Caro leitor, há spoilers. Se ainda não viu os episódios 01 e 02, faça a gentileza de sair da página, assista os episódios liberados e só depois volte e leia a análise. Grata de sua compressão, boa leitura.

Seguindo a linha da concorrência, O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder é um spin-off que se passa há milhares de anos antes dos eventos conhecidos de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. A narrativa começa retratando um período de aparente paz e no seu decorrer cobre todos os principais acontecimentos da Segunda Era da Terra-média: a criação dos Anéis do Poder, a ascensão de Sauron, o crescimento de riqueza dos anões, os ancestrais dos hobbits e a última aliança entre Elfos e Homens. Algo interessante para saber é que esses acontecimentos retratados são baseados nos apêndices das obras originais, O Silmarillion e em alguns textos clássicos de J. R. R. Tolkien.

A Amazon liberou os dois primeiros episódios na plataforma e ambos contemplam aproximadamente 60 minutos de duração cada, quase um filme. A trama inicial vista em A Sombra do Passado nos explica os acontecimentos que nos levam ao contexto que vemos em À Deriva. São dois episódios importantes, pois eles são responsáveis por apresentar os personagens que veremos ao longo da temporada, estabelecendo suas relações, adicionando tramas relevantes e que complementam a história principal fazendo com que o público tenha uma base para seguir a série sem grandes dificuldades. Talvez, nessa contextualização, os episódios 01 e 02 se percam porque passam grande parte do tempo relembrando momentos nostálgicos, easter-eggs e algumas momentos se apressam demais ou dão uma explicação mal feita. No entanto, temos uma apresentação eficiente e bem feita no que diz respeito a introdução de personagens cativantes e intensos. Se você não conhece nada da série, terá a experiência enriquecedora de se deleitar com os episódios liberados.

Em O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder, somos apresentados as jovens versões de Elrond (Robert Aramayo) e Galadriel (Morfydd Clark), aos personagens Nori (Markella Kavenagh), Durin IV (Owain Arthur), Arondir (Ismael Cruz Cordova), entre outros, a produção conta com um elenco bem diversificado, performando os elfos, os anões, humanos e os pés-peludos, ancestrais dos hobbits. Conhecedores do exímio trabalho de Tolkien, sabem que o autor tem uma certa admiração pela construção detalhada de seu universo, com descrições de cenários, paisagens, de suas criaturas, considerando suas tradições e culturas, bem como idiomas falados, modos de vida, tudo que possa enriquecer o seu trabalho e isso se torna um grande desafio para quem tem a responsabilidade de transportar do papel para as telonas ou telinhas.

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A estética é linda e bem feita /(Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

Assistindo aos episódios é inegável a absurda qualidade do trabalho da pós-produção. Os efeitos especiais estão lindos, o cuidado pela produção foi tão grande que a sensação de imersão nos conectam de forma quase osmótica, mesmo que em alguns momentos -raros-, um detalhe ou outro do chroma key se mostra estranho. Os cenários, as locações diversas nos teletransportam para o mundo de Tolkien. Aqui, outro detalhe que é de extrema relevância é a trilha sonora sinfônica com instrumentos e melodias clássicas que evocam o tom de grandeza da produção, assim como a direção de J.A. Bayona que segue um estilo panorâmico para evidenciar os horizontes, os diversos espaços e a forma de vivência dos personagens. A estética aplicada em cada design de produção é capaz de traduzir o mundo já visto nos papéis. De fato, é um espetáculo cinematográfico digno de Oscar pelo primor estético de audiovisual.

É um desafio e tanto equilibrar tantas variáveis de uma só vez e como mencionado anteriormente, vemos o cuidado da produção em entregar uma obra não só bonita esteticamente, mas que se mostra fiel ao trabalho original de Tolkien que ao longo dos anos, ao imaginário da Terra-Média que Peter Jackson retratou nas telonas, conseguiu imprimir o seu toque pessoal para apresentar algo realmente novo. E por coincidência, toda a retratação de Valinor e a ida dos elfos escolhidos para esse paraíso carregam uma aura sagrada, da mesma forma que a dúvida plantada sobre o retorno de Sauron ecoa muito o medo do demônio cristão, permanecendo o tom religioso dos livros.

Se você temia um spin-off contaminado pelo efeito GoT da cultura pop, fique tranquilo. A Amazon soube como chegar com os dois pés no peito já conduzindo de forma maestral um mundo mágico e fantástico que nos fazia tanta falta em tempos de tramas sombrias e violentas, sabendo como usar o tempo ao seu favor para se  manter fiel, nem se aproximando ou se afastando demais, mas sim, com seu frescor no que já é conhecido.

O foco está nas raças da Terra-Média e para a vastidão e as infinitas possibilidades que esse mundo ainda novo tem a oferecer. E a partir dos olhos de Galadriel, acompanhamos a jornada dos elfos neste novo mundo tentando estabelecer uma nova sociedade fora do seu antigo paraíso ao mesmo tempo em que vivem assombrados pelo retorno iminente de um mal antigo. Sendo assim, percebemos que ao focar na Segunda Era tem-se a possibilidade de explorar de infinitas formas a mitologia da Terra-Média e apresentar algo diferente.

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Galadriel de Morfydd Clark, é o destaque da temporada /(Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

A propósito, a personagem é o grande destaque dos primeiros episódios. Apesar de ser figurinha carimbada dos filmes vistos, essa versão é muito mais humana que se afasta da personagem sábia e enigmática que ajuda Frodo em A Sociedade do Anel. A relação dessa versão com o público é muito mais forte porque conseguimos enxergar nela confiança e coragem não só por ser uma guerreira com forte personalidade, mas por não desistir daquilo que acredita e a sua intérprete soube muito bem como conduzir sua personagem de forma brilhante.

Algo interessante é notar o alinhamento de toda a trama com a fantasia e o mágico que é de extrema importância em O Senhor dos Anéis e isso ajuda muito a desenvolver o clima que deve ser adotado ao longo de toda a temporada. Tanto que, quando vemos o surgir dos primeiros orques, a cena se torna muito mais tensa e assustadora do que quando os monstros apareciam para Frodo e Gandalf, por exemplo.

Retomando para os personagens, a nova Galadriel é a dona da série, porém a participação de Robert Aramayo com o seu Elrond – bem diferente daquele vivido por Hugo Weaving-, e fica evidente que o objetivo é desenvolvê-lo no decorrer das temporadas até que ele se torne o sábio senhor de Valfenda. Por ora, ele ainda se mostra um pouco ingênuo, o que ajuda a dar uma leveza interessante para a trama. Sem contar que toda a sua interação com os anãos em Khazad-Dûm é bem legal.

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Elrond de Robert Aramayo / (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

Em O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder temos algumas adições que precisarão de mais tempo para mostrarem para o vieram. Citamos o personagem Arondir (Ismael Cruz Cordova) que vive um elfo patrulheiro que é apaixonado por uma humana e que, até o momento, nada de tão interessante, porém pelo o que vimos, sua história será de extrema importância na trama. No entanto, podemos estabelecer algumas relações que podem terem sido pensadas propositalmente ou não, como a personagem Nori (Markella Vanenagh) e o Estranho (Daniel Weyman) que aparentemente foram escolhidos para serem os  equivalentes ao Frodo de Elijah Wood e o Gandalf de Ian McKellen — contudo, tal relação não está clara, pois ainda não se sabe se o homem que caiu do céu é mesmo o Cinzento. Além disso, a maquiagem está impecável, pois a caracterização dos anões soa muito familiar e nos remete ao que vimos em O Hobbit.

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A família de Nori (centro), os pés peludos /(Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

Com apenas dois episódios, o tom do que está por vir é sentido e as pontas soltas abrem espaço para os mistérios que serão explorados no decorrer da temporada que contará com oito episódios. A série sabe se apoiar no que já é conhecido sobre O Senhor dos Anéis para construir tensão em torno desse retorno de Sauron e na própria identidade do Estranho. E tudo isso enquanto esmiúça novos ângulos de personagens já conhecidos e nos apresenta alguns rostos novos.

Engana-se quem pensa que a série, Anéis de Poder é uma produção destinada para os fãs de Tolkien. É óbvio que quem conhece o universo vai se maravilhar com cada detalhe e referência apresentado, todavia, o maior mérito do seriado é abrir as portas mais uma vez da Terra-Média para que novos públicos possam se encantar com esse universo rico e mágico criado por Tolkien.

Por fim, em uma longa temporada de obras sombrias com uma pegada apocalíptica que virou quase uma regra para todos os streamings, é sempre bom voltar para o início de tudo e lembrar o porquê um clássico é um clássico. Os episódios serão liberados todas as sextas-feiras às 01 hora da manhã.

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