Crítica | Noites de Paris

Essa não é a Paris dos românticos e apaixonados, mas das almas solitárias e perdidas

O novo filme de Mikhaël Hers, Noites de Paris (Les Passagers de la Nuit), estreia nos cinemas brasileiros no dia 20 de outubro, está na seleção do Festival do Rio 2022 e traz Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca) no papel principal. Apesar do título em português ter perdido a graciosidade poética da versão original, o longa é muito sensível e bonito.

A produção tem como recorte o momento em que François Mitterrand foi eleito em 1981 e ficou até 1995 na presidência da França. Pelas ruas, comemorações se espalham e uma onda de esperança começa a surgir em Paris. Até o momento, Mitterrand detém o recorde de longevidade na presidência da República Francesa, com seu mandato de 14 anos. Foi o primeiro presidente da república e oriundo do Partido Socialista. Sob seu mandato foi abolida a pena de morte no país frances.

E é nesta época que a personagem Elizabeth interpretada por Gainsbourg se separa do marido e precisa seguir com seus dois filhos. A partir de agora, ela é a provedora da casa Infelizmente, vemos nela um retrato da realidade de muitas mulheres que se encontram nessa situação. Desempregada e sem muitas expectativas, ela decide escrever uma carta para um programa de rádio noturna do qual é uma ouvinte fiel. Graças a sua insônia provocada pela preocupação sobre o seu futuro, ela consegue o emprego como telefonista e, lá, conhece Talulah (Noée Abita), uma adolescente que está morando na rua e que tem problemas com drogas.

Crítica | Noites de Paris 1
Matthias e Talulah / Reprodução

O longa desconstrói a beleza estereotipada de Paris. A noite ganha uma outra roupagem. Enquanto a personagem de Charlotte Gainsbourg passa as madrugadas em claro após o abandono pelo marido e se preocupando sobre seu futuro e de seus filhos, seu caçula Matthias (Quito Rayon-Richter) aproveita a escuridão da noite para se aventurar  pelas ruas com sua motocicleta. E Talulah, garota de rua e dependente química, vê na noite uma um modo de vida possível, sem reclamar da sua atual situação, ela segue de um canto a outro. A direção de Hers nos entrega uma classe média deprimida e que busca por alivio em meio ao caos de suas próprias vidas.

Muitas cenas acontecem à noite e percebemos que o longa de Hers dá um significado diferente para o momento noturno, neste cenário, ela é sinônimo de escapatória, de liberdade, de alívio. Os personagens, cada um à sua maneira, brilham com suas falhas e acertos. A direção de Mikhaël Hers é cuidadosa e gentil com cada uma dessas figuras que anseiam por tempos melhores. Essa não é a Paris dos românticos e apaixonados, mas das almas solitárias e perdidas.

A estética do filme não evoca a capital francesa que conhecemos e sim a arte vista nos cenários retrofuturistas de uma periferia verticalizada, cujo horizonte é repleto de arranha-céus semelhantes entre si, ocupando a vista até dos andares altos. Seja qual for o ângulo, Elisabeth vê apartamentos iguais ao seu, onde devem viver pessoas parecidas ou não. A paleta de cores é bem interessante, pois, passeia por tons azuis e laranjas, além de muitas cores pastéis. Mas não deixa de ser acolhedor, apesar do cinza e solitário sótão. Tudo bem evidenciado pela direção de fotografia. O trabalho primoroso de Sébastien Buchmann com a mescla de texturas indo do granulado ao pixelizado das tecnologias digitais criando um certo conflito demarcando as gerações nos tirando do comodismo. Um dos pontos altos é a trilha sonora, sempre num volume baixo, porém constante e imprimindo significado e ênfase aos sentimentos dos personagens. O longa se mostra deprimente, mas não é esse o intuito e sim uma sensação de se permitir ser sensível em diversas nuances.

O cenário político se faz presente assim como o abuso de drogas e a experiência sexual. Aqui, de forma tímida vemos a filha mais velha Judith (Megan Northam) praticando seus atos de militância longe das câmeras. Já as substâncias consumidas por Talulah nem sequer são nomeadas, e o sexo descoberto pelo filho caçula possui um aspecto de doçura e inocencia. É um filme de muitas surpresas, pois, enquanto Elisabeth debate sobre a privacidade dos ouvintes, ela tem encontros amorosos nas coxias. Porém, é na biblioteca que ela descobre um possível amor diferente das ficadas nos departamentos da rádio. 

Crítica | Noites de Paris 2
Há espaço para todos em Noites de Paris / Reprodução

O texto é bem equilibrado e sabe como trabalhar todos os seus personagens de forma qualitativa Há espaço para o avô, o melhor amigo do filho, a bruta apresentadora Vanda Dorval (Emmanuelle Béart, meio misteriosa, meio sisuda), os colegas da rádio e a amiga da biblioteca. A direção e o roteiro sabem da existência de um mundo inteiro, além do que está sendo filmado. Aqui tudo tem relevância para a tela.

O elenco está impecável e a escolha da atriz Charlotte Gainsbourg foi uma aquisição perfeita. Sua voz doce e expressão flexível caminham entre a exaustão e a gentileza, um olhar penetrante e carinhoso. Diferente dos adolescentes que se mostram mais enérgicos. São atuações delicadas, fiéis numa França que não ignora os conflitos. Somos pegos de surpresa por uma mastectomia, por um abraço coletivo. Poucos filmes entregam cenas como o longa de Hers que não carrega julgamentos e sim uma melancolia. Aqui a sensação é mais importante do que os acontecimentos em si.

Noites de Paris estreia na próxima quinta-feira, dia 20 de outubro de 2022 nos cinemas brasileiros e está em cartaz no Festival do Rio 2022.

Nota do Thunder Wave
É delicado, melancólico, real, poético. É difícil assistir filmes que nos tocam de forma profunda com uma trama simples e bem feita. É o cinema sendo enaltecido pela adversidade, sem maquiagem. É a honestidade de uma boa direção, atuações impecáveis, trilha sonora e fotografia esplendidas. Vale muito a pena.

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