quinta-feira, 6, agosto, 2020
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Mulheres na pandemia: uma cicatriz que o band-aid não cobre

Houve alta nas taxas de casos de violência contra mulheres e a aprovação de um projeto que libera auxílio emergencial para as vítimas, poderá ajuda-las a sair dessa situação

Estamos a mais de 100 dias em confinamento. E todo esse tempo em isolamento social tem nos proporcionado momentos e situações que talvez no nosso “normal” não seria possível. As fotos de academia dão lugar as fotos de pães caseiros, muitas pessoas ganharam mais tempo para dormir um pouco mais devido ao home office, leem mais romances, enfim, ganhamos mais tempo. Porém, o que não muda é a violência doméstica. De acordo com o relatório da ONU, “Violência contra as mulheres e meninas é pandemia invisível”, destaca que a subnotificação já era um desafio sem pandemia e que menos de 40% das mulheres vítimas de violência buscavam qualquer tipo de ajuda ou denunciavam o crime. Menos de 10% das mulheres que procuravam ajuda, iam à polícia. E atualmente, com esse novo cenário é mais complicado, pois muitas vítimas estão em isolamento com o agressor. Apesar disso, algumas medidas já criadas, outras sendo aprovadas, o debate por meio de produções audiovisuais, a discussão que vem sido fomentada pelas redes sociais, pode abrir um caminho para que mais mulheres consigam denunciar e viver livre de agressões e da violência.

O isolamento está promovendo estresse e muita preocupação em relação a saúde, dinheiro e ao futuro. E à medida que os países relatam o crescimento de mais contaminação pelo coronavírus, menos se tem dados de denúncia de violência doméstica e mais aumentam os casos de agressão. Muitas medidas como a “Campanha Sinal Vermelho”, o disque denúncia 180 e um recente projeto que libera auxilio emergencial de até R$ 1.200 para vítimas de violência doméstica tem o proposito de ajudar as vítimas a denunciarem. Mas não é fácil.

Os sentimentos que dificultam a denúncia

“A vergonha não é uma fantasia individual da mulher. Ela se concretiza nas relações. São muito comuns os casos em que as mulheres denunciam seus agressores e eles são acolhidos e a mulher não.” – Melissa de Oliveira

O medo, a culpa, a insegurança, a vergonha, a dependência financeira são fatores que dificultam o pedido de ajuda. Segundo a psicóloga, mestre em saúde publica e professora do IBMR, Melissa de Oliveira, é importante que sempre pontue nesse sentido que a vergonha, o medo, a dependência nunca são apenas sentimentos, eles correspondem à realidade da vítima. Uma mulher de classe média, independente financeiramente, intelectualizada, talvez denunciar envolva não só a vergonha, mas também processos que já são muito difíceis. E pior no caso de uma mulher que não tem uma renda garantida, que vive no meio rural, por exemplo, ou que vive numa realidade em que o casamento é algo muito central, essa mulher poderá ser abandonada socialmente e por seus familiares mais próximos, fazendo com que a vítima sinta culpa.

O fato de ter um projeto que ajude a vítima de forma financeira é muito significativo. O então projeto relatado pela deputada Natália Bonavides (PT-RN), mostra a importância de termos mulheres que sejam representantes nas áreas politicas da sociedade. Afinal de contas, para garantir direitos iguais nos sentidos jurídicos, assistenciais e até mesmo democráticos de políticas públicas que atenda a ambos os sexos, se faz necessário ter governantes homens e mulheres, promovendo assim igualdade social.

“A gente costuma achar que o agressor é um cara mal, é aquele monstro. É importante desconstruir essa ideia de ‘monstro’, pois o que ele faz pode ser uma monstruosidade, mas ele, não. Ele é o nosso ‘vizinho bacana’, o nosso ‘tio gente fina’, um ‘bom pai’, um ‘marido apaixonado’. E talvez por isso seja difícil identificar o agressor.” – Melissa de Oliveira

O audiovisual ajuda ou atrapalha?

Além das medidas, algo que pode ser uma ferramenta de apoio para incentivar vítimas de agressão é o audiovisual. Produções como a série Coisa Mais Linda e o longa 365 DNI, ambas produções da Netflix tem gerado muitos debates. Na série, vemos mulheres que vivem num Brasil da década de 60, onde as mulheres tinham uma realidade totalmente diferente da nossa realidade, mas não muito longe. As protagonistas são fortes e que ao longo da trama se desenvolvem. A personagem Lígia, interpretada pela Fernanda Vasconcelos, tem um final trágico na primeira temporada. Ela foi morta pelo marido que passou a agredi-la de diversas maneiras devido ao seu ciúme e a sua possessividade. Fato é que, o agressor nem sempre é um “monstro” e muitas vezes a vítima pode até amá-lo e isso faz com que a própria mulher se veja num conflito “a imagem do agressor x a atitude do agressor”. Como um vizinho que é visto por todos como um cara legal, gentil, pode violentar uma mulher, uma menina? Essa mulher também vê nesse homem que a desmoraliza, que a agride, mas também que é um grande companheiro, que a ajuda, enfim é importante que as vítimas e a sociedade no geral entendam as contradições presentes na violência. Precisamos parar de tratar os agressores como “monstros” e avaliar as complexidades que eles carregam, pois a violência é estrutural, é responsabilidade do homem que agride e estrutural da sociedade.

Outras passagens muito importantes são as falas machistas proferidas pela mãe do marido de Lígia. Segundo a doutora em Comunicação, especialista em Práticas de Consumo e professora do IBMR, Beatriz Beraldo, a cultura machista não é de exclusividade masculina. A cultura machista é perpetuada e disseminada pelos homens, porém, contamina também a sociedade como um todo, ou seja, é difícil uma mulher ou um homem ser imune a esse comportamento. Ainda segundo a Beraldo, as produções audiovisuais tem sido repensadas e introduzindo mulheres como protagonistas, desfazendo o estereotipo de mocinha frágil, donzela indefesa ou até mesmo de escada para os personagens masculinos.

Mesmo assim, existem produções que desmerecem a luta contra a violência a mulher. O longa 365 DNI aborda o sequestro de uma mulher que é obrigada a permanecer com seu sequestrador num período de um ano. No decorrer da trama, ela se “apaixona” por seu sequestrador. O que no filme é mostrado como amor, entretanto, é apontado por especialistas como um claro retrato da Síndrome de Estocolmo. Essa relação romantizada somado ao fato do protagonista ser um homem bonito, anula todo os problemas do filme. Não é normal uma mulher ser empurrada, puxada pelo braço, abusada… e esse longa foi visto apenas como uma “ficção” por muitas internautas. O único debate promovido a respeito desse filme, é a comparação entre ele e a franquia 50 Tons de Cinza.

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Comentário retirado do post do perfil @Iclaqueteoficial no Instagram. Nesse perfil que faz postagens sobre assuntos do entretenimento, mostra o quanto o filme possibilitou o debate e visões diferentes acerca da produção.

Os danos causados pela violência doméstica

Infelizmente, vivemos numa sociedade machista e de modos e costumes muito patriarcais que imprimem na mulher a culpa pela agressão. E além de marcar a mulher, a situação é pior quando envolve crianças e adolescentes. Nem sempre a criança consegue denunciar. Como devemos falar com ela sobre isso? Será que devemos falar com elas sobre isso? Sim, precisamos falar sobre violência, sobre as consequências disso na vida de quem presencia e sofre com isso. Os danos causados aos menores de idade é uma pauta pouco discutida e que tem grande importância nesse cenário. Pessoas que vivem situações de violência, crianças que testemunham ou são violentadas, têm a possibilidade de reviver situações de violência não só no presente, mas no futuro, podem desenvolver traumas, problemas psicológicos e muitos outros comportamentos decorrentes dessas situações. O fato de naturalizar a violência é algo muito prejudicial, pois a criança ou o adolescente passará a ter relações futuras baseada na violência sofrida anteriormente. Por isso é importante que as famílias, a escola, a sociedade em si, fale sobre isso com as crianças e com os adolescentes de forma que a linguagem seja acessível e cuidadosa, além de ser aberta. É interessante explicar para a criança que ela não pode ser tocada em certas partes do corpo, como nos órgãos genitais.

Como podemos resolver?

Medidas apenas não bastam. Ajuda financeira é bom para quem está nessa situação, mas não é só isso. O emocional é um fator decisivo nessa questão. Já é difícil denunciar sem uma crise sanitária na qual estamos vivendo, imagine numa pandemia onde a vítima e o agressor estão em contato constante, muitas vezes sem possibilidades que a ajude a denunciar, ou as contradições que ela se encontra. Precisamos do envolvimento de todos. De acordo com a Beatriz Beraldo, é importante denunciar, é importante se mostrar solidário a vítima, é importante ver essas pautas circulando e elas precisam estar nas agendas pública, política e principalmente na mídia, para promover de fato alguma mudança nos cidadãos e na sociedade, pois a violência é estrutural e mais do que isso, é preciso apoio. É necessário um acompanhamento não só com a vítima, mas também com o agressor. Muitas vezes o agressor é alguém que viveu agressões. De nenhuma forma, isso é para justificar a agressão que ele comete. Mas é importante compreender a raiz do problema e trata-la de forma assertiva propiciando a rachadura da violência. Contar com suporte médico, de assistência social, pode contribuir para que se diminua os casos de violência não só contra a mulher, mas em outros núcleos da sociedade como um todo.

“O amor pode ser muitas coisas. O amor é vida. O amor é acolhimento, aceitação. O amor pode ser também perdão. Mas se tem uma coisa que o amor não é, é violento. O amor não é morte.” – Malu, Coisa Mais Linda

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