quarta-feira, 28, julho, 2021
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Crítica | Na Cidade Branca

Um filme de 1983 que mostra a necessidade da liberdade para mentes humanas, mais atual não poderia ser

En la ciudad blanca (Dans la Ville blanche, 1983) ou Na Cidade Branca, nos apresenta um longa que não precisa de muito para impactar. A obra é como um poema, uma jóia rara e que alguns filmes que vieram depois, beberam um pouco da essência da obra de Alain Tanner. Um drama sentimental que envolve por sua sensibilidade e é onde a cidade branca do título se assume mais como personagem do que como cenário. Protagonizada por Bruno Ganz e Teresa Madruga, teve como diretor de fotografia Acácio de Almeida, também responsável pelo restauro digital 4K.

No longa, somos apresentados ao personagem Paul interpretado por Bruno Ganz, que é um mecânico a bordo de um navio cargueiro que acaba desembarcando em Lisboa sem um motivo aparente. Numa pensão, ele se encontra numa fase da vida em que as coisas não fazem mais sentido, como se estivesse num vazio existencial. Pelas ruas da cidade, ele caminha, filmando com sua câmera Super 8. Porém, ele se apaixona pela garçonete Rosa, personagem de Teresa Madruga, com quem passa a enxergar a vida mais colorida. Essa relação entre eles se assemelha com o longa Encontros e Desencontros (2003, de Sofia Coppola), que existe essa descoberta entre os personagens. Em contra partida, se corresponde por cartas com a sua esposa que está na Suiça, e que aparentemente, sabe de tudo que se passa com o marido em Lisboa (eles não devem estar nos melhores momentos da relação).

Crítica | Na Cidade Branca 1
Bruno Ganz vive o personagem Paul / Reprodução

Na Cidade Branca é de 1983, mas mostra que qualquer pessoa está suscetível a passar por crises existenciais e, por isso, o longa tem a sua beleza. A produção não conta com muitos diálogos como num filme da Marvel, por exemplo. Cada cena capta o que realmente está acontecendo no momento e assim como Paul que sai filmando o que lhe dá vontade, na sua liberdade de captar o que quiser, o longa tem essa mesma proposta. E com a direção de Alain Tanner e a atuação de Bruno Ganz, que fica mais evidente essa busca pela liberdade e a impossibilidade de alcançá-la, o descortinar de um novo amor, e a vida que se mostra bela diante da inconsistência humana.

Ao desembarcar em Lisboa, Paul se torna um desertor. Ele diz que no trabalho não viaja, mora numa fábrica flutuante, por isso, todos os marinheiros são malucos. E assim como ele, percebemos que o ser humana tem essa sede de liberdade, pois quando privado dessa liberdade e confinado a um local barulhento, pequeno e quente, o individuo sofre tanto que o cérebro pode se dissociar e isso vemos agora durante a pandemia de Covid-19. O personagem Paul necessita encontrar uma nova voz para ver o mundo, percebemos que ele perdeu o senso memorial e da realidade e temos essa noção, pois nas cenas finais ele viaja sem se mover e e um um dado momento ele é comparado a um axolotl, um anfíbio caudado dos lagos do México. 

A Cidade Branca - Filmes - Drama - RTP
Teresa Madruga vive a personagem Rosa / Reprodução

Vemos que Paul não consegue escrever com aquela vontade, que ele perdeu algo, mas ele se expressa conosco através das imagens que capta com sua câmera super 8. A melhor cena que demonstra o estado mental real de Paul é aquela em um plano fechado do mar mostra o navio em movimento e ai percebemos que a mente de Paul e o mar são a mesma coisa. Vemos o mar incessante, infinito, hipnótico, obsessivo, incomensurável, elusivo, como a mente a mente do personagem que vaga por algum plano que não conhecemos. Nem a própria esposa que se encontra na Suiça e nem Rosa o conhecem direito.

Presenciamos o cansaço de Paul e seu amor por duas mulheres. Mas é com Rosa que ele se sente livre. Apesar de ela dizer que o ama, ela reflete sobre a volta dele para casa, ele um dia irá embora e ela também. Após ser agredido e assaltado na esquina de uma rua, é hospitalizado. Rosa sem notícias suas e acreditando ter sido abandonada, parte para França. Paul retorna e quando não encontra Rosa, decide voltar para casa. E a cidade branca se faz assim… dessa maneira como se algo que estivesse completo não tivesse esse sentido de estar completo, ainda falta algo e sentimos isso com o regresso do personagem.

Minha única pátria verdadeira é o mar.”

A trilha melancólica que lembra a sensação de solidão do longa nos remete ao filme de Bernard Herrmann para Taxi Driver. Com o seu visual decadente, meio parado no tempo, no mar infinito, e nos paralelepípedos sem fim das suas ruas, Lisboa se mostra mais turística do que nunca. E a produção soube como aproveitar isso muito bem. É como se viajássemos, porém sem nos mover. No seu próprio ritmo, na simplicidade do cotidiano, numa partida de futebol protagonizada pelo Brasil, um homem toca gaita em frente ao mar, joga bilhar, contempla uma linda mulher… Esse mesmo homem perdido em seus pensamentos, se liberta em suas filmagens e vê que a liberdade é algo necessário para a mente humana.

O festival “Volta ao Mundo” criado pelo Petra Belas Artes À La Carte para destacar a cinematografia dos mais diversos países ao redor do mundo. E, para inaugurar a novidade, o streaming marca também a sua primeira parceria internacional exclusiva, com a Suíça, para a realização do festival com oito filmes produzidos no país.
Realizada em parceria com a Swiss Film Foundation, “Volta ao Mundo: Suíça”, acontece entre os dias 6 e 19 de maio e reúne filmes raros e inéditos nos cinemas brasileiros, entre eles dois longas do aclamado diretor Alain Tanner, como “Na Cidade Branca“/Dans La Ville Blanche (1983).

Nota do Thunder Wave
É um longa que retrata questões muito atuais como a busca pela liberdade e a privação da mesma. É uma trama poética e sensível e, por isso, se torna um excelente entretenimento.

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