sexta-feira, 27, maio, 2022

Crítica | Mar de Dentro

É um longa que fala sobre a maternidade sem floreios

O drama Mar de Dentro acompanha a personagem Manuela, uma profissional de sucesso que, ao se descobrir grávida de um colega de trabalho, tem de lidar com a transformação de seu corpo e sua vida. Em meio a tantos desafios, ela se depara com uma fatalidade que afetará ainda mais seu destino. Quando o bebê nasce, ela tem de aprender a ser mãe mesmo sem gostar, a priori, da maternidade. É um longa que desmistifica e trata com verdade o que é estar grávida. Nem tudo é fácil nessa jornada e o filme não mente sobre isso. Porém, tem alguns erros que se solucionados antes do lançamento, o resultado seria mais cativante.

O longa é a estreia da diretora Dainara Toffoli que também escreveu o roteiro com Elaine Teixeira. A trama traz Monica Iozzi na pele de Manuela que realiza um trabalho muito bom, num papel que exige muito dela, que está na maioria das cenas sozinha. Ela vive uma diretora de criação de uma agência de publicidade que descobre que está grávida de Beto, interpretado por Rafael Losso, seu colega de trabalho com quem tem uma relação amorosa.

Em Mar de Dentro, nos deparamos com alguns deslizes, pois é uma trama que trabalha com um tema intrinsecamente ligado com o tempo e vemos que a montagem apresenta dificuldade em construir ou promover pequenas mudanças em relação ao emocional da protagonista. O longa pula de um ciclo para o outro sem informar a passagem de tempo como o salto entre o início da gestação às vésperas do parto; da intensa rotina profissional, socializando com as pessoas e com os ambientes da vida solitária em casa. Além disso, a presença da amiga Teresa (Gilda Nomacce) que está por perto e depois some e vemos que a suavidade em contar os acontecimentos de forma amarrada e coesa não existe. E essa questão 8 ou 80 é como se fosse essência do filme.

Mar de Dentro | Assista ao trailer exclusivo do longa, que faz um retrato  humanizado da maternidade - Ingresso.com
Mônica Iozzi tem boas cenas, e uma atriz talentosa / Reprodução California Filmes

Ora vemos Manu 100% com o bebe, passando tempo e cuidando dele com total dedicação, dia e noite e depois sem passar tempo algum com a criança. São situações que podemos destrinchar e debater, porém para que a análise aconteça é preciso apurar os elementos que conduzem de um ao outro. Um questionamento importante é saber se ela sente falta dele depois que retoma o trabalho ou se ela  tem mãe, uma família por perto que a ajude além da presença rude dos sogros? Aqui os núcleos são quase inexistentes e quando existem, são mal concebidos e ao passo que um conflito aparece o outro evapora, some, desaparece e a trama fica costurada com subtramas não acabadas dando a sensação de um filme incompleto porque quando começa um raciocínio não termina e o corte é seco.

Vemos que Mônica se dedica muito ao projeto e tem bons momentos, mas infelizmente a presença da atriz não é o suficiente para ser um sucesso. A escolha arriscada de focar o tempo todo no corpo e rosto da atriz sem permitir desenvolver pequenas sutilezas na condução do enfoque e enquadramento. Quando é pra ser profundo, não é. Quando é pra ser invasivo não é. Quando é pra ser sutil não é. De modo geral, a construção emocional caminha dentro da inércia. Sem contar nas cenas que são conduzidas com extrema rapidez e brutalidade. Por exemplo, a protagonista entra numa sala sem fazer cerimônias ou criticando o trabalho dos colegas sem o mínimo de educação. O mesmo acontece com ela, quando se vê invadida por babás e pelos sogros.

Mar de Dentro - Mais Que Cinema
O cansaço de uma recém mãe poderia ter sido mais evidente / Reprodução California Filmes

Em Mar de Dentro percebemos uma crítica à idealização da gravidez perfeita, que toda mulher nasceu para ser mãe e ao mesmo tempo a produção reforça o lado negativo da presença dos familiares que estão por perto como os pais de Beto que é difícil sentir qualquer afeto por eles, principalmente como questionam se a protagonista vai trabalhar após o nascimento do filho. É um filme que por falar de um tema delicado é pouco afetuoso, há pouca ternura e sensibilidade. É tudo muito invasivo, brutal, grosso. 

É curioso o título da obra que tem poucas referências dentro do longa. Nem de longe, o título e a obra se conectam. O mar é utilizado discretamente dentro da trama, assim como a simbologia dos aquários ou até mesmo o mar. Embora o fato dela falar que não gosta de pagode e ter vivido um tempo com o Beto – do que mesmo ele morreu? O filme não conta – não sabemos de mais nada sobre ela. O filme lida muito com uma jornada de uma mulher que trabalha e descobre que está grávida e depois rola o que? nada. Ela não tem um fim, não sabemos o que lhe chama atenção… ao mesmo tempo que quer ser profunda, é uma personagem rasa. Não há outro conflito na trama, além da maternidade, que ela enfrenta. E novamente, a novidade por abordar um assunto interessante cai na trivialidade por não ser abordado da forma que merecia.

Nota do Thunder Wave
Mesmo com muitos deslizes, para um primeiro projeto com um tema delicado, forte e bonito, o drama se revela corajoso porque não trilha o caminho das tramas convencionais. É o sapatinho de cristal para consolidar a presença de novas autoras femininas como a diretora Toffoli e a co-roteirista Elaine Ferreira que ousaram na escolha de um assunto permeado de idealizações e marcado por muito preconceito. Nem todas as mulheres nasceram para a maternidade e está tudo bem.

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