Alerta de gatilho!!!

Caro leitor, a seguir você lerá um review da adaptação do longa baseado no romance da escritora Jessica Knoll, lançado em 2015, Uma Garota de Muita Sorte. O filme recém lançado pela Netflix lida com dois temas delicados como a violência contra a mulher e ataques por arma de fogo. Peço, por gentileza, que não prossiga com a leitura e não veja o longa se sentir desconfortável com os temas citados anteriormente. Há cenas fortes na obra protagonizada por Mila Kunis. Certa de sua compreensão, boa leitura.

Cada história é única, seja ela contada no papel, no palco, nas telonas ou nas telinhas. Mas se tem algo que não muda é o impacto causado pelos fatos reais que inspiram tramas da ficção. Não é atoa que os serviços de streaming tem investido nesse nicho nos últimos anos como a recém lançada minissérie Dahmer – Monster: The Jeffrey Dahmer Story da Netflix.

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Embora, sejam tramas intrigantes pela crueldade de seus protagonistas, também temos o outro lado da moeda. O da vítima. Vivemos em uma sociedade que ainda condena a mulher simplesmente por ser mulher. E como camaleoas, tentamos nos adaptar e cavar o nosso próprio túnel para uma situação melhor. Talvez seja por isso que o longa protagonizado por Mila Kunis, seja tão emblemático, cruel, doloroso como um soco no estômago, mas necessário e por muitas razões.

Crítica | Uma garota de muita sorte 1
Mila Kunis e Finn Wittrock são Ani e Luke / Reprodução Netflix

Não é fácil para uma mulher dizer que foi vítima de um estupro, de um assédio, de um ato violento seja ele físico, psicológico, emocional e principalmente sexual. É uma realidade dura que vemos se repetir todos os dias. Seja em reportagens na TV ou por relatos de conhecidas na família, no colégio ou no trabalho. O abusador pode ser alguém conhecido, alguém que se diz uma pessoa do bem, mas alguém fora do nosso círculo social também.

Em Uma garota de muita sorte somos apresentados à personagem Ani FaNelli interpretada por Mila Kunis, uma nova-iorquina de língua afiada que parece ter tudo: uma posição cobiçada em uma revista conceituada, um guarda-roupa glamoroso e um noivo dos sonhos com quem se casará em poucas semanas. Por trás desse cenário, há algumas verdades que são desconhecidas e assombram a protagonista do longa.

Vemos que a personagem de Kunis vive de aparências. Logo nas cenas iniciais, percebemos que Ani tem distúrbios alimentares e no decorrer da trama vamos conhecendo melhor o passado e o presente de Ani que se esforçou muito para construir a vida invejável que leva. Um dos recursos utilizados, os flashbacks trazem importantes informações dos traumas sofridos pela jovem Ani, papel de Chiara Aurelia na adolescência, e da pior forma possível tomamos conhecimento de que ela é uma sobrevivente de um dos mais letais ataques a escolas nos EUA. 

“Eu não sei o que sou e que parte eu inventei. Às vezes eu me sinto como uma boneca de pano. Vire minha chave e eu lhe direi exatamente o que você quer ouvir.”

Ani.

O longa tem um roteiro bem didático o que facilita (até demais) a compreensão dos acontecimentos. Enquanto um ex-colega carrega as marcas do tiroteio no corpo e se torna um ativista da causa, ela prefere não comentar sobre o ataque e é considerada por alguns até suspeita de ser cúmplice dos atiradores. Porém, percebemos que o que traumatizou a jornalista não foi o ataque por arma de fogo e sim, uma violência sofrida por ela dias antes ao ataque. Ela foi vítima de um estupro coletivo em uma festa de colegas do colégio.

Crítica | Uma garota de muita sorte 2
Chiara Aurelia é Ani jovem / Reprodução Netflix

O filme não poupa o público das duras e cruéis cenas da violência sofrida pela jornalista. Devo destacar a performance e resiliência de Aurelia que soube como transmitir a dor e a aflição daquele momento em que ela é tratada como um brinquedo mesmo pedindo aos prantos para seus abusadores pararem. Infelizmente, os flashbacks vão ganhando mais importância do que a trama que é retratada em 2015.

Apesar do tema — violência sexual — ser o foco da trama e ser bem trabalhado, a questão foi mal aproveitada. Houve uma falta de sutileza para trazer as diversas camadas que esse trauma gerou na protagonista. Temos a cena em que ela aparenta ter distúrbios alimentares, ao modo como ela passou a se vestir, por exemplo. A Ani mais jovem usava roupas mais curtas, blusas que mostram os braços e que até evidenciavam um pouco de seu busto. Após o trauma e logo quando vemos a Ani mais velha, ela passa a usar cores mais sóbrias e apostar em tons como azul claro e branco.

Em outros momentos a Ani adulta faz bons comentários irônicos que cabem em determinadas cenas, mas não em todas. Aqui, a trama poderia se valer mais das ações e reações dela do que toda cena vir com um comentário ácido explicando, o público é inteligente o suficiente para entender o porque ela é assim, não precisa que ela explique tudo all time. Acabou sendo didático demais.

Uma Garota de Muita Sorte, sem sucesso, tenta costurar muitos arcos em seu desenvolvimento. Seria mais assertivo se o longa fosse mais enxuto, pois, são quase duas horas de filme e o que ela realmente quer transmitir está mais no final. A obra não é nem um pouco cansativa, pois, embora seja didática, esperamos ansiosos pelo desenrolar dos acontecimentos. Mas a linha de raciocínio poderia ter sido encurtada, ora bolas!?

Crítica | Uma garota de muita sorte 3
Mila Kunis desempenhou muito bem o seu papel / Reprodução Netflix

Já percebemos que Mila Kunis está espetacular em seu papel como uma mulher que vive de aparências na tentativa de esquecer aquilo que a machuca e é a partir de um casamento que ela deixará de ser a “bolsista”. Com um sobrenome novo não será reconhecida como a “sobrevivente” de um massacre e ao subir de cargo, será respeitada pelo status de poder que possuirá. A cereja do bolo está exatamente aqui, no que foi citado. Ela precisa exorcizar seus monstros para conseguir ser o que quer ser, senão, sucumbirá à própria farsa que criou. Nenhuma transformação perante o julgo da sociedade resiste aos traumas sofridos.

Vemos que a trama aborda a misoginia e os privilégios que alguns possuem mais que outros. Como o fato de homens brancos, ricos e héteros poderem fazer o que bem-quiserem que não serão repelidos por seus erros e falhas de caráter. A dupla responsável pelo tiroteio, Arthur e Ben, colegas desajustados de Ani, sofreram nas mãos dos abusadores da colega e nada aconteceu e quando ela conta o ocorrido para eles, uma revolta se instaura e logo o inimaginável ganha vida. Até o noivo dos sonhos é um repetidor de comentários misóginos durante o longa. Vide a cena do táxi. Todavia, abordando tudo de maneira superficial sem explorar suas entrelinhas.

O longa também nos deixa com uma pulga atrás da orelha quando se refere a personagem principal como “questionável”.  Logo no começo, em uma das cenas na escola, um dos professores interpretados por Scoot McNairy — mal aproveitado pelo texto e olha que esse personagem tinha muito a acrescentar, já que ele tentou ajudar Ani após a violência sexual e acabou sendo demitido —, ele elogia um trabalho analítico que a moça fez sobre o personagem Holden Caulfied de O Apanhador no Campo de Centeio. Esse personagem é tido como um narrador em quem não se pode confiar. Logo, percebemos que teremos acesso aos acontecimentos pela visão de Ani e não à verdade dos acontecimentos e acreditamos que ao adotar essa linha, temos a justificativa para algumas decisões questionáveis.

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Momento em que Ani recebe ajuda de um dos professores / Reprodução Netflix

Embora o longa tenha esses deslizes comentados, temos temas importantes para serem debatidos. Como o fácil acesso à armas, o bullying nas escolas e suas consequências desastrosas na vida das vítimas e as consequências dos abusos sofridos por mulheres. Apesar do tema acesso à armas ser super interessante e estar atualmente em debate tanto no Brasil quanto nos EUA, não será comentado aqui porque outro assunto foi levantado após aos abusos sofridos pela jovem Ani, toda mulher passa por isso e é importante retratar aqui. Nem sempre somos acreditadas quando mencionamos algo dessa natureza. Por isso, é tão difícil as vítimas denunciarem e muitos são os motivos. Vergonha, medo, culpa… uma infinidade de coisas passam pela cabeça de quem sofreu algum tipo de violência e quando precisam contar o que aconteceu são desacreditadas, é insinuado que a vítima tenha causado a própria desgraça, que ela que provocou o abusador com uma mini saia ou, porque bebeu demais, ou se ofereceu e outras justificativas que condenem a vítima e excluam a responsabilidade do abusador.



Nas cenas que se encaminham para o final, vemos que ao confrontar o seu passado e libertar seus monstros, ela consegue sair daquela angústia a qual ficou por tanto tempo confinada. É ressaltado a relevância da denúncia, mesmo que timidamente, mas foi um ponto abordado. Com viradas surpreendentes e uma pegada a la Uma Garota Exemplar, a trama consegue trabalhar uma história de reconstrução sob a pressão da sociedade e às margens de um trauma doloroso demais para ser carregado sozinho.

Junto com Mila Kunis, o elenco de Uma Garota de Muita Sorte conta com Finn Wittrock (American Horror Story), Connie Britton (The White Lotus), Jennifer Beals (Flashdance) e Justine Lupe (Succession).

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