Filmes Críticas

Crítica | Deusas da Gastronomia

A cozinha pode ser um espaço cruel para muitas mulheres que precisam engolir sapos para sobreviver na gastronomia

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Quem nunca ouviu alguém proferir a frase “lugar de mulher é na cozinha”. E aí? É mesmo? Quando ouvimos essa frase, entendemos o sentido que ela transmite e sempre que a ouvimos é na intenção de inferiorizar a importância feminina na sociedade. Mas quando posta no contexto da gastronomia, no entanto, a frase que inferioriza a mulher é revertida numa posição de conquista e de destaque que por muito tempo foi dominado pelos homens. O filme de Vérane Frédiani é exatamente sobre isso. É o questionamento de várias mulheres sobre o quão machista o mundo pode ser. Por qual motivo um homem com uma dólmã é mais merecedor que uma mulher que comumente é vista como uma garçonete ou alguém que informa e não como a chef mesmo estando de dólmã?

Deusas da Gastronomia / Reprodução

Sabemos que desde muito tempo atrás, as mulheres carregaram a responsabilidade de cozinhar e servir a alimentação da família. Apesar disso, a presença da mulher na cozinha profissional nem sempre é bem vista, muita mulher enfrenta resistência, mesmo com muitos avanços. De acordo com a chef francesa Dominique Crenn, tudo é possível independente de qualquer coisa e que é necessário que o governo saiba e eduque as pessoas de forma que ela possa ser o que quiser, pois não tem problema nenhum em ser astronauta, engenheiro ou chef de cozinha. Essa fala dela em uma das cenas do longa mostra que é preciso ter essa liberdade. O universo gastronômico se mostra muito sexista.

“Eu acredito que estar na cozinha, seja homem ou mulher, é díficil!… Mas você quer ser forte…Você quer mostrar que você é uma mulher independente, forte e que vocÊ merece estar ali… Se um homem é forte e independente, as mulheres falam tipo: ‘uau! Que atraente!” Se uma mulher é assim, falam “Que vadia!” –

APRIL LILY PARTIDGE, BRITANNIQUE OMF BEST YOUNG CHEF

Ao contemplar várias falas que mostram o quanto o sexismo e o machismo ainda são um obstáculo para que muitas mulheres alcancem suas metas, o longa não deixa de mostrar que muitas vezes às empresas, até mesmo a própria imprensa preferem dar destaque para profissionais consagrados como mostra a capa da TIME abaixo. Essa capa foi duramente criticada por uma das entrevistadas desse longa devido a falta de oportunidade e visibilidade para profissionais da cozinha. E de fato, não é uma capa bonita. Pois vemos sempre o homem, hetéro, cis, branco sempre em posições de destaque quando tem muita gente brilhante que não tem a oportunidade e o reconhecimento devido.

O chef brasileiro posou para a publicação ao lado de David Chang e René Redzepi / Reprodução

Mesmo com a falta de reconhecimento dos figurões da alta gastronomia, Deusas da Gastronomia nos mostra que a cozinha francesa encontrou seu foco de resistência feminina com as chamadas “mères” (mães, em francês) de Lyon, no século XIX. Elas eram antigas empregadas/ amas de famílias burguesas que, sem emprego, buscaram colocação em restaurantes ou abriram seus próprios empreendimentos como conta a entrevistada Jacotte Brazier, francesa e dona de restaurante.

De acordo com Robson Lustosa, professor de Gastronomia da Faculdade Senac-PE, ele explica que essas ‘mães’ acabaram fazendo com que a gastronomia local se desenvolvesse e uma das mères mais famosas é a mère Brazier, além de outros famosos como Paul Bocuse e Roger Vergé.

De forma muito expositiva, o longa se propõem em nos mostrar diferentes pontos de vista sobre um assunto que merece mais atenção. E o preconceito e o machismo, não vem só dos homens, mas até de outras mulheres também, fora as piadinhas de cunho sexual que é preciso ignorar para sobreviver. O longa aproxima espectador e entrevistados na forma como compõem a estrutura da trama. Além de oferecer relatos de diferentes pessoas, gêneros e idades, Deusas da Gastronomia contextualiza eventos históricos importantes e com uma fotografia que aproxima, aconchega o telespectador com uma trilha sonora bem escolhida fazem do longa uma produção que entrega de forma clara uma mensagem de não aceitação de um mundo que exclui e inferioriza as mulheres. Devemos conquistar o que nos é por direito.

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