sábado, 19, junho, 2021
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Crítica | The Love Witch

Normalmente quando vemos um filme sobre bruxas, sempre as vemos retratadas como seres bizarros e horrendos que causam espanto até a nossa própria sombra. Com o tempo, algumas foram se destacando como Nicole Kidman (Da Magia à Sedução) por sua beleza estonteante. Além disso, algumas bruxas do cinema estavam dispostas a usar seus poderes em benefício próprio, inclusive para conquistar o coração dos homens. A diretora Anna Biller trouxe de volta o clã da bruxa bonita que enfeitiça os mortais na intenção de que eles caiam d amores aos seus pés com o longa The Love Witch. Com uma pegada retrô, essa obra poderia ser apenas uma ode a produções da filmes como Da Magia à Sedução, porém aqui temos uma crítica mais contundente e isso em relação ao feminismo e a masculinidade. O longa The Love Witch está disponível na plataforma de streaming Supo Mungam Plus.

The love witch conta a história de Elaine, interpretada por Samantha Robinson, uma misteriosa mulher que, após a morte do esposo em San Francisco, parte rumo a uma nova vida na Califórnia. Porém, rapidamente descobrimos que ela é uma bruxa e que o seu esposo morreu em circunstâncias misteriosas. Apesar dela sentir saudades de seu antigo amor, Elaine está decidida a encontrar o se príncipe encantado, como ela mesmo fala. Para conseguir essa meta, ela conta com poderes mágicos, além de uma aparência física belíssima. Um detalhe interessante: ela se assemelha muito com a Lana del Rey (tipo MUITO!).

Crítica | The Love Witch 1
Samantha Robinson é Elaine, a bruxa do amor / Reprodução

Vemos na personagem, uma estética nostálgica, notamos uma menina-mulher/bruxa que hora se apresenta como uma mulher frágil, carente por atenção, mas ao mesmo tempo sensual e disposta a fazer o impossivel para conseguir o que deseja. Percebemos que ela tem uma necessidade absurda de ter um homem a seu lado. Em uma cena super interessante, na qual a personagem está tomando um chá da tarde com a corretora de imóveis Trish, personagem de Laura Waddell, elas começam a falar sobre a idealização do homem perfeito e Elaine faz um discurso apaixonado sobre o homem dos seus sonhos, aquele pelo qual a mulher faria qualquer coisa para atender ao que ele espera dela. Porém, ela é surpreendida pelo questionamento de Trish, que se mostra uma mulher bem a frente de seu tempo: “E nós? O que fazemos por nós? Temos de fazer algo por nós.” Logo, percebemos que a personagem Trish é o contraponto à Elaine, pois além de ser casada com o homem dos sonhos, não precisou usar de artifícios mágicos para conseguir isso.

Ele me ama pelo o que sou. – Trish

Ao analisarmos a cena atentamente, percebemos que Elaine não aceita o fato de que o marido de Trish a ame sem todos os atributos físicos e psicológicos que podem fazer um homem se apaixonar por uma mulher. Logo, entendemos que a ideia de amor para Elaine é uma ideia invertida e isso dá espaço para que comportamentos abusivos aconteçam. Em The Love Witch, também vemos a ideia de representação da mulher perfeita, ou seja, o sentido de perfeição está ligada à satisfação daquilo que um homem espera de uma mulher: uma boa dona de casa, uma boa mãe, uma boa esposa amarrado ao combo, ela deve ser bela. É como se fosse um troféu para ser exibido na rua.

Se Elaine tem poderes mágicos, por que seus feitiços, apesar de bem-sucedidos, acabam se virando contra ela?

Porém, as poções do amor não dão certo e aqui vemos o grande sacada do longa. Ao enfeitiçar os homens com quem se relaciona, o objetivo até que é alcançado, mas a situação sai do controle. Os homens ficam doidos de verdade. E não são homens babacas, eles até tem uma construção bacana como o professor de literatura medieval que ao ser enfeitiçado não consegue dormir à noite. E ele chama por Elaine como se fosse uma criança dengosa e mimada, além de se contorcer e passar mal devido a ausência dela. No dia seguinte, ela o encontra morto. A consequência desse amor? Um ataque cardíaco, tomado pela emoção do sentimento por Elaine o faz morrer.

O segundo pretendente da obra é o esposo de Trish, que se mata por não conseguir lidar com seus sentimentos. Ele simplesmente não compreende o que se passa em seu coração e acaba se matando na banheira. E como mencionado anteriormente, ambos tinham carreiras legais. O primeiro, professor que no primeiro encontro com a bruxa, ele está conversando com uma aluna (sabe aqueles professores de humanas que muitas ficam caidinhas, pois o cara é lindo, inteligente e tem aquela vibe hipspter? é esse o estereotipo que vemos aqui) e quando ele janta com Elaine, ficamos curiosos, pois como alguém que é sensível ao ponto de lecionar literatura não consegue lidar com os próprios sentimentos?

Crítica | The Love Witch 2
Elaine e Trish em The Love Witch / Reprodução

E com isso entendemos que o fato dos homens terem morrido pelos fortes sentimentos que eles não conseguiam lidar e/ou entender, Anna Biller realiza uma crítica à masculinidade. Entendeu? Vou explicar, quem causa a mortes deles é ela. Veja bem, um homem é criado para ser macho alfa, o cão de guarda da mãe e da irmã, na ausência do pai. Ele é bruto e não pode ser sentimental, caso contrário é o veado, o marica e por aí vai. Desde que o mundo é mundo, nos deparamos com essa estrutura de masculinidade tóxica que não afeta apenas os homens, mas as mulheres também. Numa cena relembrada por Elaine em que o professor está chorando, ela critica o choro dele, o sentimentalismo aflorado pela poção que ele tomou. Muitas vezes, mulheres não gostam de “homens chorões” taxando os de fracos.

Elaine: Dar sexo a um homem é um jeito de liberar seu potencial amoroso.

Trish: Você soa como se tivesse sofrido lavagem cerebral pelo patriarcado.”

Na sociedade, vemos que a mulher é a que quer um relacionamento e, por isso, ela deve fazer de tudo para mantê-lo como ser uma bela esposa, dona do lar, boa mãe, dependente, mas não tanto e quanto aos homens, ele tem o dever de ser o conquistador e depois de satisfeito, foge. E são esses que fogem que dizem: “Existem mulheres ‘para casar’ e ‘para se divertir'”… o mesmo cara que se divertiu horrores com uma mulher que ele julga como uma ‘qualquer’, diz que existe mulher para casar… Ridículo! E vemos a representação desse pensamento machista em uma cena em que Elaine e Griff vão à um festival/casamento medieval e temos um vestígio dos pensamentos de ambos os personagens: enquanto Elaine sonha em se casar com Griff e ser amada por ele, ele só pensa o quanto é bela e no desejo que sente por ela, mas que deve sair correndo porque não quer se comprometer.

Podemos acreditar que o que os homens sentem pela bruxa, é uma maneira de rever sua masculinidade através dos sentimentos despertados por uma mulher, e isso é tão soa tão detestável que a morte é a única solução para esse martírio. Aqui vemos a o arquétipo de que as mulheres são super emotivas para indicar que os homens ainda não estão preparados para lidar com suas emoções. Na contramão, as mulheres da trama são fortes e sabem administrar os sentimentos, elas são racionais e fogem à regra de como as mulheres são retratadas no cinema, Elaine e Trish são diferentes e se destacam por essa caracterização da mulher forte.

Nota do Thunder Wave
The Love Witch traz uma forte critica presente no longa e vemos um excelente trabalho de fotografia, roteiro, direção e as atuações são impecáveis. O figurino e os cenários são de um esplendor magnifico. A trilha sonora é interessante, mas poderia ser mais ousada. Percebemos que a mensagem do longa que a diretora de Anna quer contar é simples: é a história pela ótica de uma mulher sujeita ao patriarcado, ao machismo.

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