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Crítica: Homem Aranha- De Volta Ao Lar

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Quando Homem-Aranha estreou, em 2002, os filmes de super-heróis ainda davam os primeiros passos em Hollywood. Seria apenas nos anos seguintes que o mundo testemunharia uma consagração do gênero e o estabelecimento da Marvel como um dos estúdios mais bem sucedidos da indústria cinematográfica norte-americana. Nessa jornada de sucesso, o aracnídeo teve duas versões: a original, dirigida por Sam Raimi, e a seguinte, comandada por Marc Webb. No entanto, o personagem nunca esteve nas mãos daqueles que melhor o conheciam. Isso foi parcialmente resolvido no longa Capitão América: Guerra Civil, quando o público pôde, rapidamente, vê-lo ao lado de outros heróis da “Casa das ideias”, mas, somente agora é plenamente solucionado com o lançamento do ótimo Homem-Aranha: De Volta Ao Lar.

Escrito por seis pessoas (!), o roteiro começa mostrando o personagem Adrian Toomes (Michael Keaton). Logo após os eventos vistos no terceiro ato de Os Vingadores, ele está chefiando uma equipe responsável por reciclar o material encontrado nos receptáculos alienígenas. Porém, ao ser impedido de continuar trabalhando, ele se apropria de algumas peças e se torna um traficante de armas no mercado negro. Depois disso, há um salto de oito anos, e o espectador passa a acompanhar o dia a dia de Peter Parker (Tom Holland), que varia entre o desejo de se tornar um Vingador, as obrigações escolares, os problemas da adolescência e a função de super-herói que exerce na sua vizinhança.

Abutre em Homem Aranha: De Volta Ao Lar | Imagem: Sony

O leitor mais atento deve ter percebido que, no parágrafo acima, não era essencial que a história do personagem interpretado por Keaton fosse descrita, mas fiz questão de mencioná-la pelo seguinte motivo: nela e na rima que mantém com o desenvolvimento de Peter Parker, residem alguns dos maiores méritos do longa. Diferentemente de tantos outros vilões, Toomes/Abutre não é um megalomaníaco cujo principal desejo é dominar o Mundo ou um sujeito que se tornou maligno apenas pela existência de um super herói (a própria ideia de começar o filme com ele e não o Homem-Aranha já é um indicativo disso). No fundo, ele nada mais é além de um sujeito que decidiu reagir ao fato de ser constantemente prejudicado por aqueles que estão socialmente acima. Infelizmente, optou pelo caminho das ações ilícitas. E é somente por essa opção que a sua jornada não é idêntica à de seu antagonista.

Pois, apesar de também estar reagindo à falta de atenção dos seus superiores (Tony Stark e os outros heróis), Peter Parker se distancia dos caminhos trôpegos de Toomes ao escolher as ações virtuosas. E o fato dos dois serem diferentes lados da mesma moeda é importante para ressaltar tanto algumas das irresponsabilidades cometidas por Parker, quanto a verdade que existe em partes dos discursos proferidos por Toomes. O primeiro deseja se tornar um herói, mas comete irregularidades no meio do caminho; e o segundo quer ser uma pessoa importante, mas viabiliza esse sonho através da criminalidade. No final das contas, são duas pessoas normais tendo de viver num mundo onde a existência de super heróis interfere diariamente em suas vidas.

Nessa dualidade conflitante entre vidas normais e a presença de seres super poderosos é  que Homem-Aranha: De Volta Ao Lar encontra o seu tom. Em essência, o longa é um típico filme de adolescente dos anos 1980 (existe até uma referência a Curtindo a Vida Adoidado). Há de tudo: o bullying, a rejeição, os amigos nerds, a queda pela garota popular – a gentil e simpática Liz (Laura Harrier) – , a família (com o personagem interpretado por Robert Downey Jr. sendo, claramente, a figura paterna na vida de Peter) e, claro, muita comédia (aliás, é impressionante ver como, em sua grande maioria, as piadas, embora usadas excessivamente, são totalmente eficientes). Juntamente com a direção leve de Jon Watt (embora, visualmente, o filme seja genérico) e a montagem bem ritmada de Debbie Berman e Dan Lebbental (em certo momento, para indicar a ansiedade de Peter em ir embora da escola, os dois montadores constroem, a partir de um relógio, uma série brilhante de elipses), a atmosfera do filme gera uma prazerosa sensação de nostalgia.

Homem Aranha: De Volta Ao Lar | Imagem: Sony

Entretanto, não dá para dizer que a produção é apenas uma obra sobre adolescentes, afinal de contas, estamos falando de uma história de super herói. Portanto, é perfeitamente natural que existam elementos comumente vistos em produções dessa natureza: cenas de ação e muitos efeitos especiais. Mas, estranhamente, não só por serem problemáticos (as sequências mais explosivas são pobremente decupadas e o Homem-Aranha continua parecendo leve como uma folha), esses dois elementos são os pontos fracos do longa. Realmente, é na trama “ordinária”, com leves toques mágicos, que as coisas se resolvem melhor. A cena mais marcante do filme é um claro exemplo disso. Depois de um plot twist que pode desagradar algumas pessoas, há um momento que, protagonizado por Peter e um outro personagem, é memorável justamente por elevar à enésima potência – em razão dos superpoderes do primeiro – uma situação tipicamente vista em filmes que versam sobre essa fase da vida.

Homem Aranha: De Volta Ao Lar | Imagem: Sony

Sendo capitaneado por boas atuações do carismático e talentoso elenco e contendo algumas experimentações divertidíssimas (o crédito inicial “A Film by Peter Parker” e os vídeos amadores usados no começo da narrativa são ótimas ideias), Homem-Aranha: De Volta Ao Lar é uma das melhores incursões do teioso na Sétima Arte. Não tem a marca autoral dos três primeiros filmes dirigidos por Sam Raimi (a condução de Watts é competente, porém, não tem personalidade alguma), mas, em contrapartida, é infinitamente superior aos dois longas de Marc Webb. Além disso, entrega algo que os fãs do personagem esperavam há tanto tempo: um Peter Parker adolescente. Não há como eles pedirem mais do que isso.

Veja a ficha técnica e elenco completo de Homem Aranha: De Volta Ao Lar

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