O mexicano Guillermo del Toro já tem uma carreira bem estabelecida fazendo longas em que mostram a sua fascinação pelo gênero fantástico. O charme dos filmes do diretor vem da sua estética apurada e da sua imaginação sem limites, principalmente quando o assunto é o design dos seus monstros, que sempre chamam a atenção. Pois bem, desde O Labirinto do Fauno um filme de del Toro é tão bem falado quanto o seu novo trabalho, A Forma da Água que conquistou nada mais do que treze indicações ao Oscar e é um dos favoritos a ganhar os prêmios de Melhor Filme e Diretor. Mas o longa merece todos esses elogios? Alguns, sendo que mesmo o saldo sendo positivo, ele se mostra com muitos equívocos.

O longa se passa nos anos 50, no auge da Guerra Fria. A protagonista é Elisa (Sally Hawkins) uma muda que trabalha como faxineira em um laboratório do governo norte-americano. Solitária por conta da sua condição, Elisa se vê mais completa com a presença de duas pessoas: o seu vizinho, o artista Giles (Richard Jenkins) que lhe apresenta vários musicais da época; e a companheira de trabalho, Silvia (Octavia Spencer), cuja personalidade forte serve de inspiração para Elisa. Um dia, uma nova equipe chega ao laboratório, liderada pelo desprezível Strickland (Michael Shannon) que carrega uma estranha criatura, que parece uma mistura de homem com anfíbio (Doug Jones). Elisa vê na criatura a mesma solidão que a própria sentiu a vida inteira, enquanto ele vê na moça um humano que não sentiu medo ou repulsa ao vê-lo. E ambos descobrirão um amor muito forte.

A Forma da Água
A Forma da Água | Imagem: Fox Film do Brasil

Bom, a primeira coisa que a sinopse deixa claro: o longa é uma fabula. Por isso alguns personagens (como Strickland) se mostram caricatos e unidimensionais e o tom do filme se torna mais leve em alguns momentos, graças a competente trilha de Alexandre Desplat. Pena que o roteiro feito por del Toro e Vanessa Taylor se mostra o ponto mais inconstante dofilme. Por mais que o arco principal seja bem resolvido, o longa sofre de excesso de subtramas, que não fazem diferença alguma para a narrativa e acabam deixando o filme mais longo que deveria. Outro problema está nos diálogos, que às vezes são muito sutis e outras horrorosos, ao ponto de serem risíveis. E é incrível de como o filme é sutil algumas vezes e em outro ele não se contenta em ser apenas óbvio, como repete a mesma mensagem pelo menos três vezes para ver se o espectador a entendeu. Então se mostra o ponto mais frágil de A Forma da Água.

Já em termos de execução, ele se mostra muito competente por ser visualmente o filme mais lindo do diretor e isso não é pouco. A direção de arte é maravilhosa, não apenas pela recriação da época, mas por detalhes dos cenários como o laboratório que lembram muito os dos filmes de ficção cientifica da década de 50 ou até o visual da criatura que ao mesmo tempo se mostra assustadora, mas ao mesmo tempo fascinante, mesmo ele lembrando muito outra criatura que apareceu em outros filmes de del Toro: o Abe Sapien da franquia Hellboy, que também foi interpretado pelo mímico Doug Jones. Aliás, é bom ressaltar mais uma vez a equipe de maquiagem que trabalha com o diretor, que faz um trabalho incrível na criatura usando efeitos práticos, que nos permite ver o jeito que seus olhos piscam e os detalhes como as escamas no seu corpo, um trabalho incrível.  Outro fator que ajuda a ser esse espetáculo visual, é a linda fotografia de Dan Laustsen que além de criar movimentos sutis com a câmera, utiliza muito bem as sombras que deixam o longa sombrio quando precisa e a rica utilização das cores, principalmente do azul e do verde marinho que se mostram utilizados com inteligência (não a toa a maioria do elenco tem olhos claros) e o resultado final com a paleta de cores deixam A Forma da Água visualmente muito agradável.

A Forma da Água
A Forma da Água | Imagem: Fox Film do Brasil

As atuações se mostram as mais consistentes da carreira do diretor, que sempre soaram um pouco teatral demais em seus filmes anteriores. Sally Hawkins tem uma tarefa difícil: é uma protagonista muda, que está em quase todas as cenas do filme. Mas a sua composição para Elisa se mostra muito cuidadosa e carismática. Hawkins mostra ter uma excelente presença de tela, carisma e um olhar expressivo que faz com que o espectador sinta algum carinho com a sonhadora Elisa. Já o genial Michael Shannon faz um vilão, que segue todas as características do manual: machista, preconceituoso, violento, abusivo, impiedoso e cruel. Mas mesmo com isso (como dito, é uma fabula), Shannon faz com que Strickland seja ameaçador do começo ao fim. Alguns tiques dado pelo personagem faz com que tenhamos medo das suas ações, como a mania que ele tem de chupar bala e sempre que fica mais agressivo, ele mastiga a bala de uma maneira que soa ameaçadora. É uma performance magnífica, que deveria ter sido mais falada na temporada de prêmios. O ótimo Richard Jenkins faz muito bem o papel de uma pessoa tão solitária quanto Elisa, mas que se mostra mais amargurada com a realidade que a moça. Mas consegue passar uma generosidade de uma maneira crível em seu papel, mostrando o quanto Jenkins é um ator talentoso. Michael Sthulbarg também se mostra muito bem fazendo o personagem mais ambíguo do longa, que consegue mostrar com o olhar frieza, espanto e fascinação. Já Octavia Spencer faz de novo o mesmo papel: a submissa que mostra personalidade forte para responder quando necessário para os seus patrões. Não é um trabalho ruim, mas parece que Spencer entrou no type casting.

Em termos de direção, se mostra o melhor trabalho de del Toro. Além da maturidade das atuações e do visual, percebe o quanto o diretor está com maior controle da linguagem cinematográfica. Isso se mostra mais evidente nas cenas em que realmente mostra o amor de Elisa e da criatura, usando todos os elementos para criar de maneira lírica as sensações. O longa se mostra lindo nessas cenas, pela poesia mostrada em tela e pelo diretor saber trabalhar com o sentimento, além de ser muito bem filmado, com composições de quadro muito elegantes. Até as cenas gráficas de violência e sexo funcionam, para mostrar o terror da realidade contra a leveza do sonho. Pena que isso se perde em meio das obviedades que já foram faladas do roteiro, mas como direção vemos o melhor trabalho da carreira do diretor.

A Forma da Água
A Forma da Água | Imagem: Fox Film do Brasil

Enfim, A Forma da Água é um filme de vários méritos. É bem dirigido, tem ótimas atuações e é visualmente irrepreensível, mas infelizmente ele fica comprometido por conta de um roteiro que no fim é irregular. Não é uma obra prima como foi dito, mas longe de ser um filme ruim, mostra o talento de Guillermo del Toro e da coesão de sua obra.

Veja a ficha técnica e elenco completo de A Forma da Água

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