“A mesma velha história do rock ‘n roll. A bebida, as drogas, a solidão.”

Billy Dunne, The Six

Em outubro de 2004 nascia Rebelde, a novela mexicana que arrebatou adolescentes pelo mundo. O núcleo principal formava uma banda de sonoridade pop com um soft rock. Foi sensação no mundo todo, fizeram shows e tiveram alguns remakes como a versão brasileira pela TV Record e a versão da Netflix. Fato é que, a banda ficou no imaginário da garotada. Particularmente, nunca gostei. Achei muito bobinha e até hoje, não acho uma conexão. E quando soube que o livro escrito por Taylor Jenkins Reid, Daisy Jones & The Six seria adaptado, fiquei com medo de que fosse ter o mesmo DNA da banda mexicana. Acreditei que seria mais uma série sobre uma banda fictícia bobinha, mas eu estava enganada. Li o livro e fiquei apaixonada. Tive a oportunidade de assistir à série antes de seu lançamento e posso afirmar que apesar das diferenças, está incrível. E não, não tem nada de “Rebelde” ali.

Antes da metade da série, tem um momento emocionante na qual duas estrelas se chocam. Riley Keough interpreta uma etérea vocalista, que é convidada para apresentar sua colaboração com uma banda de rock em ascensão, mas invade o palco um pouco cedo e se recusa a sair depois que sua única música foi tocada. Daisy e o vocalista principal do The Six, Billy, interpretado pelo charmoso Sam Claflin, “batalham” não só pelo microfone, mas por território, por liderança, competindo pelas letras das canções gravadas, mas sempre com o mesmo objetivo: o de serem ouvidos.

Crítica | Daisy Jones & The Six- 1ª Temporada 1
Keough e Claflin estão espetaculares nas performances / Reprodução

Logo um produtor musical, Teddy Price, papel de Tom Wright, impressionado com o jeito selvagem e livre de Daisy e pela banda de Billy, os reúne, muito contra a vontade de Billy. Mas um single de sucesso a torna inevitável se juntar aos Six, e as coisas se tornam um caos e uma epifania de sentimentos que passeiam entre alegria, dores, tristezas, amores e a raiva. É uma bagunça generalizada.

Essa rivalidade que é a essência de Daisy Jones & the Six, uma adaptação cheia de imperfeições, mas que convence. A autora da obra original, que foi adaptada para o catálogo da Amazon Prime Video, Taylor Jenkins Reid descreveu seu romance como “uma vibração Fleetwood Mac”, se não precisamente extraído da história de Fleetwood Mac – e, como na vida real Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, os dois músicos no centro deste grupo fictício geram tanto drama como eles fazem música. Infelizmente, a arte não continuou a imitar a vida. O grupo Fleetwood Mac, continua ativo até hoje, diferente da banda criada por Reid que se separou definitivamente em 1977.

O livro não ganhou só uma vida com a adaptação, mas outra com o álbum “Aurora”, o último gravado pela banda fictícia que é uma produção real. A série tem uma abordagem que extrapolam alguns pontos e suavizam outros a fim de tornar a produção mais dramática como uma novela. Enquanto Daisy cresce rabiscando seus pensamentos profundos em um diário que depois virariam músicas. Em um subúrbio de Pittsburgh, o trabalhador Billy Dunne é persuadido a se juntar à banda de garagem de seu irmão mais novo, Graham (Will Harrison). Os garotos começam a tocar em bailes de formatura, festas e bares locais até que um encontro casual com um gerente de turnê de Los Angeles, Timothy Olyphant que interpreta o divertido Rod, lhes dá a ideia de se mudar para a Califórnia, com a namorada de Billy, Camila (Camila Morrone).

Crítica | Daisy Jones & The Six- 1ª Temporada 2
Camila e Billy interpretados por Camila Morrone e Sam Claflin / Reprodução Amazon Prime Video

Adaptado por Scott Neustadter e Michael H. Weber, a produção homônima retrata o backstage musical de uma banda de rock. Situado na maioria na década de 70, o romance é apresentado como uma história oral, a história da ascensão lenta e da rápida e repentina queda de Daisy Jones & The Six. Com 10 episódios, que estreia sexta-feira, 03, no Amazon Prime Video, vemos um formato estilo documental, ou seja, as cenas da banda e de acontecimentos pretéritos intercalam com os personagens respondendo às perguntas de um entrevistador 20 anos depois do término da banda. Um ponto negativo é o envelhecimento dos atores, não foi bem trabalhado e o resultado é esquisito.

Embora Reid tenha se inspirado em Fleetwood Mac, não vejo nenhuma tentativa de imitar o som da banda veterana. O ritmo frenético e bombástico dos Six é totalmente diferente da vibe suave adotada por Fleetwood Mac. Além disso, os membros da série não se parecem 100% com a banda inspiradora de Reid. As semelhanças são poucas, a personagem de Keough assume um pouco da presença de palco de Stevie Nicks, já Claflin tem o jeito controlador de Lindsey Buckingham do grupo, e Suki Waterhouse, a Karen, assim como Christine McVie, é uma tecladista inglesa. Ainda assim, eu ficaria bem desconcertada se Keough e Claflin não tivessem estudado o vídeo ao vivo de Stevie e Lindsey se olhando em “Silver Springs”.

Diferente do livro, a adaptação expandiu o papel da amiga de Daisy, Simone (Nabiyah Be), descrita como “uma pioneira do disco”, que no livro serve principalmente como testemunha das desventuras de Daisy. Ela tem mais espaço com direito a um romance, enquanto o produtor Teddy recebe uma motivação extra – ele precisa de um sucesso depois de vários erros. É muito legal ver que a série aposta na diversidade e mostra um pouco do que é a discoteca com os sucessos de Simone.

Já Camila, uma das personagens mais importantes do livro, mas que se restringiu a manter o casamento e a família juntos, tornou-se fotógrafa na série. Gostei, mas queria que ela tivesse um espaço maior na série. O relacionamento entre Karen e Graham foi bem convincente e com algumas adições dramáticas. Algo muito real, foi a rivalidade entre Billy e Eddie, algo que envolveu o baixista e a mulher de Billy não estava no livro e achei bem inconveniente, mas teria que ser com alguém, né?! E o tiro no pé foi a curta passagem no romance ambientado na Tailândia, que ficou longa na Grécia.

A série exalta o poder feminino desde o elenco até o tema de abertura da produção. A importância absurda de “Dancing Barefoot” de Patti Smith servir como música tema da série aponta o foco nas mulheres no mundo e na música como Daisy e Camila, ou seja, o que o mundo espera delas? Em uma passagem no livro, Daisy diz “Eu não sou a musa”, justamente por sua beleza ser descrita como algo de outro mundo, e faz os homens a desejarem ainda mais. Ela insiste “Eu sou alguém.” São heroínas oprimidas pelo assédio, pelo descaso, pela arrogância, pelo machismo, sexismo, pela sociedade, enfim. Assistindo à série, as atrizes causam mais impressões e mais fortes até do que os atores. Keough e Monroe, em primeiro plano, e logo atrás Waterhouse e Be em seus papéis menores também nos evocam a liberdade selvagem que buscamos.

É obvio que a música, principalmente, o folk rock retrô dos anos 70 seja o gancho e forneça o pano de fundo em que sexo, drogas e um pouco de violência possam vagar livremente. Apesar disso, a produção trabalha alguns problemas vividos nos bastidores como o criador que precisa fazer das tripas ao coração, a visão intransigente, a carreira amaldiçoada pelo vício, atração sexual entre parceiros criativos, arte versus comércio, arte versus vida, assédio – a personagem Simone passou por isso, o showbusiness da música pode ser tão difícil como qualquer outro.

E há uma certa verdade no que vemos na série. É normal muitas bandas passarem por mudanças, muitas começam se amando e terminam se odiando. Mesmo os melhores amigos podem se irritar quando ficam semanas a fio trancados e o guitarrista principal se recusa a diminuir ou mover seu amplificador até mesmo um pé fora do seu caminho. E sim, a maioria dos acontecimentos em “Daisy Jones”, dos mais bobinhos aos mais complexos como as cenas de overdose, tiveram seus equivalentes (e piores) no mundo do rock real, o que não faz a série em si parecer tão especialmente real. A presença do jovem jornalista da Rolling Stones que está acompanhando a banda é uma homenagem e tanto ao longa “Quase Famosos”. 

Crítica | Daisy Jones & The Six- 1ª Temporada 3
O elenco é bem talentoso e as meninas estão ótimas / Reprodução

Tentando vencer a linha que separa a ficção e o real, duas músicas do álbum da banda, “Aurora”, foram pré-lançadas em plataformas de streaming de música. Esta não é uma jogada nova e todo mundo sabe. As músicas são cativantes, se você ouvir bastante, mas é preciso um pouco de imaginação para aceitar a Daisy e os Six como “uma das maiores bandas do mundo”. Faltou o sine qua non. Algo que só vemos em Michael Jackson, Beyoncé, Taylor Swift… a estrela deles brilham até no escuro. Existe uma faísca entre Daisy e Billy e é isso que atrapalha um pouco a banda em si, pois tirando Karen, os demais musicistas ficam a deriva e perdidos. 

Não gostei de não ter um sexto integrante, o Peter. Ridiculo!

Daisy Jones & The Six estreou seus três primeiros episódios na sexta-feira, 3 de março, com novos episódios sendo lançados todas às sextas-feiras até 24 de março, no Amazon Prime Video.

Classificação: 16+ (pode ser inadequado para menores de 16 anos com avisos de abuso de substâncias, uso de álcool, tabagismo, violência, sexo e linguagem grosseira)

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