segunda-feira, 21, setembro, 2020
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Crítica | Um Lindo Dia na Vizinhança

Tom Hanks é um verdadeiro herói na pele de Fred Rogers

Estamos acostumados a ver livros, séries e até mesmo filmes que nos mostram como lidar com pessoas desagradáveis e momentos difíceis. Mas a nova produção da Sony Pictures consegue extrair o primor da bondade humana. Mister Rogers’ Neighborhood, um programa infantil criado por Fred Rogers na década de 1960 passa a ser o pano de fundo para Um Lindo Dia na Vizinhança.

O filme se passa em 1998, quando o jornalista investigativo Tom Junod, que na trama tem outro nome – Lloyd Vogel –, um tanto quanto arrogante e prepotente recebe a difícil tarefa que é entrevistar Fred Rogers para o perfil da Revista Esquire. A resistência a principio não funcionou… Foi uma transformação verdadeira de um homem traumatizado no passado e que conseguiu ser alguém melhor. A Beautiful Day in the Neighbourhood é um filme tocante, inspirador, simples e gostoso de assistir. Não é à toa que teve seu lançamento nos EUA na semana de Ação de Graças. É uma produção para ser assistida pela família. A doçura e a gentileza com a qual vemos Fred Rogers agir é impressionante. Não deveria ser, pois são princípios básicos que todo ser humano deveria ter.

O longa se inicia com um mundo em miniatura (lembramos da famosa Vila Sésamo) e com uma abertura muito prática e costumeira, muito conhecida pelo público norte-americano, Tom Hanks dá vida ao apresentador infantil nacionalmente conhecido, o mencionado Mr. Rogers, que começa contando uma história sobre um amigo entristecido e com feridas não cicatrizadas em seu cenário de costume, passando a impressão de que está realmente conversando com o público, pois a todo momento em que está interpretando, o ator mantém seus olhos diretamente nos telespectadores.

Com um sorriso farto de dentes, modos calmos e uma fala lenta que não se rende à rapidez que a televisão exige, Fred não precisava de desenhos animados, auditório ou de efeitos audiovisuais elaborados, pois reconhecia o ser complexo e pensante que uma criança pode ser, se dirigindo com sensibilidade e doçura, sem deixar de ser cordial. Não se tratava de um apresentador que gostava de sensacionalismo ou de melodrama.

Em uma das cenas, nos primeiros 20 minutos, logo quando Lloyd chega ao estúdio, presencia Fred conversando com um garotinho que deveria ter algum tipo de doença que exige o uso de cânula nasal e balão de oxigênio e a principio parece um menino difícil e estava com uma espada de brinquedo. A mãe o pergunta se ele quer abraçar o Sr. Rogers e ele balança a cabeça em negativo, quando Rogers se abaixa e diz algo para ele que o faz mudar de ideia, depois Fred tira uma foto do garotinho e de sua família para mostrar para sua esposa, Joanne.

“Ah, eu sabia que sempre que você vê um garotinho carregando algo assim, isso significa que ele quer mostrar às pessoas que ele é forte por fora. Eu só queria que ele soubesse que ele era forte por dentro também.” E foi o que eu disse a ele. Eu disse: ‘Você também é forte por dentro’ talvez fosse algo que ele precisasse ouvir. “

 

O longa tenta retratar a personalidade de Fred Rogers, mas não foca apenas nisso. Destaca a transformação de Lloyd Vogel que é um homem com feridas internas muito visíveis na construção de sua personalidade e que com o passar do tempo se esconde por trás de uma armadura que afeta não só sua vida pessoal como a sua vida profissional. Ele a todo o momento prioriza seu trabalho e deixa sua família de lado.

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Lloyd e Fred | Imagem: Sony Pictures

Lloyd acabou de ter um filho com Andrea e vivem um relacionamento meio complicado, dando a chance da trama de abordar o machismo e a igualdade de gênero sem precisar explicá-los, pois vemos que Andrea deixou o emprego para cuidar filho enquanto ele continua trabalhando. Esse é o tipo de roteiro e direção que muito bem conciliado transmite ao público um ar de simplicidade e que conversa com o espectador de igual para igual, sem rotulagem ou sem nos tratar como se fossemos ignorantes que precisamos entender uma moral.

Hanks assume a versão mais serena de Mr. Rogers que no esplendor de sua carreira, carisma, simpatia, simplicidade, doçura e gentileza, foram capaz de transformar a vida de todos que diretamente ou indiretamente estavam o seu redor com o legitimo carinho cristão ensinado na Bíblia. 

Cada aproximação entre Lloyd e Fred é uma nova demonstração de afeto. Uma simples conversa de igual para igual naquele almoço no restaurante em que eles pararam durante 1 minuto ou aquela cena em que Lloyd desmaia e se vê no castelo com Lady Aberlin e com o fantoche Daniel cantando uma canção ou até mesmo na visita em que Fred faz a Lloyd e sua família, depois da publicação do perfil, são situações inimagináveis que poderia acontecer e aconteceram. Lloyd é a encarnação da tristeza com olhar cabisbaixo e ombros abatidos que não consegue perdoar seu pai e com o passar do tempo ele consegue criar uma conexão e consegue entender quem é de fato Rogers. 

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O perfil escrito por Tom Junod ficou tão bom que foi a capa da edição de 1998 | Imagem: Reprodução

É claro que dentro de uma hora e quarenta e sete minutos não conseguimos ter noção de quem era Fred Rogers. Mas a bela atuação do protagonista, que tem vários papeis de sucesso no currículo, juntamente a inteiração com Matthew Rhys, entrega uma trama sem nenhum defeito. Hanks encarna com doçura e gentileza, que nos confunde, temos a impressão de que ele e seu personagem são a mesma pessoa, não somente pela aparência, mas o jeito. O preparo que Hanks teve foi essencial para a construção de sua persona. Rhys impressiona ao viver o verdadeiro Junod. Seu cuidado foi crucial para vivenciar o jornalista que por trás de toda amargura conseguiu extrair o melhor de seu entrevistado.

A junção do roteiro bem construído com a direção de Marielle Heller consegue transmitir quem foi de fato esse herói. A fotografia viva acompanha as emoções dos personagens, embalando os sentimentos mais tristes e até mesmo de amargura, a paleta de cores é fria e a iluminação fica mais azulada, entrando em conjunto com a conversa dos atores com o público, os recursos audiovisuais ajudam a história a ser contada e a partir daí transparecer os sentimentos e emoção ao espectador, tornando quase impossível sair da sala de cinema sem estar emocionado, transformado.

As canções são um atributo a parte. Não é um musical, mas cada canção se junta intimamente a cada cena e é tão importante quanto os outros elementos visuais, transformando o longa em um verdadeiro show de profissionalismo e trabalho conjunto de uma produção empenhada em entregar o melhor resultado. A construção visual artística é impecável. Sempre que é preciso retratar as casas, a cidade ou o trânsito, usa as cidades em miniatura, dando a impressão de que a história se passa dentro da cidade em miniatura, como se fosse a própria “Vila Sésamo” de Fred Rogers.

Não é a primeira vez que a vida de Rogers é mostrada em uma produção audiovisual, o documentário Won´t you be my neighbor?, de 2018, mostra com mais clareza e intensidade esse homem que fez parte de várias gerações na TV estadunidense. Em seus programas, Fred buscava incorporar temas difíceis dos quais a maioria das produções do gênero fugiria por pânico. Resumidamente, o apresentador era um exemplo de empatia.

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Fred Rogers abordando o tema da segregação racial nos EUA em um dos programas | Imagem: Reprodução

Um Lindo Dia na Vizinhança tem todos os atributos que compõem um bom filme. O longa, dirigido por Marielle Heller, tem um gostinho de quero mais, dando um sentimento de satisfação, dando ao espectador a chance de olhar com outros olhos a realidade a qual estamos inseridos. O perfil escrito por Junod foi sem dúvida um dos melhores trabalhos que ele já fez, mostrando o outro lado da moeda de uma maneira que apenas um jornalista consegue fazer.

Nota do Thunder Wave
Com direção e roteiro bem amarrados, Um Longo dia na Vizinhança é uma produção que consegue cativar do começo ao fim.

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