segunda-feira, 26, outubro, 2020
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Crítica: O Formidável

Quando certas figuras têm as suas respectivas histórias narradas no cinema, é necessário que elas recebam um tratamento à altura não só em razão da importância histórica, como também dos ideais que defendiam. Por exemplo: usar uma estrutura convencional para ilustrar a trajetória de vida de um sujeito conhecido por seu caráter revolucionário pode ser considerado até mesmo uma falta de respeito. Isso também vale para o caso em que a cinebiografia de um compositor se desdobra sem instantes musicais. O Formidável, o novo longa-metragem de Michel Hazanavicius, o mesmo de O Artista, é um filme que entende essas exigências perfeitamente.

Adaptado pelo próprio diretor a partir da autobiografia recém-lançada de Anne Wiazemsky, intitulada “Un An Aprés”, o roteiro se concentra em um determinado momento da carreira do cineasta Jean-Luc Godard. Indo desde os dias posteriores à realização de A Chinesa até a sua entrada no Groupe Dziga Vertov, a narrativa nos mostra como o famoso diretor reagia às críticas negativas, a participação nas manifestações do Maio de 1968, a estupidez com que lidava diante de opiniões contrárias, o sentimento de culpa por ser burguês, as ideias radicais sobre cinema e o relacionamento que mantinha com a esposa e os amigos.

O Formidável
O Formidável | Imagem: Imovision

Muito irregular, a carreira de Hazanavicius no cinema francês se caracterizou pela mistura de elementos satíricos com uma espécie de homenagem indireta ao cinema. Antes de O Artista, os seus dois principais longas, 117: Uma Aventura no Cairo e 117: Rio Não Responde Mais, ironizavam a figura de James Bond e os filmes de espiões. Já na obra que lhe garantiu o Oscar e os holofotes do mundo inteiro, ele recriou a estética dos filmes mudos e, brincando com a imagem dos astros da época, caçoou da fama hollywoodiana, ao mesmo tempo que reconhecia o seu charme inegável.

Em O Formidável, isso não é diferente. Assim como nas produções anteriores, o cineasta também estabelece uma junção de deboche e reverência. No entanto, há um aspecto que diferencia o longa das de mais empreitadas do diretor, a ponto de transformá-lo no melhor de sua carreira: a zombaria não é apenas uma escolha feita entre tantas possíveis, mas algo plenamente justificado pela personalidade do próprio biografado. Em outras palavras, qualquer abordagem convencional ou diretamente honrosa seria indigna de um  experimentalista formal e radical político por excelência como Godard. A única maneira de respeitá-lo, portanto, seria através da transformação de sua imagem em uma constante subversão.

Dessa maneira, ao tornar um dos idealizadores da Nouvelle Vague em uma espécie de Groucho Marx político, com espaço para cenas de puro humor pastelão e físico (todas envolvendo os famosos óculos escuros merecem ser mencionadas), Hazanavicius realizou a única obra aceitável. Todavia, as referências não terminam por aí. Com uma desenvoltura impressionante, o diretor recria cenas e emula as principais características do estilo godardiano. Aliás, é impressionante o conhecimento que o diretor mostra ter da filmografia de Godard. Isso deixa claro que o material não lhe era estranho. Pelo contrário. Foi um projeto feito com carinho e paixão.

O Formidável
O Formidável | Imagem: Imovision

Assim, a presença de momentos similares aos dos filmes da fase inicial do cineasta, as quebras da quarta parede, brincadeiras brilhantes como a fala de Louis Garrel sobre os atores dizerem para a câmera qualquer coisa que os diretores lhes pedem, o emprego de um belíssimo travelling durante um diálogo maravilhoso transcorrido em uma rua (esse é um dos recursos cinematográficos mais caros a Godard), o uso de letreiros à frente de um fundo preto e legendas verbalizando o que os personagens pensam sempre soam dinâmicos, naturais dentro da lógica estabelecida e inteiramente fundamento nas cenas em que transcorrem.

Contudo, os méritos de Hazanavicius também se mostram presente nas partes mais dramáticas. Se o roteiro não encontrasse nenhum motivo por trás da sua realização cômica, é evidente que teríamos um bom filme, porém, ele seria inevitavelmente vazio do ponto de vista conteudístico. Ao usar todos esses elementos para narrar, essencialmente, uma jornada de auto-descoberta do protagonista, a obra se eleva, tornando-se uma história dramaticamente poderosa. No fim, a mesma intolerância que julgávamos negativamente em Godard nos é proposta, justamente no instante em que temos de escolher aceitar ou não o sujeito pelo que ele é, independentemente de sua simpatia ou carisma.

Deste modo, finalizando o arco dramático de uma maneira comovente, O Formidável se firma como um dos recortes biográficos mais eficientes e criativos da história do cinema. Como esse tipo de ousadia é uma das coisas mais raras de se ver dentro de um subgênero marcado pelo simplório, é impossível desmerecer essa conquista dos responsáveis. Por fim, não há como não ficar impressionado com isto: mesmo através de um retrato e indiretamente presente, Jean-Luc Godard consegue transformar, mudar, revolucionar. De fato, quem nasceu para brilhar, brilhará.

Veja a ficha técnica e elenco completo de O Formidável

Nota do Thunder Wave
Sabendo equilibrar o humor e o drama, O Formidável é uma cinebiografia criativa e eficiente.

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