A série O Senhor dos Anéis – Os Anéis de Poder é conhecida por seu ritmo peculiar. É algo que não agrada muita gente, mas, particularmente, é interessante, pois, cria aquela sensação de aflição que tanto comentei nas últimas críticas. No seu sexto episódio, Anéis de Poder entrega uma característica essencial presente na obra de J.R.R. Tolkien, as batalhas. Além disso, vemos o encontro dos númenorianos com o povo das Terras do Sul e esse episódio é de tirar o fôlego. O melhor até o momento.

Em Udûn – a palavra élfica para inferno, temos ação, drama e um final surpreendente e inesperado, diga-se de passagem. Isso quer dizer que não temos erros? Não é bem assim. Temos algumas falhas que incomodam, mas nada que diminua a qualidade da obra no geral. Na verdade, a partir deste episódio, a série não será a mesma.

Diferente dos antecessores, o sexto episódio não se preocupou em abordar todos os núcleos da trama como se estivesse cumprindo uma “to do list”. Embora, estivesse trabalhando a crescente ameaça que se aproximava por todos os lados, essa apresentação de diferentes localidades dentro da série nem sempre era assertiva, pois, algum núcleo sempre ficava boiando enquanto os demais tinham mais profundidade. Vimos que aqui, a série preferiu mostrar apenas os grupos que precisavam interagir diretamente como o time de Galadriel e os númenorianos com o time de Arondir e Bronwyn contra Adar e seus Orcs.  

Apesar do avanço narrativo e todo o processo criativo simbolizando a tensão, a ameaça crescente, o episódio conseguiu reunir seus dois núcleos principais de uma forma bem estranha e incômoda. Quando cada grupo é apresentado em uma região diferente, sentimos que os acontecimentos se passam em tempos distintos. O núcleo de Galadriel em Númenor parece estar acontecendo há meses, enquanto o núcleo de Arondir se passa em horas, praticamente. O mesmo se repete com os pés-peludos e o grupo de Elrond com Durin. 

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Esse é o episódio mais sangrento e ativo até o momento / Reprodução Amazon Prime Vídeo

O episódio Udûn já se mostra sombrio desde o começo. Antes dos orques iniciarem a batalha, eles gritam uma palavra, “namat”, para encorajamento. Por essa prévia, podemos ter certeza de que algo terrível está para acontecer. Os momentos que acontecem depois são cruciais para a linha que a trama decide seguir. O capítulo anterior deu um gostinho da maldade de Adar criando um senso de urgência, porém, é no sexto episódio que a representação maligna dos vilões seja comprovada não só por quem assiste, mas pelos personagens também.

Seja pela triste descoberta das pessoas do vilarejo de que estavam matando seu próprio povo – aqueles que decidiram se unir a Adar; seja pela profunda cena da taberna em que o elfo maléfico começa a matar sem hesitação apenas como demonstração de sua maldade ou pelo inesperado encerramento com um vulcão em erupção. Todos esses momentos citados, além dos orques gritando “udûn” como um canto de vitória, resume toda a ameaça que veremos a partir daqui.

Um dos destaques deste episódio vai para a cineasta Charlotte Brändström que conseguiu ser bem ousada na direção, sabendo compor cenas de lutas bem coreografadas como a performance entre Arondir e o Orc gigantesco (parecia um trasgo) e, claro, a conclusão do episódio com toda aquela erupção, águas jorrando, pedras caindo e muito fogo. O trabalho estético e o uso de um CGI impecável conferiu ao capítulo uma sensação de destruição apocalíptica.

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Essa é a cena final deste episódio / Reprodução Amazon Prime Vídeo

Tem outros momentos de confrontos que são bem filmados e bem trabalhados, como o choque entre as pessoas do vilarejo e os Orcs que é dividido em três conflitos. Começando na Torre, depois pela batalha à noite na vila e logo em seguida com a chegada da cavalaria de Númenor. E aqui já podemos falar dos erros, como na primeira luta. A estratégia de Arondir foi algo bem legal de se ver em tela, pois, ele conseguiu derrubar a torre e os demais com Bronwyn foram se proteger na vila. Mas seria mais inteligente se proteger na Torre ou na vilinha? Ok, essa passou. No vilarejo, à noite, não aconteceu como esperado, pois, eles se deram conta que acabaram lutando contra o seu povo e eis que surgem os Orcs e o poderoso chefão, algo que dava para ser pensado antes pela cabeça do elfo guerreiro. Ok, não passou, mas tudo bem.

E a terceira batalha é a comprovação de que algo não deu muito certo porque é perceptível – até demais. É o momento em que a resistência formada por Arondir e companhia está cara a cara com a morte. Essa cena se passa dentro de uma taverna que foi usada para abrigar os mais vulneráveis, mas é lá que a espada maligna está escondida e por desespero é entregue a Adar. Quando pensamos que não há mais jeito, a tropa de Númenor aparece. Convenhamos, não foi uma construção bem feita. O roteiro da série, em geral, tem mostrado esse erro recorrente no tratamento do tempo.

As lutas que se passam no vilarejo parecem estar acontecendo em horas, não dias, não meses e sim, numa noite sem fim. No momento em que a tropa de numenorianos com Galadriel, Halbrand e Elendil encontram a resistência organizada por Bronwyn e Arondir é um momento bem bizarro e logo pensamos: “Como eles sabiam que essa era a hora H?”. Neste episódio, esse reencontro foi mal encaixado e qualquer pessoa que assista a série vai achar isso, pois, conforme a série foi se desenvolvendo, as situações iam acontecendo com uma certa distância uma das outras e desde o início foi complicado estabelecer a simultaneidade entre os fatos.

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A chegada da tropa numenoriana à Terra-media / Reprodução Amazon Prime Vídeo

Enquanto a resistência organizada por Bronwyn e Arondir acontecia durante uma única longa noite, a cavalaria liderada por Galadriel e companhia chegavam à luz do dia. Nem pensaram em retratar o amanhecer, quando a tropa chega já é dia mesmo. Esse é um ponto bem incômodo, mas desnecessário tecer horas a fio sobre isso porque é uma luta perdida com essas produções com fotografia de cinema. É bonito, sim. Mas se mal executado, fica estranho. Precisa coesão, coerência e parcimônia.

Apesar das falhas recorrentes, o CGI é impecável, a direção de Brändström é interessante, a fotografia segue sendo um ponto alto, pois, consegue ser assertiva nos momentos que precisa enfatizar a beleza dos cenários e o breu nas situações certas. Além disso, a trilha sonora maravilhosa. Contudo, ponto negativo para o roteiro de Justin Doble e Nicholas Adams que não souberam como traçar uma linha do tempo e a composição dos elementos que aconteciam de forma distante. Isso considerando o tempo de duração da viagem de Númenor até à Terra-média e a chegada just in time para a luta no vilarejo que escancara outro problema: desperdiçou o potencial de uma narrativa que merecia mais exploração. 

O desafio da trama é conseguir equilibrar esses erros e saber como ligar os fatos, pois, ainda temos outros núcleos que precisam ser incluídos na trama como o grupo dos pés-peludos e o núcleo de Elrond e Durin. Como irão fazer, não sei. Mas precisa ter cuidado ao encaixar os eventos. Além disso, deixar as situações ridículas de lado porque a espada ter ido parar na mão de Waldreg foi meio estranho. Galadriel não checa o artefato, nem mesmo durante o interrogatório de Adar, e Arondir repete o erro, diminuindo assim o potencial da cena até a ação de Waldreg na torre. Infelizmente, Anéis de Poder tem muitas conveniências mal contextualizadas que geram incômodo.

Todavia, nem tudo está perdido. A troca de diálogos entre Galadriel, Adar e Halbrand são bem elaborados passando pelo arco dramático da elfa guerreira em sua missão quase suicida; pelos mistérios que cercam Halbrand; e também pela mitologia quando o elfo fala do passado. A trama consegue avançar com as conversas e consegue detalhar com cautela o cenário para novos acontecimentos antes de encerrar com primazia o episódio seis. Esperamos ansiosos pelos próximos capítulos.

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