Talvez, se existe um consenso entre os críticos brasileiros, é o de que o cinema de gênero ainda dá os seus primeiros passos no país. É claro que são lançados anualmente filmes que se encaixam em diferentes categorias, mas dizer que eles constituem uma realidade concreta e  estabelecida dentro do cinema nacional é um exagero. O Rastro, o primeiro longa metragem do diretor J. C. Feyer, é mais uma das produções recentes que tentam acostumar o público às obras de terror brasileiras, porém, de todos os modelos possíveis, seguiu um dos piores: as obras de horror produzidas em massa pela indústria hollywoodiana.

Roteirizado por André Pereira e Beatriz Manella, o longa conta a história de João (Rafael Cardoso), médico que também trabalha na Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. No centro de uma crise que assola toda a rede de hospitais públicos, ele está a prestes a fechar um estabelecimento onde o seu grande mentor, Heitor (Jonas Bloch), continua trabalhando, o que faz com que tenha um conflito de consciência. Para piorar a situação, uma das poucas pacientes do hospital some, ninguém sabe dizer o que aconteceu com ela e visões ou aparições fantasmagóricas da garota passam a perturbá-lo psicologicamente.

Para não começar esta análise em uma nota negativa, direi logo de início que a atuação de Rafael Cardoso é o maior ponto positivo do filme. Como a sanidade do protagonista é colocada em xeque em boa parte da história e o diretor ressalta essa dúvida através de intensos e grandes close ups e planos que parecem não desgrudar do personagem, era necessário que a performance do personagem principal fosse convincente e não ultrapassasse o limite que separa a possível loucura de João da opção de que tudo o que está acontecendo ao seu redor realmente tenha uma explicação sobrenatural, armadilha da qual o ator consegue escapar com perfeição.

Rafael Cardoso em O Rastro | Reprodução: Imagem Filmes

Infelizmente, essa qualidade de composição não se estende aos outros membros do elenco. Leandra Leal, que interpreta a esposa grávida do protagonista, no momento em que precisa tomar a dianteira da história, não consegue carregar o filme tão bem e seguramente quanto o seu parceiro de cena; Cláudia Abreu, uma das médicas do hospital, investe em uma persona misteriosa que não se justifica em nenhum momento da narrativa; e, por fim, o experiente Jonas Bloch, mesmo tendo pouco tempo em cena, compõe um personagem que já surge caricato e em desarmonia com o tom de todas as outras atuações.

No entanto, seria injustiça da minha parte dizer que o fracasso de O Rastro se deve às interpretações equivocadas do elenco de apoio. Na verdade, a culpa recai, principalmente, sobre a dupla de roteiristas, que, desejando fazer um suspense psicológico e um longa de fantasma, além de uma crítica social sobre o estado precário em que se encontra a saúde pública no país, acabaram por contar uma história que vai anulando algumas das suas intenções.

Explico melhor: o comentário sobre a fragilidade dos hospitais estaduais é pertinente e consegue ser transmitido sem muitos percalços, porém, no que diz respeito aos dois outros objetivos, fica evidente que no momento em que André Pereira e Beatriz Manella tentam criar uma dúvida sobre o estado psicológico de João, a história dos fantasmas vai se mostrando cada vez mais inútil, e quando esta começa a ser desenvolvida, a narrativa sobre a sanidade do protagonista cai por terra. Não entrarei em mais detalhes para não acabar com as surpresas da história, mas não há como não enxergar nessa auto sabotagem inconsciente um erro conceitual imperdoável por parte dos roteiristas.

Leandra Leal em O Rastro | Reprodução: Imagem Filmes

Para deixar esse problema ainda maior, não sei se por consequência do equívoco cometido por Pereira e Manella ou se por demérito próprio, J. C. Feyer, o diretor de fotografia Gustavo Hadba e a equipe de som acabam por incorrer no mesmo erro. É evidente que os enquadramentos tortos, os planos que deixam os rostos comprimidos em um canto ao passo que elementos cenográficos preenchem a maior parte do quadro, o excesso de teto, os já mencionados grandes close-ups e o desenho de som que indica através de abafamentos e barulhos diegéticos o que o protagonista ouve em sua cabeça estão todos a serviço de uma estética audiovisual que pretende colocar o espectador dentro da mente de João.

Porém, além de serem, em sua maioria, esteticamente feios (em vários momentos, as bizarrices visuais de Tom Hooper, o diretor de O Discurso do Rei, Os Miseráveis e A Garota Dinamarquesa, me vieram à cabeça), esses recursos técnicos apresentam o mesmo problema do roteiro: enquanto corroboram a intenção de questionar a sanidade de João, eles são plenamente justificados, mas, na eventualidade do roteiro confirmar a existência de fantasmas, eles anulam completamente a finalidade anterior. Para que imaginar uma história que oscile entre duas vertentes tão excludentes? Do ponto de vista conceitual, a obra balança na corda bamba na maior parte do tempo, sem que haja a menor necessidade disso acontecer.

Finalmente, trazendo mais uma vez à tona o comentário feito ainda no primeiro parágrafo sobre O Rastro tentar imitar os filmes de horror pasteurizados de Hollywood, um olhar breve sobre os inúmeros jump scares acionados durante a narrativa, a história banal envolvendo um hospital mal assombrado, garotinhas assustadoras e uma série de diálogos e recursos narrativos comuns do gênero são suficientes para confirmar esse diagnóstico. É difícil dizer o motivo que levou os responsáveis a se inspirarem no pior momento histórico de uma fonte literária e cinematográfica (o terror) que teve tantos pontos altos ao longo de sua trajetória.

Mas, a dura verdade é que eles se inspiraram e, ao fazerem isso, realizaram O Rastro, um filme que, muito provavelmente, contribuirá pouco ou quase nada para a consolidação do gênero horror no país. É óbvio que precisamos olhar para modelos internacionais e aprender o que podemos com eles, porém, se começarmos a imitar aquilo que faz sucesso comercial em detrimento do que é artisticamente relevante, não iremos muito longe. Afinal de contas, se é para ver a cópia mal feita de algo que já é ruim, é melhor ir assistir ao original. Ao menos, terá um pouco mais de personalidade.

Veja a ficha técnica e elenco completo de O Rastro

Veredito
Nota do Thunder Wave
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