sexta-feira, 24, setembro, 2021

Crítica | Loucos por Justiça

Riders of Justice é mais que um thriller de vingança, é uma obra que propoe a reflexão não só sobre a violência, mas sobre justiça, amor, religião... sobre a vida

O ator dinamarquês Mads Mikkelsen (Mundo em caos e Druk: Mais uma Rodada), está em mais uma produção de arrepiar o couro cabeludo em 2021. O longa da vez é o filme de ação Loucos por Justiça (Riders of Justice), novo filme da Synapse Distribution, que chega às plataformas digitais no dia 6 de agosto, nesta sexta-feira. O longa acompanha o militar Markus que volta para casa para cuidar de sua filha adolescente, Mathilde (Andrea Heick Gadeberg), depois que sua esposa morreu em um trágico acidente de trem. A relação entre pai e filha se torna ainda mais forte já que agora compartilham uma perda em comum. No entanto, quando Markus conhece um dos sobreviventes do acidente, o gênio da matemática Otto (Nikolaj Lie Kaas), ele começa a desconfiar que a morte de sua esposa não foi uma mera casualidade do destino.

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Ao ler o parágrafo anterior, você se questiona se realmente vale a pena assistir o longa, pois aborda a violência física, vingança e muito sangue. No entanto, por ser um filme com bastante cenas fortes, é um longa que aborda as relações humanas e como nossas interações com o próximo e com o meio que nos cercam são afetadas por nossas ações. A maioria dos filmes estrangeiros, são produções mais reflexivas que buscam por meio de metáforas nos reconectar com aquilo que mais importa nas nossas vidas, o amor e a presença de quem amamos. 

Foto de Riders of Justice - Foto 11 - AdoroCinema
Mesmo num momento de dor, Markus não se permite expressar sua tristeza, mas sim sua raiva em Loucos por Justiça / Reprodução

O fio condutor do longa é uma bicicleta e como a casualidade dos eventos podem gerar consequências inesperadas. Os primeiros minutos são iniciados por uma bicicleta azul e as cenas finais terminam com a mesma. Vendo por este ponto, como assim é um filme violento? É a partir de um pedido inocente na Estônia que uma sucessão de eventos do outro lado do Mar Báltico irão acontecer e consequentemente terminarão em muito sangue.

O longa desconstrói a figura do herói salvador da pátria. Aqui Mads Mikkelsen está sisudo, raivoso, com sangue no olho e de pavio curto. Ele é um ótimo ator e nos surpreende em cada produção em que atua. Aqui, Mikkelsen é um militar e suas competências físicas e mentais giram em torno da autodefesa e do combate. Mesmo com a morte da esposa, ele não se dá a liberdade de sentir, de passar pelo luto, e recusa qualquer oferta de ajuda. Ele sabe que tanto ele quanto a filha precisam de suporte médico e mesmo assim ele insiste em não aceitar. Por essa percepção, vemos que ainda é muito difícil para o homem se expressar devido a sociedade que vivemos. Além disso, a atitude e a postura adotada pelo personagem não faz com que o espectador se simpatize com ele. O modus operandi de Markus está ativado para matar e a partir daqui nos questionamos o que é vingança e o que é justiça.

Riders of Justice - Kino Art
O trio de cientistas-hackers que ajudarão Markus na sua busca por vingança / Reprodução

Em Loucos por Justiça, além da violência nas mais variadas maneiras (psicológica, sexual, física, emocional, etc), também temos momentos de humor e de gentileza. Percebemos que cada personagem representa um aspecto tradicional do cinema como a ação, que é um aspecto representado pelo Markus, o drama é concebido pela filha Mathilde e o quinteto fantástico encarna as concepções de humor e imprevisibilidade humana, além de serem rejeitados, descartados pelo resto do mundo. O grupo de paspalhões é composto pelos cientistas Otto, que perdeu a filha num acidente de carro, e Lennart (Lars Brygmann), um homem abusado por pessoas próxima a ele quando ainda era uma criança, o hacker Emmenthaler (Nicolas Bro) que também tem seus traumas, o influencer digital com consciência social Sirius (Albert Rudbeck Lindhardt) e o garoto de programa ucraniano Bodashka (Gustav Lindh) que também tem uma história difícil e todos agem de maneiras imprevisíveis, falando quando não é pra falar, se confundem, fingem ser outras pessoas, agem de maneiras absurdas e talvez por essa “espontaneidade” que faz com que o longa tenha uma certa humanidade em si. É perceber que a violência é mais que tirar sangue ou quebrar o pescoço de alguém, a violência está nesses fatos mencionados anteriormente e como reagimos a esses gatilhos.

“Você quer comer a minha bunda antes de deitar, para dormir melhor?” – Bodashka pergunta para Lennart

O interessante é ver que a intensidade do humor muda a todo momento, passa do simples engraçado para algo mais provocador, de algo mais doce para algo mais ácido e o afeto, a forma sensível empregada pelo diretor faz com que o espectador compre a ideia de que um militar rude e fechado seja abraçado por esse quinteto fantástico que se mostram dispostos a ajudá-lo na sua vingança e, principalmente, na sua vida. Em algumas cenas, somos emocionados com conversas profundas de pai para pai, de alguém que perdeu algo para outro que também perdeu, de certa forma, todos se ajudam seja expondo falhas para mostrar “eu também errei e estou aqui” ou se enfrentando. Assim, vemos que ao longo da trama um novo conceito de família vai surgindo a partir das ligações formadas entre eles.

Riders of Justice' is more than a revenge movie - The San Francisco Examiner
Mathilde reflete o drama enquanto Markus reflete a ação no longa de Anders Thomas Jensen / Reprodução

Entre muitos temas que geram reflexão, nos questionamos qual a diferença entre justiça e vingança? No longa, tanto Markus quanto Otto, Lennart e Emmenthaler pensam em vingança, porém, para ambos a ideia de vingança é diferente. Para o primeiro faz a linha “atira primeiro e pergunta depois” e para os demais seria algo mais financeiro como roubar as contas bancárias, por exemplo. Notamos que o longa brinca com ambas ideias, tanto a de vingar alguém quanto a de fazer justiça por alguém e é aí que vemos a disparidade entre elas através da ações dos personagens e das cartas escondidas do roteiro que aos poucos vão se desvendando e mostrando que o que aparentemente é, não é. O personagem de Mikkelsen embarca numa missão suicida, ele está cego, com sede de revanche, que mal consegue discernir as incongruências dos fatos. Será que somos capazes o suficiente de apoiar o militar justiceiro? Será que gostamos menos dos cientistas e do hacker que por um descuido prejudicaram toda a operação?

O diretor tem a difícil tarefa de equilibrar o drama, a ação e o humor dentro de uma obra de tom sério e sombria. Além de fazer com que os personagens se encaixem de forma coesa sem causar estranhamento para o espectador. A estética é composta por uma iluminação escura, com paleta de tons frios que remetem a esse momento difícil que Markus está enfrentando com a filha. Percebemos que os enquadramentos são fixos e a presença da violência explícita é bem forte. Para contrastar com toda essa seriedade, a trilha sonora vem numa pegada mais lúdica, quase como as que vemos em conto de fada, porém, com um toque clássico. Além disso, temos ótimas sequências como quando Emmenthaler decide sair atirando junto com Markus, a ingenuidade da filha em relação ao real propósito escondido pelo pai e pelos cientistas. E um outro aspecto que chama atenção é o namorado de Mathilde, ele parece estar bem a frente de seu tempo e isso é bem positivo, pois destoa da figura paterna da garota que a trata com severidade e dureza. Normalmente, vemos o companheiro ser um babaca e o pai, o ser protetor. Aqui, de certa forma, os papéis se inverteram. 

Riders of Justice review – Mads Mikkelsen revenge thriller turns screwball  | Movies | The Guardian
Aqui vemos que Emmenthaler é mais que um gordinho e isso é muito bom, pois não reforça o estereotipo de que os gordinhos só sabem comer / Reprodução

Outro ponto de reflexão é o choque do ateísmo contra o cristianismo. Pois, vemos que Markus não acredita em Deus e quanto mais é questionado, mas se mostra resistente a isso. Já a filha e até mesmo Bodashka expressam sua “fé”. Algo que o longa se propõe a fazer com que o espectador reflita. Muito bizarro é que nas cenas de tiro, não haviam pedestres nas ruas, somente Markus e a sua equipe maluca e os bandidos. Curioso, não? Além disso, a produção nos faz questionar se é válido que usemos a nossa dor para fazer algo improvável? Ou ainda, qual o limite entre a violência usada em legítima defesa e aquela contra bandidos e criminosos? Talvez seja por toda essa arquitetura fantástica num longa de ação que nos faz pensar nossas atitudes e entender que o objetivo da direção e roteiro foram atingidos.

Dirigida e escrita pelo vencedor do Oscar Anders Thomas Jensen (Noite de Eleição), a produção é a segunda parceria de Jensen e Mikkelsen, que trabalharam juntos no longa Men & Chicken, em 2015. Loucos por Justiça é, nas palavras do diretor, “uma fábula moderna ambientada em um cenário realista”. Jensen conta que o filme mostra como as nossas vidas são afetadas quando o impensável ocorre. “O núcleo da história é bastante sombrio, pois falamos do significado da vida. A minha intenção foi a de criar um drama que tivesse momentos comoventes e humor”.

O longa estará disponível para compra e aluguel na Claro Now, Vivo Play, Sky Play, iTunes/Apple Tv, Google Play e YouTube Filmes.

Nota do Thunder Wave
Com ótimas atuações, direção e roteiro estão espetaculares, longa impressiona pelas cenas de ação (fantasiosa, em alguns momentos), pela carga dramática e pelas histórias dos personagens que os aproximam do espectador. Com um grande elenco e um bom diretor, Loucos por Justiça vale o entretenimento reflexivo.

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