Em uma vila de pescadores varrida pelo vento, uma mãe interpretada pela talentosa Emily Watson está dividida entre proteger seu amado filho, papel de Paul Mescal e seu próprio senso de certo e errado. Assim como a protagonista, nos deparamos com os dilemas maternos. Essa é a questão central abordada pelo longa, o que uma mãe é capaz de fazer por um filho? Aqui as consequências não impactam só a sua família, mas a sua comunidade. O drama é dirigido por Anna Rose Holmer e Saela Davis, já em cartaz no Brasil.

Estamos novamente na Irlanda e desta vez, não vemos os costumes que tiveram espaço em Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin, 2022). Pelo contrário, o filme da estreante Saela Davis e Anna Rose Holmer (que fez antes The Fits [2015]) questiona os costumes e denuncia uma sociedade machista que, no caso, insiste em ignorar o abuso sexual ocorrido na comunidade.

Para enfatizar a carga sombria e pesada do longa, a paleta de tons escuros é privilegiada no filme, mesmo em sua primeira parte, quando o personagem de Mescal retorna para casa após uma longa e desconhecida temporada na Austrália. É um momento que retrata uma tragédia, mas ainda assim traz felicidade para Aileen, personagem de Emily Watson, mãe de Brian O’Hara (Paul Mescal). No entanto, a irmã Erin (Toni O’Rourke) e o pai Con (Declan Conton), não esboçam tanta alegria assim, talvez, por já saberem que problemas irão surgir, já que no decorrer do longa vemos que Brian e o pai não se entendem muito bem. Após voltar para casa, Brian retoma a vida local, ou seja, começa a trabalhar na criação de ostras da família e a frequentar o bar local.

Crítica | Criaturas do Senhor 1

É a partir da transição de cor de Criaturas do Senhor que vemos algumas coisas dando errado, como o aparecimento de fungos nas ostras – significa que a colheita deve ficar suspensa durante certo tempo -, e a denúncia que a jovem Sarah Murphy (Aisling Franciosi) leva à polícia de estupro. O suspeito do crime é Brian, porém a sua mãe não aceita essa hipótese e tenta acertá-lo com um falso álibi. Infelizmente, a comunidade demonstra o mesmo pensamento e a vítima passa a ser rechaçada.

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Embora, no fundo, Aileen soubesse da verdade, ela só toma conta disso quando Sarah entra no bar e o dono se recusa a servi-la. Os demais frequentadores, da mesma forma, tiram sarro da moça. É nesse momento que Aileen percebe o quanto essa comunidade é machista e menospreza as mulheres. Num outro momento, é possível ver a personagem de Watson levar um tapa no rosto e seguir como se nada tivesse acontecido. E isso mostra o quanto a sociedade e principalmente as mulheres têm normalizado certas atitudes que não deveriam acontecer e isso é resultado do machismo estrutural. 

Em Criaturas do Senhor, tenho a sensação de que essa não foi a primeira vez que Sarah tenha sido abusada por Brian. Só uma especulação devido ao que foi dito pela personagem. Daí para frente, a atitude de Aileen muda. Mais do que mãe, ela é uma mulher, portanto, precisa apoiar suas companheiras de gênero. A história traz, então, uma solução demasiadamente drástica, tirando um pouco do realismo do longa, mas que traz um simbolismo esmagador. (Mas eu preferia o ver pagando judicialmente pelo seu erro).

Crítica | Criaturas do Senhor 2

O elenco está impecável. Paul Mescal dá um certo tipo de dualidade ao personagem. Parece que os dramas fazem parte do DNA do ator, ainda mais depois de  ter chamado atenção em Normal People e de ter sido  indicado ao Oscar de Melhor Ator em 2023, por seu trabalho no premiado Aftersun. Já Emily Watson transmite muito bem aquele apelo maternal que cada cena exige. Mesmo sabendo da verdade, ela tenta provar o contrário. Mas é questionada pela filha que assim como quem assiste não cai no papo furado de Brian. Watson, que já foi indicada ao Oscar duas vezes por ‘Ondas do destino’ e ‘Hilary e Jackie’, é uma atriz talentosa e cue consegue fisgar o espectador pelo olhar.

Criaturas do Senhor possui uma direção consistente da dupla de cineastas ainda frescas na função. Saela Davis e Anna Rose Holmer acertam ao não cair no modismo da câmera trêmula, mesmo sendo esta uma produção da A24, estúdio que tem lançado vários filmes nessa mesma vibe e a dupla presa por enquadramentos bem pensados e um ou outro momento mais inspirado, com um pouco mais de foco, mais direcionado e até de forma mais intimista.

O auge do longa é a cena em que a voz de Sarah é isolada enquanto canta junto com a comunidade. Tal recurso visa demonstrar o impacto da jovem em Aileen, que nesse momento começa a se culpar por sua negligência com sua companheira de gênero e, principalmente, amiga. Outro destaque é a cena final, quando o vento e o sol no rosto de Sarah simbolizam a libertação daquele lugar onde o machismo prevalece. Assim como no início, ela falava de querer ter um futuro longe da li, não vemos outra solução, pois a comunidade preza tanto a tradição que, por conta dela, os pescadores não aprendem a nadar. No fim, o longa alerta sobre as consequências de nossos atos.

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