domingo, 19, setembro, 2021

Crítica | Trópico Fantasma

Trópico Fantasma (Ghost Tropic) não é um filme com muitas falas, é uma produção que se constrói a partir da sensibilidade e do silêncio. A trama aborda a alegre e sensivel Khadija (Saadia Bentaïeb) que ao adormecer no metrô, depois trabalhar faxinando um centro comercial, ela se vê sem nenhuma alternativa para voltar para casa após descer na última estação. É um longa muito interessante que ao retratar a protagonista que cobre a cabeça semelhante a mulheres muçulmanas nos remete à uma religiosidade num primeiro momento. Mas a obra em si, não tem nada põe em xeque a religião ou a nacionalidade da mulher, é algo que deduzimos pelas vestes. É uma trama delicada e provocativa e ao mesmo tempo é contemplativo.

Pelas mãos de Bas Devos, Trópico Fantasma inicia com uma voz complacente, calma que fala sobre um lugar que aparenta ser um lugar de nosso conhecimento e que quando visto por outras pessoas, “intrusos”, eles veem de uma forma totalmente nova e isso dá o sentido de que a jornada, não só a da personagem, mas a nossa que embarcamos com ela nesse metrô, faremos uma jornada desconhecida. Talvez ela ter descido na última estação e se ver sem alternativas para voltar para casa, pois já é tarde da noite, passa a conhecer o que antes era desconhecido para ela… essa pode ser a premissa metafórica para embalar o longa.

A composição fotografica é curiosa, pois o tempo todo se mantém quadrada, como se o foco do enquadramento remetesse a algo horizontal. Sentimos uma atmosfera fantasiosa, incluindo como as pessoas se portam uma com as outras, por exemplo, o homem (paramédico, talvez) parado feito estatua, não se move e nem fala muito, presenciando ao lado da protagonista o resgate do morador de rua que se encontra fora do plano morrendo de frio. Algo interessante é que ela não parecer estar nesse transe, ela questiona, ela cativa os outros de uma certa forma.

Archived: Ghost Tropic - Film Fest Gent
Khadija consegue uma carona para conseguir chegar em casa / Reprodução

A trilha sonora combina bastante com o ritmo do longa que numa noite escura nos faz caminhar com a protagonista que se vê obrigada a pedir ajuda e a ajudar o próximo. Ela não assiste aos acontecimentos de forma passiva. O mais interessante é que tudo acontece na escuridão, no meio da madrugada. Enquanto nós achamos a noite um período do dia perigoso, para a nossa protagonista acaba não sendo e é nesse momento que a observação se torna mais efetiva e profunda.

No longa, é possível perceber personagens que habitam na escuridão e que normalmente são “invisíveis” e com o olhar da nossa protagonista e sua sensibilidade, são agentes ativos com quem a personagem interage. Trópico Fantasma não seria o mesmo filme sem a mulher de expressão afável e voz calma. É nos pés cansados de Khadija que podemos ver suas atitudes de coragem. O longa mostra uma mensagem politico social muito forte. Quem é que perceberia um morador de rua morrendo de frio numa noite escura, quando se está exausto e querendo muito ir para casa?

No decorrer da trama, percebamos que apesar de ser muito visual, sentimos que o longa transmite a sensação de alguém que nos conta algo, embora as conversas sejam poucas, o que é falado é totalmente explicado. Mas mesmo assim, como entender um título pouco explicito? O que significa esse “Ghost Tropic“? Talvez seja um sinônimo para os personagens ocultos que existem por ali e é nisso que se mostra a beleza do longa. A beleza está nas descobertas do desconhecido.

Crítica | Trópico Fantasma 1
Khadija tenta ajudar um morador de rua / Reprodução

É interessante ver que a preocupação que ela tem com os próximos, a própria filha não tem com ela. Enquanto ela se preocupa com o morador de rua morrendo de frio, com o cachorro dele que pode fugir ou morrer por n motivos, a filha dela está no meio da noite com amigos bebendo e flertando com um carinha qualquer. Posa para conferir sua beleza sob a luz noturna e a escondida é observada por sua mãe. Logo depois, Khadija volta para casa, mas sai novamente. Podemos compreender pelas cenas iniciais algo que a acompanha até o termino do filme. Percebemos que Khadija tem uma perspectiva muito singular sobre tudo, o shopping center no qual trabalha todos os dias tem uma conotação de esforço e trabalho enuanto para outras pessoas é um espaço para comer ou namorar, por exemplo. E todo cenário tem esse entendimento duplo, o que ela vê e o que os outros veem.

Ainda nessa pegada de percepção singular, vemos que tudo o que poderia ser feito para beneficio dela, não a ajuda de forma efetiva. O ônibus que vemos como uma possível alternativa para ela voltar para casa, não funciona. O caixa eletrônico também não. O mesmo acontece com a máquina de chá. É como se tivesse uma lacuna e nesses momentos ela recorre a bondade de estranhos. De forma intrínseca, o longa é provocativo, reflexivo e na sua personagem delicada e sensível, vemos um mundo que sabemos que existe mas que escolhemos desconhecer.

Nota do Thunder Wave
De forma intrínseca, o longa é provocativo, reflexivo e na sua personagem delicada e sensível, vemos um mundo que sabemos que existe mas que escolhemos desconhecer.

Artigos Relacionados

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por Favor insira seu nome aqui

Instagram

Bombando

Mais vistos da semana

Siga Nossas Redes

Tem conteúdo exclusivo por lá
6,914FãsCurtir
2,954SeguidoresSeguir
4,242SeguidoresSeguir

Recentes

Conteúdo fresquinho

Thunder Fic's

Tudo sobre roteiro
pt_BRPT_BR
Thunder Wave-Filmes, Séries, Quadrinhos, Livros e Games Thunder Wave