz juz a toda expectativa que vem gerando? Logo de começo, podemos dizer que sim, que é um filme que praticamente foi produzido para atingir premiações, mesmo que não seja exatamente complexo ou original.

Belfast se passa na cidade que lhe empresta o nome, nos conturbados anos 60, quando os Tumultos (como eram chamados os conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte) faziam parte da rotina das famílias locais. O filme é todo visto pela perspectiva de Buddy (Jude Hill), um garoto de nove anos pertencente a uma família protestante da classe trabalhadora do Ulster.

O enredo é focado principalmente no dia-a-dia das famílias da Belfast daquela época, que incluía barricadas separando vizinhos, dificuldades de relações entre católicos e protestantes, ligações de ambos os lados com a criminalidade local, dificuldades financeiras de famílias trabalhadoras em um país dividido, o sonho da emigração, a violência dos conflitos e atentados, só que tudo isso visto pelos olhos de Buddy, com suas perspectivas infantis.

O roteiro de Belfast realmente não traz grandes complexidades, tendo um teor quase autobiográfico, só não o sendo totalmente por haver um certo esforço do diretor em criar uma distância entre si mesmo e os personagens. Porém, é perceptível que ele está falando de suas próprias memórias.

Talvez seja um lugar-comum atual ver diretores e roteiristas tentando retornar aos seus dias mais simples (ou mais bem-sucedidos), algo que tem ocorrido com nomes que vão de Scorcese a Stallone, todos com dificuldades em abraçar o mundo atual.

No caso de Belfast, o trabalho é bem desenvolvido o bastante para se ignorar essa questão, mesmo porque, independente de todo o conflito social de fundo, o filme é principalmente sobre pessoas e, acima de tudo, sobre a inocência. Ele consegue passar humor e ternura, mesmo tratando de temas trágicos, que estão bem ali, mas que parecemos esquecer sob o olhar infantil de Buddy, embora retomem seu significado sinistro quando o espectador volta a pensar sobre eles.

Contudo, é possível que essa própria ênfase na visão infantil, que parece ser o grande mérito do filme, também seja uma das suas fontes de crítica, pois a narrativa se torna por vezes inconsistente e frágil, mas compreensível quando nos lembramos que estamos vendo tudo sob uma ótica infantil. Uma abordagem que guarda semelhanças (mas não exatamente paralelos) com a empregada por Taika Waititi em Jojo Rabbit, mas com muito menos ousadia e muito mais realismo.

Outro elemento usado para trazer a sensação de nostalgia ao filme está também no uso da fotografia em preto e branco, a cargo de Haris Zambarloulos, recurso também utilizado no aclamado Roma, de Alfonso Cuarón. Apesar de não ter a mesma abordagem do filme do diretor mexicano, Belfast ainda nos traz algumas sequências artisticamente poderosas, principalmente as relacionadas aos Tumultos.

Porém, o seu foco principal é mesmo a perspectiva de Buddy, transmitindo sensibilidade, humor e ingenuidade com suas imagens e sua perspectiva um tanto passiva sobre o que acontece no mundo dos adultos, além de ângulos de câmera inusitados,como uma criança travessa que observa adultos escondida. A trilha sonora embalada por canções de Van Morrison também é extremamente marcante, e se encaixa perfeitamente ao clima, saudosismo e temas do filme.

O elenco é, de longe, um dos maiores acertos, entregando performances dignas de ficar na memória, carregadas de significado e emoção. Ciarán Hinds, Judi Dench, Jamie Dornan e a incrível Caitriona Balfe (a Claire, de Outlander) mostram como trazer peso, força, sofrimento, insegurança e delicadeza a cada cena.

Todos os personagens são ambíguos, pois são uma coisa perante os olhos idealizadores de Buddy, mas que tornam todas as suas fragilidades visíveis ao público, mesmo que invisíveis aos olhos da criança. E por falar em criança, mesmo o jovem Jude Hill, estreante em longas metragens, entrega a criança esperada do filme. Não há um comentário negativo sequer sobre o elenco.

Belfast, no final das contas, é principalmente duas coisas. Uma celebração melancólica e saudosa às memórias infantis de Kenneth Brannagh sobre a Irlanda do Norte onde cresceu, mas também um filme robusto, que não se olvida em tomar decisões narrativas mais ásperas. É um filme sobre uma convulsão social, mas como vista e entendida pelos olhos de uma criança.

Talvez não seja exatamente original ou complexo, mas definitivamente é sincero, equilibrado e emocionante (com um elenco que praticamente torna irrelevante a sua simplicidade com a qualidade de sua atuação), fazendo valer os prêmios que tem recebido e, provavelmente, ainda irá receber.

Por: Wallace William

Nota do Thunder Wave
Belfast definitivamente é sincero, equilibrado e emocionante, fazendo valer os prêmios que tem recebido e, provavelmente, ainda irá receber.
Escrito PorWallace William

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