terça-feira, 16, agosto, 2022

Crítica | Imperdoável

Apesar de ser uma mulher branca, personagem de Sandra Bullock sente na pele a dor e o desprezo por ser uma condenada em liberdade, algo tenebroso numa época em que se discute Direitos Humanos e reintegração social

O longa Imperdoável (Unforgivable), a mais recente produção da Netflix, apresenta um drama sobre dor, vingança e a tentativa de um recomeço que se mostra desconfortável pelo ponto de vista de uma pessoa que carrega o fardo da culpa. É uma obra cuja narrativa se desenvolve ao acompanhar a reconstrução da personagem em uma sociedade em que o perdão é para poucos. Possui uma trama forte e com uma reviravolta surpreendente. A narrativa chama atenção devido ao protagonismo de Sandra Bullock, a mensagem que tenta transmitir e o final inconclusivo que pode gerar opiniões diversas.

O longa é dirigido por Nora Fingscheidt, e a trama acompanha a personagem de Bullock, Ruth Slater que, após cumprir 20 anos de condenação por um homicídio, precisa se reintegrar em uma sociedade que condena quem já esteve preso. Julgada por quase todos à sua volta, ela está sozinha e sua única esperança de redenção é encontrar a irmã mais nova, Katie, de quem foi forçada a se separar enquanto esteve na prisão.

Se você assistiu ao longa achando que o foco é investigar os acontecimentos que levaram ao crime cometido pela personagem de Bullock, está enganado. Aqui, a proposta é refletir sobre como a sociedade reintegra ex-presidiários e ex-presidiárias – no caso da mulher, é mais difícil ainda -, a culpa, a vingança e o perdão. De forma peculiar e estranha o longa tem uma estrutura capenga, porém pode ser proposital e isso será explanado mais para frente.

Imperdoável | Saiba todos os detalhes do filme com Sandra Bullock na  Netflix - A Odisseia
Falar sobre a reinserção de ex-presidiários não é uma tarefa fácil, mas Imperdoável consegue transmitir essa triste realidade / Reprodução

Por se tratar de um tema delicado, o longa decide abordar várias vertentes e cada personagem tem o seu papel na história. Desde o inicio, o filme evidencia que Ruth Slater cometeu um assassinato e agora após 20 anos, sai da cadeia e precisa encarar uma liberdade questionada e julgada por uma sociedade que condena mais rápido do que perdoa – muitas pessoas acreditam que os condenados devem pagar pelos erros até o fim, sem uma segunda chance. Infelizmente, é uma triste realidade, pois muitas das pessoas que vão presas, retornam para a cadeia devido a falta de estrutura social de um sistema falido e corrupto que não reintegra essas pessoas de forma humana.

O grande destaque da produção é a atuação da atriz Sandra Bullock que interpreta uma personagem que claramente carrega o fardo de um passado triste e cruel, tanto pelo que sua família passou até o instante em que a arma foi disparada decidindo o seu destino. Ruth é uma mulher que sobreviveu aos maus tratos de uma vida encarcerada, que necessita se posicionar numa sociedade para ter um pouco de dignidade. Seguindo regras de uma pessoa sob condicional – consegue ser empregada em dois estabelecimentos, um lugar para morar e evita contato com outros ex-detentos.

Algo interessante que podemos ver em sua personagem é que a vaidade que ela tinha nas cenas antes do fatídico assassinato, era mais presente. Após sua saída da prisão, ela se mostra uma pessoa de poucas palavras e sempre em alerta, pois não se sabe o que ela pode encarar. A verdade é que por trás de uma feição apática, séria, visual desleixada entregam uma mulher que precisou se fechar por sua segurança e acredita que se dar o luxo de algo melhor seria algo que não merecia, que não pudesse ter. Mas a vida não acabou.

Imperdoável", filme da Netflix com Sandra Bullock, é baseado em uma  história real? - VIX
O figurino acertou na imagem que a protagonista transmite em tela / Reprodução

Algo que o longa acerta é em fazer com que o espectador sinta os olhares carregados de julgamento, a raiva daqueles que acham injusto uma condenada ter uma segunda chance, a tensão em retornar para  a liberdade. Nesse sentido, o longa constrói uma atmosfera muito real e não esconde o passado dela que, um dia, foi escancarado nos jornais e, atualmente, qualquer um pode encontrar na internet.

Em paralelo à triste e árdua batalha de Ruth Slater, também vemos a perspectiva dos filhos do xerife que foi morto pela personagem. Com a liberdade da mulher, os irmãos buscam fazer justiça com as próprias mãos, porém começamos a questionar qual o preço a se pagar por isso? Pois, a morte dela ou de alguém próximo a ela não garantirá a paz que os irmãos desejam, uma vez que tudo é incerto em suas próprias vidas. Aqui podemos ressaltar um ponto negativo que incomoda um pouco. 

Um dos irmãos cuida da mãe acamada enquanto o outro já construiu uma família, tem um bebe e uma companheira. Inicialmente, esse que é pai, não quer se envolver com vingança e nem nada do tipo, porém ele cai na pilha do irmão que, por sua vez, está tendo um caso com a mulher do irmão… O irmão que não queria vingança descobre a traição do irmão com a mulher e decide ir atrás de Ruth. Os pontos dessa sub trama são conectados de forma errada, pois a trama não retorna no caso extraconjugal que nem deveria ter existido no longa.

Sandra Bullock tenta recomeçar a sua vida em "Imperdoável" - ACidadeON  Circuito das Aguas
Jon Bernthal é Blake em Imperdoável/ Reprodução

Bom, na via de mão dupla, há aqueles que tentam estender a mão para Ruth, como é o caso de Blake (Jon Bernthal), que trabalha ao lado dela e se vê dividido por conta do passado da protagonista; o assistente da condicional Vicent (Rob Morgan) que a orienta para que faça as coisas da forma correta; e o advogado John (Vincent D’Onofrio) que intermediou um encontro de Ruth com os pais adotivos de Katherine. Ele mora com os filhos e a esposa Liz (Viola Davis) na antiga casa que um dia foi de Ruth, motivo que faz o caminho do casal e da protagonista se cruzarem.

Um outro ponto negativo é a relação das irmãs. O longa se sustenta em flashbacks, o que empobreceu a trama, pois a personagem Katie foi separada da irmã ainda pequena e não se recorda de muita coisa, mas carrega traumas e sequelas deste passado conturbado. Já Ruth, as lembranças estão diretamente ligadas ao dia do crime e como isso corroborou na separação delas e, atualmente, na tentativa de planejar este reencontro. A personagem Katie fica muito em segundo plano, sem muita reação e ela teria muito para ser explorada e a ação mesmo, vemos com as atitudes da irmã adotiva que toma a frente da situação ao descobrir toda a verdade.

Em Imperdoável, o plot twist acontece quando Ruth confessa um detalhe crucial do passado à Liz, o que faz o filme passar duas sensações: a primeira é que se mostra um fato surpreendente, mas que desvalida o que o enredo construiu até esse ponto e abre para opiniões questionáveis como: por que só agora Ruth contou esse detalhe? Na época do homicídio, não houve investigação para apurar os fatos? Liz é a primeira pessoa a saber? Então, essa foi uma reviravolta que poderia ter sido repensada a forma como foi construída e conectado no filme.

Imperdoável: a verdade por trás do filme da Netflix - Mix de Séries
Viola Davis é Liz em Imperdoável/ Reprodução

Algo que incomoda também é o fato de Ruth e Katie serem irmãs, poderiam ser mãe e filha, seria mais assertivo dentro do enredo. Outro ponto duvidoso é que apenas Liz, que a todo momento julga Ruth por seu passdao, é a única que percebe que falta uma peça nesta história e questiona a protagonista sobre o que realmente aconteceu no fatídico dia do assassinato. 

Já na reta final, um dos filhos do xerife sequestra a irmã errada acreditando ser a Katie, prometendo matá-la para que Ruth sinta a mesma dor que ele e o irmão sentiram 20 anos atrás. Porém, numa conversa com falas delicadas e sensíveis sobre perdas, falhas, arrependimento e perdão, Steve desiste de puxar o gatilho e Ruth liberta a garota. Com a polícia à espera, ambos são pegos, mas Ruth é solta com a ajuda do seu assistente da condicional.

Outra situação incompatível é que neste momento, Ruth reencontra Katie que vai em sua direção e lhe abraça, encerrando a história. Porém, o que significa este abraço? Uma forma de agradecer por ter salvo a vida da irmã adotiva? Ela de fato lembra de Ruth? Ela se lembrou que puxou o gatilho e matou o xerife e agradece Ruth por ter levado a culpa? Mais uma vez, uma sequência de fatos mal amarrados. 

Imperdoável: O grande erro do filme de Sandra Bullock na Netflix
Sandra Bullock é Ruth Slater em Imperdoável/ Reprodução

Apesar de todas essas escorregadas, o ponto mais bizarro é o personagem John que simplesmente evapora numa cena de extrema importância. Sério que colocaram o advogado para viajar bem no momento em que ele precisava ajudar a protagonista? Estranho, mal arquitetado e neste momento quem assume é Viola Davis com uma sequência que evidencia sua boa atuação, porém, vejo isso como algo forçado, pois a todo momento a personagem da atriz esteve em stand by, ou seja, deveria ter dado importância para ela desde o começo.

Em Imperdoável podemos ver o trabalho primoroso na fotografia assinada por Guillermo Novarro, que com muita delicadeza e destreza foca numa perspectiva frontal ao captar a protagonista, além de apostar nos planos fechados que reforçam a entrega de Sandra Bullock ao seu personagem. A trilha sonora peca apesar de ser bonita, pois mantém uma direção menos condizente com o que deveria ser. A tarefa desempenhada por Hans Zimmer e David Fleming não foi assertiva ao ponto de brilhar. Por ter tido uma construção e um desenvolvimento um tanto bagunçado, o desfecho aberto pode significar uma proposta de se debater esses assuntos, não dentro da trama, mas na sociedade, dos espectadores e da crítica em geral. O longa nada se compara com um novelão das 21h e, sim, com uma obra que merece ser contemplada pelo serviço social que se presta a fazer. 

Nota do Thunder Wave
O longa é um drama sobre dor, arrependimento, recomeço, vingança e perdão. É uma trama que aborda uma sociedade inflexível para o perdão, lidando com diversos pontos de vista sobre quem julga e quem sofre o julgamento ciente do que fez e pagou por isso. A fotografia é impecável, a trama é muito relevante, pois poucas obras abordam o tema com tal primor e o elenco é ótimo. A excelente atuação de Sandra Bullock que faz o espectador sentir na pele o peso da culpa que a protagonista sente desde o momento do crime até o recomeço de sua vida marcada pelo desprezo.

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