segunda-feira, 29, novembro, 2021

Crítica | Deserto Particular

Daniel é um policial curitibano. Militar por tradição familiar, é representado como um típico linha-dura, que inclusive está afastado da corporação por um acidente que termina por hospitalizar um recruta. Impedido de trabalhar e cuidando do pai de idade avançada e bastante debilitado física e mentalmente, ele encontra conforto trocando mensagens com Sara, uma mulher que conhecera pela internet, mas que mora na distante (para ele) cidade Sobradinho, na Bahia. Mas Daniel vê sua vida se tornar cada vez mais difícil quando Sara deixa de responder as suas mensagens, ao mesmo tempo em que descobre que não poderá ser realocado tão cedo ao seu posto, ao mesmo tempo em que vê o relacionamento com sua irmã, sua única outra parente próxima e que o ajuda a cuidar do pai, se tornando mais amargo por seus próprios preconceitos. Desiludido, Daniel resolve procurar por aquela que estava sendo sua única fonte de alento: Sara.

Assim se inicia Deserto Particular, do diretor Aly Muritiba, que recebeu o prêmio do público do Festival de Veneza e foi escolhido para representar o Brasil no Oscar. É muito difícil falar sobre esse filme sem revelar detalhes fundamentais do enredo (ainda que alguns fiquem bastante óbvios já no início), mas, ao mesmo tempo, revelar demais poderia prejudicar a experiência do espectador. Após essa introdução, o longa se foca na dicotomia das vidas de Daniel e Sara, que são praticamente opostas, mas ainda aproximadas. O “Deserto Particular” do título é visível tanto em Daniel, com sua vida arruinada e sem perspectivas, viajando milhares de quilometros em busca de uma tábua de salvação, quanto em Sara, que precisa se reprimir, cercada por uma sociedade que não a entenderia, mas que oscila entre o medo do policial que se tornou conhecido por um escândalo de violência, e a crença de que ele possa representar alguma mudança na sua vida também sem perspectivas. Ambos são confrontados com suas esperanças, medos, decepções, preconceitos e desilusões, os quais encontram um no outro, fazendo-os questionar os desertos pessoais de suas próprias vidas.

Crítica | Deserto Particular 1
Deserto Particular/ Imagem: Reprodução

A direção de Aly Muritiba é primorosa. Com uso inteligente da fotografia e da construção de cenários, ele consegue fazer com que todo o ambiente ao redor reflita as paisagens interiores dos personagens. Muitos momentos e cenas encontram eco claro nos sentimentos dos personagens, como a corrida solitária na madrugada de Curitiba, as paisagens secas e arenosas do nordeste, a escuridão na noite de Sobradinho, a travessia de barco que finalmente leva Daniel de encontro a Sara, o caos da casa noturna e o reconhecimento da beleza na represa, dentre muitos outros. É uma obra que prende a atenção não apenas no que é imediato, mas com todo o ambiente exterior refletindo mundos interiores. Talvez exista quem se pergunte por mais detalhes, como o que ocorreu com o recruta ferido por Daniel, mas a verdade é que isso não é relevante para a história, apenas o fato de ter acontecido já é um estopim para fazer com que o enredo ande.

O elenco, que conta com nomes como Antonio Saboia, Pedro Fasanaro, Thomás Aquino e Laila Garin, também entrega um excelente trabalho, embora o Daniel de Saboia carregue uma quantidade talvez excessiva de estereótipos sobre um “policial durão”, porém essa questão pode ser mais relacionada ao próprio roteiro do que ao trabalho do ator. Os demais entregam personagens construídos com sensibilidade, e principalmente o trabalho de Pedro Fasanaro é digno de elogios, por tudo o que consegue passar ao espectador.

Deserto Particular é um filme que foge de diversos lugares comuns, provocador e
contemporâneo, mas que se utiliza de diversos aspectos clássicos na construção de sua
trama e ambientação. Um contraste entre o tradicional e o atual, contraste que também é visível nos personagens protagonistas da trama. E além disso, é um filme que trata de diversos assuntos relevantes com sensibilidade artística e representação apurada. A obra de Aly Muritiba foi ovacionada por 10 minutos no Festival de Veneza. É justo dizer que cada palma foi merecida.

Nota do Thunder Wave
Deserto Particular é um filme que foge de diversos lugares comuns, provocador e contemporâneo, mas que se utiliza de diversos aspectos clássicos na construção de sua trama e ambientação.
Escrito PorWallace William

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