sexta-feira, 18, setembro, 2020
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Crítica: Guardiões da Galáxia Vol.2

É muito comum que estúdios obstinados a criar uma franquia cinematográfica milionária, depois de conseguirem fazer com que o primeiro filme se transformasse num sucesso de bilheteria, realizem uma sequência em que as características que tinham sido bem sucedidas na empreitada inicial sejam extrapoladas, como se uma dose maior de algo bom fosse necessariamente melhor. Há inúmeros exemplos que confirmam essa tendência mercadológica. Sendo assim, era de se esperar que encontrássemos algo parecido com Guardiões Da Galáxia vol. 2. No entanto, a minha surpresa foi grande ao constatar como James Gunn, o roteirista e diretor dos dois filmes, indo na contramão da expectativa comum, fez exatamente o oposto.

Por favor, peço que não me entendam mal, pois assim como no primeiro longa, a sequência está repleta de cenas de ação explosivas, momentos cômicos afiados e personagens coadjuvantes carismáticos, além de ter novamente um grupo de atores e dubladores principais em perfeita sintonia com os seus respectivos papéis. Porém, em vez de narrar uma trama ainda mais grandiosa, com efeitos digitais cada vez mais impressionantes, o diretor, ao contar uma história marcada pelo primeiro encontro do protagonista Peter Quill (Chris Pratt) com o seu pai biológico Ego (Kurt Russell), decidiu ir pelo caminho mais intimista, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer um pouco mais da vida interior dos personagens, em vez de entregar uma aventura escapista facilmente esquecível.

Guardiões da Galáxia Vol.2
Guardiões da Galáxia Vol.2 | Imagem: Marvel

Afinal, se há um tema que permeia Guardiões Da Galáxia vol. 2 – acima das situações aventureiras pelas quais os personagens passam, a contínua construção do universo Marvel e a obrigação de entregar um espetáculo visual e tecnológico -, é o da família. Na história, Peter Quil conhece pela primeira vez o seu genitor, ao mesmo tempo que a relação de pai e filho que mantém com o seu mentor Yondú (Michael Rooker) é fortalecida; Gamora (Zoe Saldana), entre idas e vindas, não consegue se afastar da irmã Nebula (Karen Gillan); e os Guardiões da Galáxia, como um todo, não deixam de formar também um núcleo familiar às avessas, com espaço até mesmo para a presença de um Groot bebê (voz de Vin Diesel).

Surpreendentemente, uma vez que esse tipo de coisa não é comumente vista em um filme dessa magnitude, as relação familiares não são trabalhadas superficialmente e sim com um nível de profundidade satisfatório. Ao longo da projeção, chama atenção o fato de que uma fatia considerável da história é usada para estabelecer os conflitos que separam alguns personagens de outros, deixando claro para o espectador a natureza das ligações familiares e emocionais que eles mantêm entre si. Aliás, Gunn acha tempo até mesmo para abordar novas interações (embora elas não sejam tão bem desenvolvidas quanto as outras), como a de Brax (Dave Bautista) com Mantis (Pom Klementieff) e a de Yondú com Stakar Ogord (Sylvester Stallone). Esse tipo de preocupação temática não é fácil de ser encontrada em um blockbuster da indústria hollywoodiana.

No entanto, como as pessoas não vão assistir a Guardiões Da Galáxia vol. 2 esperando por um drama comovente sobre problemas familiares – considerando isso apenas como um bônus -, mas sim uma mistura eficiente de aventura com comédia, James Gunn, transitando seguramente por um universo criativo com o qual está completamente familiarizado, é hábil ao dosar os instantes intimistas com as cenas de ação e os momentos cômicos. Inclusive, como estes dois últimos foram os responsáveis pelo sucesso arrebatador do primeiro filme, esta sequência  corria o risco de repetir à exaustão o que tinha dado certo anteriormente, numa tentativa fracassada de reprisar aquilo que já havia sido visto, nunca expandindo-o na medida certa.

Guardiões da Galáxia Vol.2
Guardiões da Galáxia Vol.2 Baby Groot | Imagem: Marvel

Para a felicidade dos fãs e do público em geral, os realizadores, cientes do material que tinham em mãos, além de não repetir as mesmas cenas de ação e piadas, melhoram os aspectos visuais e apresentam novas e inspiradas gags, superando até mesmo o primeiro filme nesses quesitos. No que diz respeito ao primeiro desses elementos – as cenas de ação – , elas possuem uma lógica e um caráter próprios, se afastando corretamente das influências de Star Wars. Já visualmente, a substituição de Ben Davis por Henry Braham na função de diretor de fotografia resultou numa obra mais colorida e saturada (embora haja um forte trabalho de color grading), e, portanto, mais condizente com o universo fantasioso dos Guardiões da Galáxia.

Com relação aos instantes de comédia, eles soam frescos e originais. Contendo logo no início uma cena magistral em que o Baby Groot dança em primeiro plano enquanto os outros heróis lutam com uma criatura ao fundo, o filme, ao longo de sua narrativa, presenteia o público com outros momentos de pura genialidade, como a referência inteligentíssima aos personagens cartunescos de Chuck Jones (os da Looney Tunes, principalmente) num instante envolvendo o Rocket Racoon (Bradley Cooper) e Yondú entrando em portais espaciais, e a homenagem aos anos 1980 numa cena em que há a presença do Pac Man, o que resulta num momento brilhante (o melhor do filme).

É claro que o longa não consegue escapar de alguns clichés típicos do gênero dos super-heróis, nem evitar a previsibilidade de alguns desdobramentos da trama. O espectador não terá dificuldades em lembrar de outros filmes que usaram o recurso comumente empregado no terceiro ato e que consiste em criar um suspense acerca do destino final do protagonista (se lembrarmos que já saíram notícias sobre a participação de Peter Quill nos filmes dos Vingadores, isso se torna ainda mais descartável) ou imaginar que os motivos de Ego são mais obscuros do que a primeira impressão sugere. Além disso, apesar de embalar o filme satisfatoriamente, a trilha sonora não tem a mesma força da anterior (por exemplo, não há uma canção memorável como “Hooked On A Feeling”).

Mas, frente aos vários méritos presentes nesta sequência, esses problemas empalidecem. Se consolidando como a franquia da Marvel mais bem sucedida do ponto de vista artístico, Guardiões Da Galáxia tem tudo para perdurar mesmo depois que a onda dos filmes de super-heróis perderem o seu fôlego, se tornando um dos filmes icônes da atual geração. Agora, só nos resta torcer para que James Gunn encontre maneiras de se reinventar mais uma vez e feche a trilogia com chave de ouro – o terceiro capítulo já foi confirmado.

Obs: Não esqueçam que há cinco cenas adicionais durante os créditos finais.

Veja a ficha técnica e elenco completo de Guardiões da Galáxia Vol.2 

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Nota do Thunder Wave
A obra impressiona pelo enrendo mais profundo, sem perder o tom agradável do primeiro.

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