A temática do encolhimento é uma velha conhecida da ficção científica, e também do cinema. As gerações mais velhas assistiram Viagem Fantástica, a geração deste colunista viu os altos e baixos da série Querida, Encolhi as Crianças, e todos nos divertimos à beça. Agora, esta nova geração poderá se divertir horrores com o novo lançamento da Marvel nos cinemas, o Homem-Formiga (Ant-Man).

Encerrando a fase 2 da empresa no cinema, a Marvel decidiu deixar o filme para depois de Vingadores 2, e para muitos isso pareceu um alerta amarelo: afinal, porque deixar para apresentar um novo personagem depois do grande filme-evento? Ou então porque não apresentá-lo durante o filme-evento, como foi feito com a Feiticeira Escarlate e o Mercúrio? Somado a isso os problemas durante a produção, a troca diretores, e o longo tempo de filmagem, tudo indicava o primeiro grande fracasso anunciado da Marvel.

Não foi dessa vez.

Homem-Formiga é divertidíssimo. O filme equilibra muito bem características de um bom blockbuster de verão: comédia, aventura, ação. Diversão garantida para toda a família, no melhor padrão Disney, aqui escorada em todo o escopo criativo que os personagens Marvel permitem. Não que o filme seja inovador de qualquer forma, muito pelo contrário; a mão pesada da Marvel está novamente bastante evidente, fazendo com que o filme esteja rigorosamente dentro do seu padrão criativo e estético. Em termos de estrutura e roteiro, você não vai encontrar nada diferente do que já viu até aqui nos outros filmes da empresa. O que também explica as constantes brigas do primeiro diretor, Edgar Wright, com a Marvel, visto que ele é conhecido justamente por colocar nos seus filmes suas marcas bastante autorais. Mas mesmo que não tenha levado o filme até o fim, o envolvimento de Wright é visível e bastante benéfico: é evidente que os melhores momentos de alívio cômico do filme, representados principalmente pelo personagem Luis (Michael Peña), são a influência do primeiro diretor. Não são apenas gags jogadas no meio do filme. São uma exploração sutil e dinâmica de um personagem secundário no filme, dando relevância a ele, sem perder tempo de tela. Brilhante.

Na trama, dirigida pelo substituto de Wright, Peyton Reed, Hank Pym, eximiamente encarnado por Michael Douglas, e sua filha, Hope Van Dyne, a bela Evangeline Lily, correm contra o tempo para impedir que um transtornado e ganancioso ex-pupilo de Pym, Darren Cross, interpretado solidamente por Corey Stoll, use a tecnologia de encolhimento descoberta por Pym em aplicações militares para quem quer que pague por elas. Para se infiltrar na empresa de Cross e roubar a tecnologia, Pym recruta o ex-presidiário em busca de redenção Scott Lang, vivido por Paul Rudd, especialista em invasões e furtos na surdina.

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Evangeline Lily em Homem- Formiga | Imagem: Marvel Studios

Para os fãs das obras da empresa, como sempre, a Marvel faz um festival de referências e pequenas brincadeiras que deixam todos sorrindo feito crianças. O filme já começa trazendo participações muito bacanas do universo cinematográfico nos primeiros 5 minutos, e não para por aí. É um desfile que inclui até mesmo a participação dos Vingadores. Aliás, neste filme, a presença do grupo de heróis é mais palpável do que nunca. Embora não apareçam reunidos em tela, as menções constantes a existência deles e a maneira objetiva com que ela é tratada nos faz entender que eles são parte indistinta desse mundo. Falando na presença deles, não saia da cadeira antes do fim dos créditos. O filme segue o padrão recente da Marvel, possuindo duas cenas pós-créditos, ambas muito legais e muito relevantes.

Já os fãs dos quadrinhos notarão aqui, com exceção do protagonista Scott Lang, uma reinterpretação de todos os personagens principais. Tudo o que envolve a família Pym nos quadrinhos é extremamente traumático e até um tanto perturbador, inclusos até casos de violência doméstica. A Disney tinha que aliviar para o cinema. Titular do uniforme nas HQ’s, aqui Hank Pym é representado como ex-usuário do uniforme, já com alguma idade, e, apesar da personalidade extremamente forte, está longe do personagem problemático que é nos quadrinhos. É um cientista consciente do perigo que sua descoberta oferece, e irá até o fim para impedir que caia nas mãos erradas. Já de Hope van Dyne, filha de Pym, só resta o nome. Nos quadrinhos uma vilã, aqui é transformada na principal aliada de seu pai, apesar do relacionamento disfuncional de ambos. Ela também mantém o nome de sua mãe, o que é uma referência muito interessante visto que Janet van Dyne é a Vespa, heroína e membro-fundador dos Vingadores nos quadrinhos. Já o vilão, Darren Cross, também é reinterpretado. Nos quadrinhos, é um vilão B de Scott Lang, sem muita relevância, que aqui é alçado ao posto de ameaça principal, com muita consistência e qualidade. Lembra muito o Monge de Ferro de Jeff Bridges no primeiro Homem de Ferro. Ele veste a roupa Jaqueta Amarela, que possui os mesmos poderes do Homem-Formiga, mas com algumas adições agressivas. Nas HQ’s, Jaqueta Amarela é um dos uniformes usados por Pym, em uma das suas fases mais desequilibradas.

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Jaqueta Amarela | Imagem: Marvel Studios

O destaque fica para o Scott Lang de Paul Rudd, em um desempenho excepcional de um ator de quem se esperava pouco. Seu personagem é o mais próximo do original nas HQ’s, e é dele a responsabilidade de carregar as características marcantes do filme: boa ação, uma aventura comovente sem ser piegas, e a especialidade do ator, a comédia. Apesar de todos os percalços do filme, é muito interessante ver como o personagem mantém o seu viés cômico sem se perder nele.

Ação essa sustentada por efeitos especiais magníficos. A escala diminuta dos eventos é representada de maneira épica, mas não pedante, além de extremamente criativa. A cena da diminuição subatômica é um espetáculo à parte. A representação da perspectiva diminuída do herói é feita com perfeição, baseada em detalhes que fazem toda a diferença, como as câmeras vertiginosas e a poeira gigante no ar quando ele está minúsculo em ambientes sujos. Os pontos altos do filme estão justamente nos combates do pequeno contra pessoas em tamanho natural. As chances de ser algo ridículo eram grandes, mas as lutas são tão divertidas, dinâmicas e bem-feitas que isso é deixado de lado tão logo o herói começa a ser posto à prova.

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Homem- Formiga | Imagem: Marvel Studios

Esse talvez seja o grande trunfo de Homem-Formiga. A própria proposta do filme parece ridícula, e o herói parece sem sentido diante da escala épica de outros personagens, como Thor, por exemplo. Mas o filme abraça o ridículo e transforma o tosco no inesperado, o pequeno no grande. É inevitável refletir sobre o que esse herói nos oferece como perspectiva: enquanto todos os outros filmes de herói apostam na escala colossal dos seus eventos e da sua destruição, no aumento das suas fileiras, no embate épico entre lendas, o Homem-Formiga é aquele que, diminuindo, mostra o seu valor. Enquanto alguns heróis devastam cidades em combates titânicos, o Homem-Formiga devasta pequenos ferroramas. E é tão divertido e emocionante quanto.

Portanto, o Homem-Formiga, embora não ofereça nenhuma ideia nova em termos de estrutura de filmes de heróis, ao menos nos oferece uma perspectiva diferente sobre eles. Uma menor. Grande não significa bom, e pequeno não significa desprezível.

Com pequenos heróis vêm grandes filmes.

Resumo
Nota do Thunder Wave
Escrito por:Raphael Topo

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