quinta-feira, 1, outubro, 2020
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Crítica: Liga da Justiça

Desde que iniciou o projeto de universo compartilhado, a DC Comics colocou nas mãos de Zack Snyder a incumbência de levar às telas as suas principais figuras. Isso fez com que os dois primeiros longas, O Homem de Aço e Batman Vs. Superman – A Origem da Justiça, sofressem sob a mão pesada do diretor e sucumbissem debaixo de tentativas falhas de entregar obras densas, obscuras e com estruturas narrativas ousadas. Frente à recepção mista da crítica especializada e do público geral, a editora decidiu mudar completamente a abordagem e o resultado foi Esquadrão Suicida, um filme assumidamente cômico, porém, cinematograficamente aberrante. A redenção parcial veio apenas com Mulher-Maravilha, um longa que se beneficiava de sua despretensão e leveza.

Primeira produção audiovisual a unir alguns dos seus maiores super-heróis, Liga da Justiça se aproxima muito mais dos filmes da Marvel que dos dois comandados por Snyder, o que é algo extremamente curioso, uma vez que é ele o cineasta assinando a obra. Isso talvez tenha se dado em razão da participação de Joss Whedon nas refilmagens pontuais e pós-produção, mas é inegável que o público estará diante do seu filme menos característico. Saíram os simbolismos religiosos, os flashbacks, as sequências de sonho e as linhas narrativas múltiplas e, no lugar, entraram aspectos muito mais simples, como a história que se desenrola sem muitas interrupções, a abordagem objetiva e a estética vivaz e colorida.

Crítica: Liga da Justiça 1
Liga da Justilça | Imagem: Warner

Os ganhos dessa transformação se mostram presentes, principalmente, na ausência de barreira entre a obra e o espectador. Com a eliminação dos hermetismos estilístico e narrativo típicos do cineasta, o público se sente livre para embarcar na diversão inerente a qualquer reunião de super-heróis queridos. De maneira similar, é obtido um resultado muito parecido com o de Mulher-Maravilha, mas sem as cafonices que limaram o filme de Patty Jenkins. Do medley óbvio que marca o primeiro ato até o clímax bombástico em que os personagens lutam juntamente, o caminho do espectador é livre para que ele se divirta e veja nos cinemas os seres fantásticos que marcaram parte de sua vida e formação.

Por outro lado, quase todos os erros vistos em algum dos dois longas anteriores do diretor dão as caras. O vilão interpretado por Ciáran Hinds não tem personalidade, é mal desenvolvido dramaticamente e trazido à vida através de efeitos digitais risíveis (o CGI continua sendo um problema); alguns momentos deixam claro que foram montados sem cuidado, como aquele no qual Bruce Wayne se encontra pela primeira vez com Arthur Curry e, em vez de sermos introduzidos lentamente na situação, somos jogados no meio de um conversa mal estabelecida geograficamente, ou aquela em que, depois de acontecer algo no apartamento do Ciborgue (Ray Fisher) enquanto este estava longe, há um corte abrupto que mostra o personagem no local e completamente ciente do que aconteceu; frases vergonhosas (a fala do Bruce Wayne envolvendo a humanidade e uma bomba relógio é a pior); diálogos criativamente paupérrimos (a conversa de Lois Lane com um repórter sobre usar uma fonte, por exemplo); soluções fáceis de roteiro (os acontecimentos da trama se resolvem simplesmente); e cenas pobremente finalizadas, onde uma interação, olhar ou movimentação perduram mesmo após a passagem do timing dramático.

Além disso, surge espaço para novos equívocos, como alívios cômicos desnecessários (interpretado por Ezra Miller, Barry Allen passa pela narrativa sendo apenas o piadista do grupo e com os olhos arregalados – triste perceber que esse parece ser o único recurso humorístico do ator), uma trilha sonora genérica que se destaca somente quando retoma temas clássicos de filmes anteriores; cenas de ação pouco inspiradas (não há nenhuma luta capaz de empolgar); e, por incrível que pareça, créditos iniciais que parecem ter sido feitos por um imitador de Snyder, a ponto de parecer mais um pastiche do que uma marca estilística.

Crítica: Liga da Justiça 2
Ezra Miller em Liga da Justiça | Imagem: Warner

Dessa maneira, ao mesmo tempo que é capaz de divertir o público, Liga da Justiça também apresenta um número expressivo de erros, os quais já estavam, em sua maioria, presente nos dois primeiros filmes da DC. No entanto, disso tudo nasce a seguinte questão: vale a pena sacrificar a personalidade artística em nome da diversão? Pois, apesar de os filmes de Zack Snyder serem ruins, é evidente que sempre houve uma visão autoral sobre os universos retratados. Errar em busca de um estilo próprio nunca deixará ser um equívoco honroso. Mas trocar a autoralidade por uma fórmula, mesmo quando esta é bem-sucedida, é a morte da arte. Diante desse cenário, embora tenha me divertido mais assistindo ao filme atual, preferirei eternamente O Homem de Aço e Batman Vs. Superman – A Origem da Justiça. Afinal, por trás desses dois títulos, havia um artista fazendo o que pensava ser melhor. Já em Liga da Justiça, o que parece existir é um funcionário seguindo cegamente as ordens de uma industria preocupada apenas com o lucro.

Veja a ficha técnica e elenco completo de Liga da Justiça

 

Nota do Thunder Wave

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