quarta-feira, 4, agosto, 2021
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Crítica | Meu Pai

Com uma delicadeza avassaladora sobre a demência, filme é um dedo na ferida

No longa The Father (Meu Pai), Anthony tem 81 anos de idade e mora sozinho em seu apartamento em Londres. Ele recusa todos os cuidadores que sua filha, Anne, tenta impor a ele. Porém, isso se torna uma necessidade maior quando ela resolve viver em Paris com um homem que conheceu há pouco tempo, e não poderá estar com pai todo dia. Fatos estanhos começam a acontecer: um desconhecido diz que este é o seu apartamento. Anne se contradiz, e nada mais faz sentido na cabeça de Anthony. Estaria ele enlouquecendo, ou seria um plano de sua filha para o tirar de casa?

How 'The Father' Explored the Painful Descent Into Dementia | Hollywood  Reporter
Anthony Hopkins e Olivia Colman em The Father / Reprodução

Inicialmente, é meio complexo. Não entende-se muito bem o que está acontecendo, qual é de fato o problema ou se ele está fazendo de propósito por ser um idoso travesso? No decorrer da trama vamos adentrando no universo de Anthony e percebemos que a sanidade dele não está nos melhores dias e nos damos conta que a demência é indiferente ao seu portador, ou seja, qualquer pessoa está suscetível a essa doença.

Com um tom avassaladoramente destruidor devido à perda de memórias, o protagonista perde a habilidade de diferenciar lugares, lembranças, dias, pessoas… Como é estar preso num universo que não parece seu? Florian Zeller, o estreante diretor no cinema, adaptou sua própria peça aclamada para as telonas. O filme contempla Anthony Hopkins e Olivia Colman no elenco principal e está indicado a seis prêmios no Oscar deste ano.

Quando assistimos ao longa, temos uma sensação de estarmos num labirinto, num beco sem saída isso devido a direção de arte e da montagem que faz com que o telespectador se sinta na pele de Anthony e a sensação não é apenas física, mas mental. É uma sensação de estar preso nessa montagem. São os pequenos detalhes como mudanças no cenário e uma transição sútil entre passado e presente nos mesmos momentos que propicia essa sensação claustrofóbica vivida pelo personagem.

É angustiante ter essa sensação de não saber quem são as pessoas que conviveram a vida toda com você e o mais desconcertante e triste é o fato de ver Anthony passar por cenas em que ele acredita que estão acontecendo realmente como ele as vive, mas o detalhe atrativo da trama está na frustração de ver como as mesmas cenas realmente ocorreram. Temos a sensação de que as conversas prévias de Anthony são 100% reais e que ele está bem.

The Father
Anthony mora sozinho em seu apartamento em Londres, e recusa todos os cuidadores que sua filha, Anne, tenta impor a ele / Reprodução

Vemos a todo momento que o foco está nos sentimentos de Anthony, mas também mira nos entes queridos que convivem com ele o que é algo honesto, pois ambos os lados são feridos e machucados com essa realidade cruel e amarga. É desesperador enfrentar e lidar com alguém nessa terrível condição de saúde. Tem uma doçura e delicadeza ao retratar os acontecimentos, nesse ponto Zeller se demonstra atencioso e isso reflete no tom e no ritmo do longa. O trabalho de edição é espetacular. E a trilha sonora embala nossos sentimentos como se fosse um guia turístico, a sensação que temos é de que fora escolhida a dedo e a cada escolha, percebemos que com a faixa entendemos a mudança de forma progressiva na percepção de Anthony. Tudo que acontece ao seu redor é encaixado numa sonoridade que eleva os sentidos. Inexplicablement merveilleux!

Nessa produção, o roteiro é bem elaborado e cada personagem tem o seu desenvolvimento na medida certa e cada take longo funciona como o palco para cada um brilhar em sua dramaticidade e essência. A atuação de Hopkins é dolorosamente fenomenal. O susto, a tristeza de ver um velhinho chorando ou levando bofetadas em sua própria face devido a tudo que constrói essas cenas. Não sentimos raiva, mas dor, pois é difícil assistir como a sua maneira cada um lida com a situação. A atriz que vive a filha, Anne, Olivia Colman, é sem dúvida, a personagem que se entrega nessa luta incansável de busca por ajuda e o tanto que ela sofre… é cruel. Mas em meio a essa crueldade, vemos entrega de uma atriz que nos deixa estupefatos com tamanha grandiosidade emocional proporcionada por sua atuação dramática e muito bem feita.

The Father é uma obra que mostra em sua sutileza as consequências devastadoras da doença dolorosamente progressiva que é a demência. O narrativa é cativante e a forma como Florian Zeller nos coloca cuidadosamente no universo paralelo de Anthony, nos dando a chance de ver e sentir tudo através de suas percepções que a todo momento se divergem entre o que ele pensa que está acontecendo e o que de fato é realidade. É impossível não sair diferente depois dessa experiência dolorosamente avassaladora.

MEU PAI teve sua estreia alterada no Brasil. Por conta da fase vermelha e emergencial em todo o país, onde os cinemas encontram-se fechados, a California Filmes lançará o filme no dia 9 de abril, nas plataformas digitais, Now, Itunes (Apple TV) e Google Play disponível para compra, e a partir do dia 28 de abril, o filme ficará também disponível também para aluguel, nessas plataformas já citadas e também na Sky Play e na Vivo Play. A estreia de MEU PAI em salas de cinema não está descartada, e ocorrerão conforme as mesmas reabrirem em cada cidade.

Nota do Thunder Wave
Com uma direção perfeita, roteiro bem coerente e bem desenvolvido, uma trilha sonora excepcional... The Father prende a atenção do começo ao fim. Não me recordo de ter visto um filme que retratasse tão bem doenças mentais, com tanta honestidade e delicadeza. E, particularmente, um show de atuações a parte.

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