segunda-feira, 4, julho, 2022

Crítica | Curral, de Marcelo Brennand

“Curral” é um trabalho corajoso, sem dúvida nenhuma, e com muitos méritos a serem elogiados.

Não é, ou ao menos não deveria ser, segredo para nenhum brasileiro o funcionamento dos chamados “currais eleitorais”, realidade típica de um país onde a corrupção, neste caso manifesta pela prática da compra de votos, ainda se ampara no desespero e carência da população.

Este é o tema principal tratado em “Curral”, do diretor Marcelo Brennand (que também assina o roteiro, junto a Fernando Honesko), apresentado ao público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e tendo sido laureado com dois prêmios (Melhor Ator, para Thomás Aquino, e Melhor Contribuição Técnico Artística) no 46º Festival de Cinema Ibero-Americano de Huelva, na Espanha.

Chico Caixa (Thomás Aquino), é um ex-funcionário da prefeitura de Gravatá, demitido após uma tentativa de expandir o fornecimento de água para as áreas mais pobres da cidade. Ele é convidado pelo advogado Joel (Rodrigo Garcia), um pretenso “outsider” da política, a se unir a uma chapa que fará frente aos dois partidos tradicionais da cidade (os Azuis e os Vermelhos), e assim derrotar o prefeito nas eleições municipais.

A dupla se utiliza da promessa dos serviços de um carro-pipa, responsável pelo fornecimento de água aos bairros pobres do município (que sofre pela escassez hídrica) como moeda de troca. Após ser eleito, porém, Chico Caixa acaba se descobrindo usado e preso às engrenagens de um sistema que já é corrupto em sua essência.

Os conchavos, a compra de votos, o ceticismo dos eleitores, a descoberta do protagonista de si mesmo como parte de mais um esquema corrupto e a percepção da qualidade sistêmica da corrupção são os principais fatores que estabelecem o drama político dirigido por Brennand.

O tema não é estranho ao diretor, que já havia retratado as eleições (reais) de Gravatá, Pernambuco, no documentário “Porta a Porta”, de 2008. “Curral” dialoga diretamente com a nossa realidade política, de uma forma simples e bastante direta. Apesar de focado nas comunidades pobres de um pequeno município, o ambiente político da Gravatá ficcional reflete o macrocosmo da política nacional, o qual se repete em praticamente todo o país.

É impossível não reconhecer o Brasil na virulenta polarização da pequena cidade, na corrupção dos políticos locais e nas promessas feitas na expectativa de ganhar a confiança da população. A simbologia dos partidos opostos de Gravatá, com suas cores representativas (azul e vermelho), embora trate de um simbolismo recorrente em diversos lugares do mundo, traz um grau ainda maior de familiaridade ao expectador brasileiro (talvez até um pouco óbvio demais para alguns). Mas talvez este aspecto direto e literal seja justamente um dos aspectos questionáveis do filme, como falarei adiante.

O elenco é competente em seu trabalho, e todos os personagens principais merecem ser destacados, como o Joel, de Rodrigo Garcia, e sua moral questionável; o Vitorino de José Dumont, político veterano da região e maior representante da corrupção do sistema, e Mariana, de Carla Salle, uma grande esperança na renovação política local (embora a personagem pudesse ser muito melhor aprofundada, principalmente pelo seu aspecto conquistador, em uma obra com aspectos majoritariamente céticos e conformistas em relação à política)).

Mas o grande destaque vai mesmo para Thomas Áquino, que consegue trazer identificação ao seu personagem, com seu jeito despojado e crível de um homem que tenta acreditar no sistema até ser engolido por ele. Merece a citação também o uso da população local para a figuração da obra, trazendo autenticidade à obra.

O aspecto técnico também é digno de menção, com uma fotografia bem planejada que acompanha as movimentações pela cidade com fluidez, além de mudanças de planos de visão com a intenção de mostrar como a dicotomia entre os dois partidos majoritários divide o município.

As sequências finais do filme são belíssimas no aspecto visual e até mesmo destoam do restante da obra. “Curral” tem um ritmo que fica gradativamente mais tenso, o que ajuda a prender a atenção do espectador. Há muitas cenas envolvendo brigas e multidões, mas o filme não se aproxima da ação, sendo que tais momentos apenas ajudam a dar dinamismo à trama, não permitindo que ela fique monótona.

Isso acaba compensando, em partes, a falta de sutileza do filme, uma vez que não há tramas paralelas ou subtramas no roteiro. Este é o seu tema e ele é abordado do início ao fim, mesmo em momentos em que se poderia abrir espaço para aspectos que trariam veracidade e humanidade aos personagens. Não há metáforas a serem encontradas, tudo é posto de forma direta, sendo uma obra em que os personagens agem em favor da trama, não o contrário. Além disso, as possibilidades de uma interpretação própria são quase nulas para o expectador, com tudo ocorrendo tão às claras.

“Curral” é um trabalho corajoso, sem dúvida nenhuma, e com muitos méritos a serem elogiados. É uma obra crítica e politizada em um momento em que o cinema nacional precisa ser crítico e politizado, e este objetivo ela cumpre com louvor, ainda que com uma visão um tanto conformista sobre o tema abordado.

Além disso, é também um trabalho com muitos méritos artísticos, principalmente na parte técnica e no elenco. Talvez o seu único porém seja uma narrativa excessivamente linear, sem outras direções para olhar, sem outras possibilidades para interpretar. No final, talvez ainda seja uma influência da verve documentarista de Brennand levada à ficção. Contudo, não é algo que torne “Curral” menos digno de ser visto.

Por: Wallace William

Nota do Thunder Wave
“Curral” é um trabalho corajoso, sem dúvida nenhuma, e com muitos méritos a serem elogiados.
Escrito PorWallace William

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