domingo, 5, dezembro, 2021

Crítica | Não Estou Lá

Longa que recria, de forma ficcional, a trajetória de Bob Dylan

Podemos dizer que esse é o filme mais ambicioso de Todd Haynes. Em Não Estou Lá, ele consegue contar a história de um ídolo de forma a reinterpretar o passado a partir de fragmentos que restaram dele. A história da vez é de Bob Dylan. Uma difícil escolha, pois o trabalho aqui foi capturar a essência corpórea e fragmentos da alma de Bob Dylan. O longa é de 2007, mas revolucionou o gênero de uma forma surpreendente. Normalmente, quando se trata de obras sobre fatos reais, logo vemos o aviso “baseado em fatos reais”, mas Todd conseguiu fazer desta cinebiografia algo diferente e ousado.

Poeta e porta-voz de uma geração inteira. Bob Dylan sempre viveu em processos constantes de mutação. De jovem menestrel a profeta folk, de poeta moderno a roqueiro, de ícone da contracultura a cristão renascido, de caubói solitário a popstar. Aqui ele se desdobra em muitos contidos num só. Não é a toa que no longa seis atores interpretaram as facetas do artista representando as fases da carreira e diferentes aspectos da personalidade e o mais interessante, nenhum deles carrega o nome do artista.

Os Dylans que perdemos de vista em Não Estou Lá | Senta Aí
Marcus Carl Franklin, Cate Blanchett, Christian Bale, Ben Whishaw, Heath Ledger e Richard Gere são os atores que interpretam Bob Dylan / Reprodução

Algo que chamou atenção é o fato deles transitarem de uma cena para outra sem uma lógica evidente. No entanto, trazendo para o contexto eles transmitem o estado de espírito em contínua transformação de Bob Dylan e a coerência é assustadora, pois deu certo. Os personagens criados por Haynes, não são pessoas sem relevância ou desconhecida do público daquela época. O garoto negro que anda de trem pelos EUA, Marcus Carl Franklin, chama-se Woody Guthrie, lendário cantor folk e uma das maiores influência da primeira fase de Dylan. Outro ator que interpretou uma das fases do cantor foi Ben Whishaw no papel de Arthur Rimbaud, outra grande referência para o cantor e compositor, que, aliás, adotou o nome Dylan em homenagem ao poeta irlandês Dylan Thomas.

O talentosíssimo Richard Gere, no segmento mais irreverente e singular, é Billy the Kid -referência à participação de Dylan no faroeste de Sam Peckinpah, “Pat Garrett & Billy the Kid”. Outros atores como Christian Bale e Heath Ledger arrasaram nas interpretações. Bale está diferente e a versão do cantor que entrega é a volta de Bob ao protestantismo como Pastor John e Ledger entrega ao publico a perspectiva de Dylan como pai. Porém o brilho é dela, Cate Blanchett cuja caracterização lhe valeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza e a indicação ao Oscar na categoria coadjuvante.

Não Estou Lá ´´ Estréia no Canal Brasil - Cinema para Sempre
Cate Blanchett é uma das versões do ícone Bob Dylan / Reprodução

A atriz interpreta um Bob artista incompreendido que se assume, ora ativista dos movimentos sociais, ora amado pela elite, montam um arsenal tão rico de momentos e paralelos, de tempos diferentes fazendo com que o que o espectador se sinta imerso nesse universo de Bob Dylan e suas várias caras, corpos e personalidades. A ousadia de escalar uma mulher e um garoto negro para dar vida a algumas versões do cantor foi algo inovador e jamais imaginado.

Em Não Estou Lá, somos desafiados a cada transição de personalidade devido ao recorte feito pelo roteiro e essa dinâmica encontra-se impressa na maneira como a câmera se posiciona. Além da mudança dos atores, Haynes também opta por adotar o preto e branco com Rimbaud e com Jude Quinn (a imagem de Dylan que ficou), com um desejo semelhante ao de Philippe Garrel: uma especie de fantasia que engrandece os gestos, delimitando-os de maneira singular.

Não Estou Lá, não pode ser visto como um longa de estrutura regular e nem se pauta pela desconstrução de um grande ídolo da indústria musical. Percebemos que a proposta é trabalhar dentro de forma profunda no universo de Dylan. Todd Haynes soube como costurar de forma delicada e coerente o seu roteiro bem amarrado, a encenação estava incrível com uma montagem um tanto peculiar, mas irreverente e excepcional apresentando uma versão mais descontraída do que pode ser o gênero mais “quadrado” do cinema, a cinebiografia que por vezes se mostra cansada e sem vida. 

Nota do Thunder Wave
Algo pertinente para debate é saber se essas várias facetas de Dylan são cópias industrializadas resultantes de um bom marketing ou seria Bob Dylan um artista falso que virou uma mina de dinheiro nas mãos de uma gravadora e um empresário astuto? Se sim ou não, Haynes fez um ótimo trabalho não se limitando dentro do gênero e expandindo o leque de criatividade que ele tem. Vale o entretenimento.

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