quarta-feira, 25, novembro, 2020
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Crítica: A Glória e a Graça

Representatividade

Tudo o que a comunidade LGBT busca, atualmente, é algo em que eles possam se ver e se encontrar. Não no sentido afetivo da palavra, mas no sentido de representação. Representatividade. E é isso o que o filme A Glória e a Graça pretende passar para aqueles que irão assisti-lo.

Em uma sociedade atual onde as minorias buscam seu lugar no mundo, e com seus valores e ideologias se mostram dignos de respeito, tolerância e um pouco mais de amor (por favor), podemos enxergar humanidade em todo o contexto que o filme apresenta. Além do estereótipo de ser ou não uma travesti, o contexto final da obra, requer atenção e cinco minutos de seu tempo para entender que as coisas mudaram.

O mundo mudou e já não se fazem as coisas como antigamente. Já não se fazem famílias como antigamente. O conceito de família ampliou-se e o modelo ideal de família, daqueles que estampavam comerciais de margarina, já não é o sonho nem vivido por muitos e isso, está além de condições/opções sexuais. É questão de escolha.

É o que nos mostra o filme, a formação de uma família diferente das que a sociedade ainda insiste em rotular. O drama se passa em tempo atual e vai contar a história de Graça (Sandra Corveloni), moradora de um bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro e que é mãe solteira de Papoula (Sofia Marques) e Moreno (Vicente Kato), de 15 e 8 anos, respectivamente. Em um determinado momento da vida, descobre estar com um aneurisma cerebral e que esse mesmo problema não pode ser corrigido com cirurgia e a partir daí, todo o seu mundo começa a desmoronar.

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Os atores Sofia Marques (Papoula), Carolina Ferraz (Glória) e Vicente Kato (Moreno), em uma das cenas do filme “A Glória e a Graça” | Reprodução: Globo Filmes

Pensando nos filhos, se vê sem a ajuda de ninguém e parte em busca de seu irmão caçula, Luiz Carlos, que não possui contato há uns quinze anos devido a alguns acontecimentos do passado. No reencontro, Graça surpreende-se ao descobrir que Luiz Carlos agora é Glória (Carolina Ferraz), uma travesti que se diz linda, plena e realizada. Dona de um restaurante no bairro de Santa Teresa, recebe sua irmã e seus sobrinhos após saber da notícia sobre a saúde de Graça.

Durante boa parte do longa, Graça tenta convencer a irmã a assumir os sobrinhos caso lhe aconteça algo do dia para noite mas ainda magoada com as questões do passado, Glória mostra-se irredutível com o pedido mas, logo essa “máscara” cai e aos poucos, “a nova mulher” vai se aproximando da família a começar pelos sobrinhos, retoma a amizade com a irmã mais velha e percebe que mesmo tendo mudado de vida (era homem, agora, uma mulher), ainda lhe falta algo.

Em suma, o filme que é dirigido por Flávio Ramos Tambellini, tem a missão de abordar a questão T (travesti e trans) nos dias atuais sem parecer pedante ou insensível. “A Glória de Carolina” não poderia ser mais gloriosa. Ela deu vida brilhantemente a uma travesti sem ser caricata ou mais do mesmo. Graças ao belíssimo roteiro de Mikael de Albuquerque, onde possui grandes cargas dramáticas mas na medida certa, sem ser apelativo com aquele toque de humor para contrabalancear a trama.

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As atrizes Carolina Ferraz e Sandra Corveloni como as irmãs Glória e Graça, respectivamente. | Reprodução: Globo Filmes

Ele conseguiu desmistificar o clichê que diz “só porque é travesti, deve ser cabeleireira ou então, ganhar seu pão de cada dia nas esquinas das ruas, sujeitando-se a qualquer homem e a qualquer situação”. Mikael quis passar a mensagem que qualquer um pode ser o que quiser, mesmo se for travesti, homem ou mulher trans, gay, etc.

De acordo com a própria Carolina Ferraz, todo o esforço valeu a pena. Durante a coletiva de imprensa, ela se mostrou totalmente aberta à opinião de colunistas e jornalistas que a cercavam de elogios pela belíssima interpretação de Glória, repleta de verdade e humanização. “Logo na reunião com Mikael, ele me apresentou o roteiro, à Glória e imediatamente eu escolhi fazer a personagem, sem que ele me oferecesse”, disse a atriz emocionada. “O meu objetivo era fazer transparecer o mais real possível, sem ser forçada ou caricata”, completou.

Ferraz usou algumas próteses orais para “masculinizá-la” ao máximo. “Cada detalhe foi pensado estrategicamente, desde a maquiagem à roupa. Nossa intenção era deixar a Carolina como a ‘nossa travesti’, independente de estereótipos e/ou classificações de transgêneros”, contou o diretor do filme.

Carol Marra, que interpreta Fedra, a melhor amiga de Glória, foi só elogios do elenco e também do diretor. Carol se diz honrada com o convite e durante o período pré-filmagem, trocou figurinhas com Ferraz e à amiga, foi só elogios. “Eu me sinto reconhecida quando eu vejo a Carolina atuando. Me sinto bem representada e não é pelo fato dela ser ‘a Carolina Ferraz’, é pela forma com que ela soube se posicionar”, argumentou.

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As atrizes Carolina Ferraz e Carol Marra | Reprodução: Globo Filmes

Para finalmente ser gravado (em três semanas, diga-se de passagem), o filme levou dez longos anos até estar totalmente pronto para o set. Mikael conta que durante sua passagem pelos Estados Unidos para estudos, aprimorou o roteiro a fim de deixá-lo exatamente como é. E fez bem, porque apesar de ser uma história triste, o texto é leve de de fácil compreensão – ou seja, qualquer um vai saber do que se trata, sem usar jargões ou figuras de linguagem.

A fotografia que foi dirigida por Gustavo Habda é algo que deve ser comentado à parte: belíssima. Assim como o jogo de câmeras que foi usado pelo diretor, casou exatamente com as expressões dos atores em cena e conseguiu retratar o que cada um queria dizer, mesmo sem dizer nada. O cenário hipercolorido dá um contraste com a trama – “não é porque é travesti ou porque é um drama que devemos usar cores tristes”, palavras do próprio Flávio.

Entrementes, o filme agradou. E muito. E vale à pena entender do que se trata a história antes de julgá-la ou condená-la por ter uma travesti como personagem principal. É tudo sobre a travesti, mas nem tudo gira em torno dela, compreende? O cinema nacional cresce a cada ano e A Glória e a Graça (mesmo parecendo que o título é de algum filme religioso), faz jus ao que começamos a tratar nessa crítica: representatividade. A Globo Filmes juntamente com o Canal Brasil, assinam a coprodução do produto que estará disponível a partir do dia 30 de março, nos cinemas.

Nota do Thunder Wave

2 COMENTÁRIOS

  1. Não sou de rasgar seda com cinema, pois quase sempre as coisas tem sido mais, ou um pouco mais, do mesmo, mas me senti auto intimado a escrever umas linhas sobre esse filme que assisti ontem: “A Glória e a Graça”. Despretensiosamente afirmo que, finalmente, o Brasil tem um título de peso que realmente merece os holofotes internacionais e, se justiça for feita, um Oscar. Temos uma história singela sobre dignidade, respeito, família e amor. Trata-se da história de uma mulher incompreendida, pela família, pelo estado, pela sociedade, mas que nem por isso desistiu de si e de seus sonhos. Carolina Ferraz convence em cada ato, tenho certeza de que os expectadores estrangeiros irão se perguntar se a atriz realmente não é uma mulher trans. Ao relembrar da peregrinação da atriz e da produção do filme para viabilizar esse projeto, só fiquei mais encantando com o resultado. As falas afirmativas e explicativas da Glória não me deixaram conter os aplausos na sala de cinema, precisamos de mais Glórias educando as pessoas em nosso cotidiano. Enfim, glorioso, gracioso também, esse filme é a minha recomendação mesmo para as pessoas que não tem o hábito de ir ao cinema com frequência.

  2. Oi Carlos, como vai?
    Menino, você arrasou em seu comentário e só veio a complementar todo nosso sentimento pelo filme, elenco e toda a história que envolveu todo o processo – desde roda de leitura, encontros que o elenco teve juntamente com o diretor e o roteirista até de fato, as filmagens. Nós, do Thunder, ficamos felizes pelo seu comentário e também por sua predileção ao longa. Obrigado pelo comentário e volte sempre que quiser.

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