domingo, 19, setembro, 2021

Crítica | Mundo em Caos

Baseado no primeiro livro de uma trilogia escrita por Patrick Ness, o longa promete e divide opiniões

Mundo em Caos (Chaos Walking) chegou para a alegria dos fãs de Tom Holland e da Daisy Ridley. Após passar por diversos problemas em sua pós-produção, o longa divide opiniões. Há quem diga que a produção decepciona, mas tem uma parcela que gostou com algumas ressalvas. “Chaos Walking” estava programado para ser lançado no dia 1º de março de 2019, porém as refilmagens forçaram a Lionsgate a postergar o lançamento. Agora, no dia 13 de maio, o longa estrelado por Holland e Ridley chega em solos brasileiros.

Baseado no primeiro livro de uma trilogia escrita por Patrick NessMundo em Caos pode ser considerado um western de ficção-científica e até uma distopia pós apocalíptica ambientado em um novo mundo, um planeta colonizado onde existem apenas homens cujo pensamentos podem ser ouvidos por outros. A ideia inicial é interessante e se torna um terreno fértil ainda não muito popular no gênero. Podemos visualizar essa ideia por meio da construção desenvolvida por Ness, pelo co-roteirista Christopher Ford (Homem-Aranha: De Volta ao Lar), e pelo eficiente diretor Doug Liman (A Identidade Bourne, No Limite do Amanhã, Na Mira do Atirador), que arquitetam as emoções e pensamentos dos personagens na forma de uma névoa azul, meio roxa com alguns toques de vermelho que flutua sobre suas cabeças e nos lembram a uma representação científica da maneira como o vírus se espalha pelo ar.

Essa exposição dos pensamentos em névoa ao redor das cabeças é chamada de ‘ruído’ e cada personagem com o seu ruído exposto insinua um estado emotivo diferente que oscila no decorrer do tempo e que pode ser visto à certa distância. Se você prestar atenção, vemos que em algumas cenas nos apresentam multidões furiosas onde é possível ver seus pensamentos ruins agitados. Também é possível ouvir pensamentos individuais em pequenos trechos de narração, como se fossem um “post it” adicional do que está a mais na cabeça do sujeito.

A produção se passa em um momento do futuro, onde os terráqueos abandonaram seu planeta moribundo para colonizar novos sistemas. Todd Hewitt (Holland), é o ingênuo filho de um fazendeiro (Demian Bichir, do remake de O Grito), em uma pequena vila de um outro planeta. A condição de vida é precária e os colonos parecem ter sido esquecidos. Fato é que só tem homens. Não tem nenhuma mulher, pois de acordo com o que vemos, uma tribo nativa chamada de Spackles massacrou todas as figuras femininas numa grande guerra entre eles e os humanos.

Crítica | Mundo em Caos 1
Tom Holland e Daisy Ridley são Todd e Viola em Chaos Walking/ Reprodução

O prefeito da vila, David Prentiss vivido pelo talentoso Mads Mikkelsen, de Druk, criou um conjunto de ideais como se fosse uma religião que se baseia numa masculinidade forçada e que a todo momento vemos essa manifestação muito explicita pelos ruídos. Percebemos que a exposição dos pensamentos castigam a eles mesmos e aos demais, pois a todo momento é revelado que fraqueza, choro, tristeza e qualquer outro tipo de sentimento é errado de ser sentido e expressado. Vemos que o “seja homem” tem que gritar mais forte e esse tipo de atitude machista é um fato que gera muitos problemas no desenvolvimento do homem.

O longa representa o masculino de uma forma muito violenta e autoritária que agrega em sua estrutura falida elementos militares e exclui de forma irracional a educação. No longa, o personagem de Holland menciona que não pode ler, pois os livros foram queimados e essa prática não é muito velha, a Alemanha Nazista queimou muitos exemplares após Adolf Hitler ter assumido como Terceiro Reich. É por meio do conhecimento que podemos lutar contra a ignorância e o desconhecido.

Nessa bagunça, a espaçonave em que a personagem de Ridley, Viola Eade, estava viajando, sofre uma pane sistêmica e cai, ela é a única sobrevivente. Acaba sendo descoberta por Todd que num primeiro momento se apaixona por ela, mesmo que a maneira como ele lida com isso seja de forma juvenil. Viola é a primeira mulher que Todd vê e ele estranha, pois ela diferente dos homens não tem nenhum pensamento sendo exposto e isso incomoda aos homens desse Novo Mundo que estão atrás dela e Todd decide protege-la e ajuda-la a se comunicar com a sua nave. Fato é que a química entre eles oscila e parece não ter sido muito bem trabalhada, pois a maneira como ele lida com as mulheres e a independência dela de alguma forma causa uma barreira para que eles se conectem de fato.

Você deve achar um absurdo um filme onde o mocinho não salva a mocinha indefesa… Meu caro, não é um absurdo nenhum. Muito pelo contrário, é magnifico ter uma personagem forte e que sabe se virar bem sozinha. Mas mesmo se virando muito bem sozinha, ela precisa de um alguém que possa guiá-la pela floresta e levá-la até um transmissor reminiscente de uma missão anterior, e assim chamar por ajuda. Além de Todd, Manchee, o cachorro, é um grande companheiro que tem um fim trágico. É como o Baleia de Vidas Secas, foi uma cena difícil.

Nesse longa, o ambiente ficcional se divide num meio dramático, pois está em torno da jornada dos personagens Todd e Viola e ganha um clima pesado meio dark quando o ruído segue entregando as atitudes, sentimentos e fraquezas de Todd o que gera uma carga emocional bem forte, pois dá a impressão de que ele está perturbado. A produção conseguiu unir muito bem características do faroeste hollywoodiano que pode ser vista na politica dos homens de Prentisstown se organizam e essa estrutura consegue coabitar no mesmo espaço que os elementos de ficção-científica e distopia apocalíptica.

Algo que não rolou bem é o fato de Mundo em Caos não se aprofundar na origem desse ruído de forma mais real. Como assim? A raça de indígenas humanoides que foram subjugados pelos humanos, e que supostamente “amaldiçoaram” os humanos sobreviventes com o ruído, pelos erros cometidos e é aí que está a falha. A direção/ roteiristas não souberam como retratar isso, pois perde-se muito tempo ao mostrar todo o território e com algumas confusões desnecessárias ao invés de usar para montar uma linha narrativa coerente que passe pela mitologia que envolve o planeta que serve de espaço para o desdobramento da trama, além de trabalhar com outros elementos interessantes como os discursos teológicos que se fazem presente no longa por meio de uma figura conhecida como o Pregador que nos remete ao fanatismo religioso.

Mundo em Caos | Adaptação estrelada por Tom Holland e Daisy Ridley ganha  nova data de estreia - Cinema com Rapadura
Viola e David Prentiss conversam sobre a queda da nave em que a moça estava / Reprodução

A preferência aqui é o masculino. Por quê? Aqui, os homens são fáceis de ler, de decifrar, já as mulheres são silenciadas, guardam segredos e possuem conhecimentos diversos. Numa cidade que só homens se expressam sejam pelo ruído ou por sua imposição ditatorial, as mulheres não tem esse direto, pois David, o prefeito, manipula, omite e mente descaradamente. A cena mais bonita é quando o filme para de correr, de ser ação e respira, ele respira quando Viola lê algo para Todd em voz alta, essa cena em particular é uma bela passagem, é quando de fato vemos o longa de forma mais intima, focado, leve e cheio de afeto, mesmo quando as lembranças geram dor.

Porém, Mundo em Caos está no meio de uma sinuca de bico, pois se auto-censurou para existir. É uma ficção cientifica com orçamento na casa dos $100 milhões de dólares que de forma alguma é pequena, mas também não chega perto de produções da Disney ou da Marvel, que conseguem investir valores na casa dos $400 milhões em um único filme. Se a pretensão era cativar o publico com a presença do Tom Holland e com a Ray de Star Wars, faltou um pouco de bom senso racional, pois antes de focar nos atores, era necessário focar na história que tem tudo para dar certo, mas escorrega em alguns pontos. Embora Ridley e Holland entreguem boas performances, interpretando personagens com os quais o espectador realmente se importa, falta a sensibilidade de uma construção que além de contar bem a trama, garanta uma sequencia que pelo final do filme, precisa ter. Tem pontas soltas que dão pano para a manga, mas precisa saber desenvolver e contar de uma forma melhor.

Apesar de alguns escorregões, a equipe de som está de parabéns. Claro que Liman e o restante da equipe fizeram da experiência sensorial algo bem feito. O público consegue mergulhar nesse ambiente cheio de ruído e essa experiência gradual faz com que o telespectador se acostume e se adapte ao que se vê na telona. No inicio é meio confuso, mas nos adaptamos a forma de interação dos personagens como a repetição de palavras neutras ou de mantras, lembranças, ou até mesmo como seus pensamentos são blindados e escondidos e tudo isso pode ser visto flutuando em volta de suas cabeças o que é muito interessante de ver.

É uma produção com uma premissa interessante que tem muito para cativar. Embora tenha algumas falhas visíveis, a produção tem futuro e precisa encontrar o próprio caminho para o sucesso. Afinal, como poderia uma pessoa durar uma hora em um mundo como este sem enlouquecer ou fazer com que outra pessoa queira matá-la? Ahhh só com a continuação poderemos saber qual o destino de Viola e Todd e o que esse universo nos reserva.

Nota do Thunder Wave
É um longa que tem potencial, bons atores e uma premissa interessante. Precisa de mais coerência se quiser cativar espaço e o amor do público, precisa ousar e sair da zona de conforto para ter sucesso. É um bom entretenimento.

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