quarta-feira, 28, julho, 2021
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Crítica | O Gambito da Rainha

Baseado no livro de mesmo nome escrito por Walter Trevis, O Gambito da Rainha, conta a história de uma jovem que sobrevive a uma infância repleta de dificuldades e encontra um caminho no xadrez se revelando um talento nato

Desde que o mundo é mundo, o preço da genialidade feminina é pago com desprezo e repressão. Em O Gambito da Rainha vemos uma série bem produzida que aborda uma jornada com muitas dificuldades e retomando as origens com altos e baixos, demônios internos e um esplendor de glória que emana de uma personalidade extraordinária em uma atividade considerada masculina. A Netflix não brinca em serviço quando o assunto se trata de produções originais. A minissérie criada por Scott Frank tem um diferencial que vai além da exploração do universo do xadrez passando se num cenário de extrema complexidade para sua protagonista fazer do caos o seu palco. Cheia de suspense, mistério e até um pouco de sedução, a série não foi feita para conhecer apenas o mundo dos enxadristas e sim o machismo estrutural constante reprimindo a genialidade feminina.

Desde o seu título forte e impactante, a série é sobre se superar a todo momento e é com Beth Harmon que temos conhecimento disso. Em uma entrevista, Beth menciona que o xadrez é “um universo próprio dentro de 64 espaços”, que por ironia ou não, a rainha é a melhor peça do tabuleiro, e o rei, serve apenas para ser protegido por ela. E nessa dinâmica, Harmon para se tornar a rainha, precisa superar não apenas os seus adversários de jogo, mas uma quantidade de obstáculos pessoais ligados direta e indiretamente as suas origens. É curioso como a série aborda o ser prodígio em meio ao vício em bebida e calmantes, o luto, a maternidade ou a falta dela, relações superficiais e às vezes com objetivos não puros e no geral, a genialidade e a loucura andam juntas e é isso que assusta a nossa protagonista brilhante, porém, problemática.

Crítica | O Gambito da Rainha 1
Mr. Shaibel e a pequena Beth jogando xadrez no porão do orfanato/ Reprodução

Inicialmente, a trama começa na manhã da segunda partida de Beth com o campeão mundial russo, Vasily Borgov (Marcin Dorocinski), em Paris. Ela está de ressaca devido a noite anterior. E nessa cena tem um corte que salta décadas atrás para nos apresentar essa jovem de olhar magnético e solitário. O corte nos leva para o acidente de sua mãe e em seguida a ida dela para um orfanato para meninas, o Lar Methuen. Lá, ela conhece pessoas importantes que farão da sua estadia memorável ou, talvez, nem tanto. Beth se torna amiga de Jolene (Moses Ingram), uma jovem espirituosa que é alguns anos mais velha que Beth e acredita fielmente ao fato de que nunca será adotada; Helen Deardorff (Christiane Seidel), a mulher que comanda o orfanato; e o Sr. Shaibel (Bill Camp), o zelador do lugar que dá a Beth suas primeiras aulas de xadrez e com isso, vemos a nossa protagonista sendo moldada.

É no decorrer dos episódios que esse molde toma forma e conseguimos enxergar um propósito de todo o conjunto da produção. Vemos em Beth Harmon um conjunto de consequências inicialmente herdados por ela, que depois percebemos que são reações de decisões tomadas por outras pessoas ao seu redor que fazem com que essa jovem seja quem é… um fragmento de dor e repressão que moldado pela estrutura social que não aceitava uma mulher em outro lugar a não ser em um lar cuidando dos filhos e do marido.

A interprete de Beth é a atriz Anya Taylor-Joy, exala confiança na sua presença hipnotizante em cena e é ela quem faz o espectador se amarrar a tela. A câmera sente um prazer inebriante ao capturar cada gesto, expressão, decisão… movimento dela. A presença é tão imponente que nos damos conta de que o título se refere a ela. A entrega psicológica e a apresentação visual dela pode ser considerada uma das melhores atuações de 2020, se não, a melhor.

O confronto é um tempero que está presente em todos os episódios e em poucos personagens, sendo como base, parte da construção de Beth que com seu olhar inocente e com a ajuda de outro marginalizado, o zelador, viu no xadrez uma escolha e uma possibilidade de vida e assim adquirir um dote extraordinário impulsionado por seu talento. Talvez, se ela não tivesse tido essa curiosidade quando criança, seu talento nunca seria descoberto e lapidado. Infelizmente, isso é algo recorrente. Muitas mulheres por falta de incentivos ou devido as prisões impostas pela estrutura social a qual vivem, são impedidas de trilharem o seu próprio caminho. Podemos acreditar que as “mães” de Beth tenham tido finais infelizes devido a essa pressão. A mulher quando nasce, deixa de ser pessoa e se torna uma marionete do próprio patriarcado.

Percebam as personagens secundarias e suas tramas. A mãe adotiva de Harmon poderia ser uma pianista maravilhosa, porém, presa a um casamento abusivo, encontrou no alcool e nos calmantes um caminho sem volta. A francesa que Harmon conhece em Nova York é apresentada como uma mulher inteligente na área da estética, mas relata que o mundo da moda a vê como um mero objeto que depois de um tempo passa a não ter valor. E a personagem mais importante e que a muito custo se torna uma fonte de inspiração, a amiga do orfanato de Harmon, Jolene. Observe a armadura que ela precisou criar para chegar onde está independente de gênero e cor. Sim, a cor é algo que decide o rumo de muita gente desde que o mundo existe. Em contrapeso, o universo do xadrez majoritariamente composto por homens fala por si só a grande diferença de incentivos à composição de talento, ainda mais quando se trata de um traço explorado por outros personagens que se dispõem a ajudar Harmon com outros problemas, fica mais evidente o privilégio masculino à especialidade e as facilidades.

Se você prestar bem atenção, um ponto relevante é a percepção de que a trama cria uma atmosfera de orgulho que é parte intrínseca que caminha linearmente com o desenvolvimento da protagonista a ser a melhor enxadrista, mas também é simbolicamente uma resistência da mulher com seu lugar de especialidade num mundo que não a incentiva para tal, pelo menos não nos EUA. Numa parcela entretida com o xadrez, na Rússia, as coisas são um pouco diferentes, é um país que estimula a mulher a jogar e que tenha categoria própria de premiação.

Outro ponto importante é que no contexto da Guerra Fria, essa inclusão é um olhar muito atento de seus idealizadores e o fato das peças serem pretas e brancas para a época que retrata é um fato ainda mais relevante, pois sempre quem começa com as brancas – será que é um privilégio de cor? – tem uma certa vantagem. No entanto, os jogadores, independentemente da nacionalidade, jogam com as duas, ou seja, pouco importa isso no espírito esportivo mostrando que independente de muitas configurações sociais, por meio do esporte podemos promover inclusão.

⁠Depois que a tristeza nos abate, a oração e a fé nos elevam. O suficiente para ver um novo caminho. – Jolene

O xadrez, portanto, é visto na sua concepção de jogo para os acontecimentos narrativos. A trama usa de aspectos adquiridos do cinema para criar planos estratégicos que se comunicam e complementam a história deixando toda a produção redonda e dimensionando o espaço a contemplar a atmosfera de sua época que fora reconstruída à base de um trabalho de composição de design de produção, figurinos e maquiagem simplesmente interessantes e verdadeiramente belos. A montagem é um destaque em especial para não tornar repetitivo e cansativo as partidas de xadrez, alternando entre planos longos para amplificar a tensão de partidas mais importantes, edições elaboradas que resumem trajetórias que não são tão relevantes ou cortes necessários para quebrar certas expectativas ou instigar a curiosidade e a ansiedade sobre os futuros acontecimentos.

Por fim, temos uma excelente direção em todos os aspectos. Trilha sonora, ambientação, figurino e um show de atuação não só de Anya Taylor-Joy, mas de todos os enxadristas. A trama que aborda a vida de uma garotinha que sai ilesa de um acidente (assassinato-suicídio), mostra que uma jornada solitária, acompanhada apenas pelo vício em álcool e calmantes é algo que destrói a protagonista aos poucos. Embora não seja esse o intuito, é se desprendendo disso que Beth recupera a sua autoconfiança e encontra um propósito. Não se engane, a vitória dela não se deve a ajuda de seus amigos e sim, exclusivamente, de Beth. Se trata da jornada dela que no decorrer da série vivenciamos e seria totalmente injusto que ela compartilhasse esse momento de glória com outras pessoas.

Nota do Thunder Wave
É uma produção que aborda como a genialidade feminina é moldada e desenvolvida. E por isso a ficção é tão importante, pois inspira mudanças. A série pode ter um contexto antigo, mas as tramas abordadas são tão atuais quanto naquela época. Se esse era ou não o propósito, não sabemos, mas desconfiamos. Bem produzida e com poucas, quase inexistentes, escorregadas, a trama de sete episódios de aproximadamente 60 minutos, O Gambito da Rainha é divertida, misteriosa, inspiradora e relevante pelos assuntos tratados.

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