Resenha: X-Men – Deus Ama, o Homem Mata

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“Suponha que o sangue deva escorrer. Não há uma espécie de sangue derramado quando é ferida a consciência?” Thoureau – A Desobediência Civil

Uma trama que fala sobre maníacos religiosos e seguidores fanáticos de ideologias perseguindo minorias por estas assumirem, a despeito de todos os perigos, sua verdadeira natureza. Um evento ocorrido ontem, que passou no telejornal? Não, trata-se do eixo central de uma das obras primas das HQ’s: X-Men – Deus ama, o homem mata, de Chris Claremont e Brent Anderson. Lançada originalmente em 1982, ganhou uma reedição de luxo pela Panini, lançada em setembro de 2014. O álbum é lançado com capa dura de detalhes metalizados e generosos extras que incluem uma indispensável leitura do ponto de vista dos autores da obra na época de seu lançamento e sua repercussão após, incluindo a mais conhecida delas: o roteiro serve como base para a trama de X-Men 2, de Bryan Singer, considerada por alguns como uma das melhores adaptações de HQ’s para o cinema.

Na abertura da resenha, usei uma das frases emblemáticas de uma obra que fala, resumindo toscamente, sobre a insatisfação do autor com a então existente escravidão americana e o uso de impostos civis na guerra contra o México. E é justamente o mesmo espírito que conduz Claremont no roteiro dessa obra. A trama fala sobre um pastor evangélico, William Stryker, que usa seu poder midiático para conduzir uma cruzada contra a minoria mutante, por acreditar que essa não está nos planos de Deus, sendo uma perversão diabólica para atormentar os homens de bem. (Se você está lembrando de basicamente todos os pastores maníacos homofóbicos e racistas que estão na política e na TV do Brasil, parabéns, você ainda está são.) Esta cruzada tem como seu principal opositor Charles Xavier e seus X-Men, na formação clássica estabelecida por Claremont que conta com Ciclope, Tempestade, Colossus, Wolverine, Noturno e Kitty Pride. De todas as maneiras racionais e diplomáticas, eles tentam despertar a compreensão da condição natural da evolução que é o gene mutante. Na guerra entre a minoria mutante por aceitação e a perseguição doentia dos fanáticos religiosos-ideológicos, as mortes são inevitáveis.

A atualidade da história, quando se presta atenção, é assustadora. Não apenas na figura do maníaco religioso, mas na maneira como as pessoas são facilmente manipuladas pela mídia e figuras políticas que usam seus recursos para apoiar suas próprias agendas, muitas vezes prejudicando pessoas das quais eles sequer notam a existência. Mais do que isso, as pessoas comuns, mesmo aquelas que não apoiam esse fanatismo, acabam ferindo os oprimidos com sua condescendência. Em uma das cenas mais fortes da história, Kitty Pride, após se sentir profundamente ofendida por palavras racistas na TV, é consolada por uma amiga negra que lhe diz: “são apenas palavras.” Sem titubear e consumida pela raiva, Kitty lhe responde: “e se tivessem te chamado de crioula? Você continuaria tão tolerante?” Em muitos momentos, os personagens parecem perdidos. Abusados física, mental e espiritualmente, mesmo os poderosos X-Men muitas vezes se veem em desespero, sem saber como agir. Tamanho o desespero que os leva até a uma aliança elusiva com seu maior adversário, Magneto.

Forte, contundente. Você deve se perguntar: esse texto foi realmente publicado em uma HQ em um EUA que ainda tentava assimilar os direitos civis dos negros nos anos 80 e que ainda luta para aceitar os direitos igualitários dos homossexuais em pleno século XXI? Chris Claremont explica, na ótima entrevista que vem como extra no álbum, que ele se aproveitou de um bom momento que os quadrinhos viviam na época com o surgimento do formato de graphic novel e com a enorme popularidade dos mutantes da qual ele próprio era o maior artífice. Assim, a história está fora da continuidade regular da HQ dos mutantes, dando maior liberdade para o autor de trabalhar temas tão delicados de forma tão direta. Os desenhos de Brent Anderson valorizam ainda mais a intensa carga emocional que permeia toda a trama, fazendo a tristeza dos mutantes oprimidos mais sensível e o ódio dos fanáticos opressores ainda mais palpável. Tão intenso que, apesar de não ter nenhuma cena de violência explícita ou pornografia, o álbum foi considerado “para adultos” na época do lançamento. A trama é perigosa, de fato. Especialmente para a mídia e uma sociedade conservadora, tamanha a força com que a história fala contra os opressores e os fanáticos, o que torna a contemporaneidade da obra difícil de ser ignorada. Não é um “produto do seu tempo”. É uma obra que fala sobre como pior do que a maldade, é a ignorância.

Justamente por isso, na trama, os maiores vencedores não são os mutantes nem os fanáticos. É o homem comum, que adquire esclarecimento e conhecimento sobre uma situação da qual só existiam preconceitos. Os vilões da trama são obrigados a enfrentar a crueldade da sua própria ideologia, os mutantes ainda se veem diante de um futuro elusivo. Pois, como nós bem sabemos na vida real, pode-se destruir pessoas, mas é muito difícil destruir ideias. E, tal qual também sabemos na vida real, ideias podem ferir e destruir, muitas vezes, mais do que qualquer arma. Claremont não é um fatalista, nem um niilista. Do seu ponto de vista, existe sim esperança de que um dia seres humanos e seus semelhantes irão viver em paz, mesmo que esta esteja distante. Essa esperança fica clara quando os X-Men e Xavier se recusam a se unir a Magneto na sua empreitada violenta contra os opressores homo sapiens sapiens.

Para nós, que ainda vivemos em um país tão preconceituoso como o Brasil, a leitura certamente provoca reflexões. Estamos fazendo o bastante para combater essas velhas, nocivas e ultrapassadas formas de pensar? Estamos fazendo o bastante para educar as novas gerações sobre temas como tolerância e aceitação das diferenças? Esse amargo resenhista acredita que não. Estamos muito longe de um futuro melhor e mais próximos do pior do nosso passado. Diante da maneira como as pessoas se comportam hoje, é assustadora a ignorância social e política dos cidadãos comuns. Se acha que eu estou exagerando, abra sua rede social e vamos conversar. A força das massas e da conexão global não servem para integrar as diferentes qualidades das pessoas, mas para homogeneizar e destruir aquilo e aqueles que são diferentes. Quantas pessoas no mundo realmente vivem em uma democracia? Deixo uma citação de Alexis de Tocqueville, filósofo do século XVIII, sobre os X-Men e o mundo atual:

“A democracia, quando usada como ferramenta por uma maioria para oprimir uma minoria, torna-se, inexoravelmente, uma tirania.”

Resumo
Nota do Thunder Wave
Escrito por:Raphael Topo

19 COMENTÁRIOS

  1. Eu gosto muito de X-Men, mas sói li umas três HQ's há muito tempo, nem lembro quando. Gosto mais dos filmes e desenhos. Uma trama que traz maníacos religiosos e seguidores fanáticos de ideologias deve ser lida todos os dias, pois é BEM atual…

  2. Vamos combinar que essa hq é bem atual né, retrata muito do que vemos hoje em dia. Outra coisa que temos a combinar é que já tô por aqui com o Stryker, ô homem que não sai do pé dos mutantes.
    Eu queria muito voltar a ler quadrinhos. Espero fazer isso em breve. Beijos <3

  3. Confesso que só vi o desenho da SBT e os filmes, nunca li nada e nem HQ dos X-Men, nunca fui muito fã desses tipos de quadrinhos, mas tento ter esse gosto, estou tentando!! Bom, adorei sua mega resenha e fiquei interessado na obra!

    Abraços e até!!

    lendoferozmente.blogspot.com.br

  4. Sempre gostei muito de X-men e eu tô louca por essa HQ. Acho que o conceito da história é muito bem definido e muito bem desenvolvido. Sempre vi muita diferença entre a HQ e os desenhos, filmes, mas nunca me importei, pois entendo as adtaptações. Gostei muito da sua resenha, inclusive me lembrei de comprar essa edição haha beijo!

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