sexta-feira, 24, setembro, 2021

Crítica | Vida de Cão

É interessante ver o paralelo que a diretora traça entre os animais retratados e os humanos

Num mundo onde a superficialidade reina, encontrar um olhar sincero e afeto é difícil. Encontrar alguém que nos aceita com todas nossas imperfeições é complicado. Achar alguém que queira ficar é quase como ganhar um prêmio na loteria. Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem… eu sempre me perguntei o porquê disso. Hoje eu sei. Com três gatos e quatro cachorros dos quais três são vira-latas e resgatados da rua, eu sei o porque dizem isso. Eles não te julgam, não te olham feio, não te cobram, não são mesquinhos e egoístas. Eles oferecem o que eles tem de mais bonito e sincero: o afeto. O documentário Vida de Cão de Elizabeth Lo nos mostra sem romantismo a dura realidade que muitos animais passam nas ruas e em paralelo, a vida humana na sarjeta.

O documentário estreou nesta sexta-feira (20), e foi filmado na Turquia, país que é proibido a captura de cães de rua e o sacrificá-los, entre 2017 e 2019. É uma produção muito bonita, pois ela não maquia a real situação de quem é morador de rua, seja uma pessoa ou um animal. As dificuldades para sobreviver mais um dia são as mesmas: o frio, a fome, a falta de um lugar adequado para ficar, os maus tratos, a falta de empatia do próximo, o preconceito, a tristeza de não pertencer a lugar nenhum e a esperança de melhores dias que podem não vir. 

Crítica: 'Vida de Cão' mostra a beleza dos vira-latas e a dureza das ruas
‘Vida de Cão’ enxerga de forma honesta os animais de rua e eles se veem assim também. Imagem: Synapse Distribution/Divulgação

Percebemos que os bichinhos de rua tem etiquetas em suas orelhas e alguns possuem nomes e são as histórias desses animais que vemos o longa desenvolver. O primeiro cachorro que aparece no longa é Zeytin, grande, caramelo e bonito, muitos passam a mão nele, elogiam a força dele, pois ele aparenta ser forte mesmo estando na rua e vemos que às vezes as pessoas o ajudam. Há quem tenha medo desses animais, pois não enxergam a doçura escondida dentro deles e não imaginam que eles sentem medo de serem agredidos por quem deveria cuidar deles.

A tristeza de não ter um lugar para ficar não se restringe apenas aos animais de rua. O longa de Elizabeth Lo captura também aqueles que vivem à margem da sociedade. Somos apresentados a um grupo de meninos que cuidam de Zeytin e outros cães. Os garotos são de origem síria e foram para a Turquia fugidos da guerra civil no país. Um deles menciona que está em Istambul há aproximadamente dois ou três anos, também sem um lugar para morar. Vemos que a situação deles é bem difícil e para esconder a fome, eles usam recorrem às drogas, cigarro e cola. Mas é deles que vemos um carinho pelos animais. O longa é bem real ao mostrar tudo que eles passam.

Crítica | Vida de Cão
É impossível não ficar pensando como estão hoje. Imagem: Synapse Distribution/Divulgação

Percebemos então que a diretora traça um paralelo entre os animais e as pessoas. Tanto os cães quanto os garotos buscam por abrigo, proteção e muitas vezes são ignorados e deixados de lado. Por exemplo, uma cena que é muito comum vermos, mas que não damos a mínima é quando um dos cachorros de rua se aproxima de um cachorro de coleira e capa de chuva. E nesse momento vemos que o cão está comendo ossos deixados pelo chão e isso nos remete aos moradores de rua que muitas vezes recorrem ao lixo para não padecerem de fome, pois nós humanos conseguimos ser egoístas com o próximo quando queremos. A partir daí, o título começa a fazer sentido e nessa ambiguidade de sentido, percebemos o olhar da diretora para o longa.

Sendo assim, a diretora torna os animais ainda mais humanos, pois conseguimos sentir empatia por eles e repensar a realidade de muitos animais que vivem em condições de total abandono. E o mais curioso é que ao final do longa nos questionamos como estão eles atualmente. É sempre interessante analisar obras como esta, pois nos lembra da humanidade que ainda pode existir dentro de nós. Com postura corajosa, eles seguem o seu caminho na luta pela sobrevivência.

A produção é bem produzida, conta com uma delicadeza capaz de emocionar a quem assiste. A trilha sonora e a fotografia estão lindíssimas e bem equilibradas de forma que um completa o outro. O documentário de Elizabeth Lo, produzido em parceria com Shane Boris, produtor de ‘Democracia em Vertigem’, está disponível para compra e aluguel nas seguintes plataformas: Claro Now, Vivo Play, Sky Play, Google Play e YouTube Filmes. ‘Vida de Cão’ é distribuído pela Synapse Distribution.

Nota do Thunder Wave
É sempre difícil analisar e criticar um documentário. Neste caso, mais complicado ainda, pois lida não apenas com pessoas, mas com animais também. É uma realidade dura e cruel e a partir de algumas cenas, entendemos o real motivo do título da obra. Ele começa a fazer sentido na nossa cabeça. Morar na rua não é fácil e não é qualquer um que consegue sobreviver para lutar por mais um dia. A fome, o frio, a falta de abrigo, proteção, a ignorância alheia... são alguns dos desafios não só para pessoas que vivem nas ruas, mas para animais também. É para se pensar...

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