segunda-feira, 6, dezembro, 2021

Crítica | The Killing – 2ª temporada

O desfecho do assassinato de Rosie Larsen chocou os espectadores

A primeira temporada de The Killing carrega uma atmosfera pesada com fotografia um tanto opressora, atuações excepcionais e um roteiro centrado no psicológico dos personagens e que decide por não focar na resolução do assassinato de Rosie Larsen dando brecha para uma sequência. Embora, 26 episódios sejam muitos para lidar apenas com um assassinato, a série mantém o suspense, impressiona pelos acertos e surpreende pelas falhas que se tornam gritantes.

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A química entre os personagens de Mireille Enos e Joel Kinnaman, que fazem a dupla de detetives Sarah Linden e Stephen Holder da polícia de Seattle, ainda continuam forte e envolvente, Veena Sud, criadora da série original dinamarquesa e showrunner da versão americana, infelizmente, se confundiu e cometeu alguns errinhos notáveis. A segunda temporada faz com que os detetives se descuidem e comecem a investigar toda a cidade como se fosse um jogo de “tentativa e erro” e isso alarga o escopo da caçada dos detetives, com mais profundidade política, mais permutas acontecendo em altos escalões e mais drama com os personagens. No entanto, tudo num tom meio superficial, não manteve a pegada da primeira temporada que demonstrava algo profundo, como se estivesse no fundo do poço de cada esfera abordada na série.

The Killing – Day 23 – 72 Hours – The Mind Reels
Linden internada no sanatório. Holder tenta ajudá-la / Reprodução

Essa confusão pode ter acontecido devido ao fato de a AMC cancelar a série no final da segunda temporada, talvez precipitando algumas decisões de roteiro ou porque a versão dinamarquesa original tinha a estrutura de um crime por temporada. Na adaptação americana, a investigação do assassinato de Rosie Larsen se desdobra por duas temporadas e fica um pouco maçante e incomodo o fato de não se chegar a lugar nenhum com tanta investigação, é muita bola na trave.

Apesar das especulações do parágrafo anterior, não existe um motivo concreto para os gaps na construção psicológica que foi tão bem abordada na primeira temporada. Nessa segunda temporada, o lado psicológico não foi deixado de lado, existe, porém, de forma mais simplória, meio que preto no branco. Faltou sair da caixa e ir a procura do “cinza”. Por exemplo, ao longo da primeira temporada, vimos que Linden tem um passado dolorosos e isso gerou consequências em sua vida. Ela está em constante luta para não perder a guarda de seu filho Jack (Liam James), porém, permanece envolvida de forma profunda no caso de Rosie. Além disso, ela tem uma obsessão por uma investigação do passado.

Solução encontrada pela equipe de roteiro e direção? Tira o Jack da jogada, mandando-o para morar com o pai ausente e que decidiu agora que quer participar da vida dele e arremessa Linden num hospital psiquiátrico onde ela tem que expor o seu passado difícil em sessões psiquiátricas de forma obrigatória. Cadê a dinâmica orgânica da primeira temporada? Por esse exemplo, percebemos que nós mulheres somos tratadas como se fossemos loucas. A partir daí, a mulher de físico frágil e de semblante carregado que se vê consumida pela paranoia de não saber em quem confiar à medida em que descobre elementos que apontam para o envolvimento de membros da própria polícia de Seattle e da alta cúpula da política local na conspiração. Nesse sequência, Linden precisa se provar cada vez mais e isso faz com que a personagem seja descreditada, seja dada como louca, quando na verdade ela está fazendo o seu trabalho da melhor maneira que pode.

Além de Linden ter sido ridicularizada, Holder personagem de Joel Kinnaman, também sofre com as consequências de seus atos estrupidos. Além dele atrapalhar o seu relacionamento com Linden e fazer com que eles percam tempo com suas trapalhadas ficamos cientes de que toda essa bagunça foi motivada por conta de uma promessa de promoção caso Holder fizesse parte do esquema que direcionasse a investigação para Richmond e isso também explica seus esforços semi desesperados para manipular Belko e convencê-lo de que ele ‘pegou’ o cara certo. Aqui Holder foi retratado como uma marionete e em um dos episódios mais emblemáticos, ele se dá conta do que fez e busca a fazer as coisas da forma certa. É aí que a produção acerta. Não precisava que ele cometesse tanta merda, para chegar nessa decisão.

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Stephen Holder faz alguma cagadas, mas no fundo sabemos que ele tem um bom coração /Reprodução

No entanto, podemos entender que o fato de terem transformado The Killing em uma produção no estilo CSI ou de tantas outras para não ser cancelada… simplesmente não funcionou, pois tirou a essência e logo após a terceira temporada, aconteceu o segundo cancelamento. Foi um tiro no pé total.

Porém, outras coisas contribuíram para a superficialidade da temporada de número 2. A mãe de Rosie, Mitch Larsen (Michelle Forbes) é posta numa busca sem rumo, talvez, para se afastar da dor causada pelo assassinato da filha e se lembrar de quem realmente é, seus sonhos, desejos e etc. Mas com isso ela ganha o título de mãe ruim, pois deu no pé quando os filhos menores e o marido precisavam dela como base emocional da família Larsen. No entanto, essa busca por resiliência ou escape da pressão, não foi muito bem desenvolvida e acabou não resultando em nada. Foi apenas um rolê.

Já o pai, Stan Larsen (Brent Sexton) cai de paraquedas no colo de seu antigo patrão, o mafioso polonês Janek Kovarsky (Don Thompson) e traz a tona um assassinato antigo que vem lhe assombrar bem nesse momento difícil. Juntando os cacos da família, vem a irmã da Mitch, que desenvolveu uma p*ta estrutura para dar suporte aos sobrinhos e ao cunhado e foi ela quem fez parte do assassinato da sobrinha… COMO SE PODE EXPLICAR ISSO, PRODUÇÃO? Como uma personagem fraca emocionalmente desenvolveu essa estrutura fod*stica? Sem contar o beijo entre ela e o cunhado, pai de Rosie… muito clichê.

O arco da família em si, foi mastigado e jogado fora. É trazido para a trama a controvérsia aparição da personagem Nicole Jackson (Claudia Ferri), a chefe indígena que gerencia o cassino Wapi Eagle, pintando-a como o capeta em pessoa. Cria-se um mal estar, um rolo desnecessário envolvendo a saída do antigo chefe de polícia e a entrada de um novo, Erik Carlson, vivido por Mark Moses. Além de fazer com que o telespectador acredite fielmente que Darren Richmond (Billy Campbell), o vereador candidato a prefeito de Seattle baleado ao final da primeira temporada pode se recuperar de toda a merda que aconteceu com ele em 48 horas e sair totalmente inteiro e resiliente para a sua campanha que vive seus piores momentos. Uma coisa que é perturbadora é o fato dele não dizer o que fez na noite do assassinato de Rosie Larsen. O que mais preocupa ele é uma tentativa de suicídio do que um assassinato que ele está sendo acusado e que ele não cometeu. Não faz sentido…

The Killing – Day 19 – Openings – The Mind Reels
Darren Richmond é acusado de assassinato e sua maior preocupação é o público saber de sua tentativa de suicídio / Reprodução

Não podemos esquecer do namorado otaku de Rosie, que é metido na trama para buscar vingança e no final ele é tirado da mesma forma como foi colocado na produção. Todos esses detalhes que aconteceram, foi exatamente para criar uma confusão e enrolar a trama e o pior de tudo foi ter feito Linden e Holder de gato e sapato na procura de um assassino que estava na cara deles. Patifaria!!! O fato da série ter sido mastigada e cuspida com um roteiro pesado, envolvendo aqueles flashbacks e uma atmosfera um pouco distante da primeira só fez da produção algo mais do mesmo.

Mas mesmo com toda essa bizarrice criada nessa segunda temporada, a revelação de quem matou Rosie Larsen faz todo sentido e foi surpreendente. O modo como se dá a descoberta é bem trabalhosa e complexa, mas existe um lado positivo da revelação e a não inclusão de um personagem novo para ser o “assassino” da garota foi bem pensado até mesmo pelo motivo de que Linden e Holder foram apresentados desde o rincipio aos assassinos.

Com a primeira temporada, percebemos que o foco não é a resolução do caso e sim, como se dá o processo. Porém, nessa temporada vemos uma bagunça, uma temporada com muitos furos de lógica e de situações clichês, como monólogos explicativos, personagens coadjuvantes que surge do nada, deduções na hora do amém para que a série seja concluída com sucesso e o fator “segredo” faz com que o final seja vazio.

Um fato importante que podemos destacar é que a série tem como objetivo focar nos contrapontos de cada acontecimento e o fato de retratar as personagens mulheres de forma potente enquanto hierarquias e seres humanos em pleno ano de 2012 é muito importante, pois vemos que a preocupação em pôr mulheres em posição de destaque. Caso você não tenha prestado atenção, nos créditos de abertura é o nome de Mireille Enos que vem primeiro, é a personagem Linden que aparece na abertura, no carro, andando e correndo. Sim, é uma mulher e, por isso, seja tão visível o descontentamento de quem assiste a segunda temporada o fato de terem feito de uma personagem FOD*, uma personagem ridicularizada.

Nota do Thunder Wave
Com uma total bagunça no roteiro, a série mantém o suspense até o último episódio da segunda temporada. Linden e Holder tem momentos instáveis, mas isso só prova o que já sabíamos, essa série não é sobre assassinato, o foco está nas relações interpessoais.

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