terça-feira, 22, setembro, 2020
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Crítica: Power Rangers- O Filme (2017)

Go, go, Power Rangers!

O bordão é clássico. A série em live-action que se originou no Japão e se alastrou para o outro lado do oceano fez parte da infância de muitas pessoas e já passou por remakes, spin-offs e releituras de todas as formas possíveis. E agora, em 2017, Power Rangers chega às telonas com uma pegada um tanto quanto… Diferente.

Seguindo o padrão de outras adaptações cinematográficas dos últimos anos, o longa dirigido por Dean Israelite foca no surgimento desta nova geração de defensores do planeta em que vivemos de forças extraterrestres cujo principal objetivo é alcançar o poder máximo e destruir quem ousar ficar no caminho. A narrativa não é original – e este definitivamente não é o ponto principal desta obra; aqui, se preza muito mais pela modernização de um conto clássico e pela nostalgia.

Power Rangers
Power Rangers
Imagem: Divulgação

O filme começa em um passado muito remoto – mais precisamente há 65 milhões de anos, na época jurássica. Já na primeira sequência, somos apresentados a um cenário caótico tomado pela destruição – e a ambientação selvagem entra em constante contraste com elementos tecnológicos como naves, armas a laser e armaduras, indicando que o avanço alienígena já era evoluído mesmo naquela era. A destruição eminente marca a ruína destes primeiros Rangers e a quase conquista do universo pela vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Entretanto, este arco deve se manter até os dias atuais, e uma resolução ocasional faz com que o time de defensores dê espaço para os novos escolhidos e a antagonista permaneça num estado vegetativo no fundo do mar.

Logo depois desta breve introdução, a história parece encontrar sua voz: de forma muito breve e desnecessariamente acelerada, o público tem a chance de conhecer os cinco novos Rangers – adolescentes desconexos com os mundos em que vivem e que são excluídos por uma massa homogênea de estudantes. Tal escolha para unir os integrantes e entrelaçar suas histórias também não é nenhuma novidade – e contribui para a atmosfera identitária. Mas a partir daqui o roteiro assinado por John Gatins encontra muitos obstáculos e se firma principalmente em diálogos superexpositivos e redundantes.

Devemos lembrar que o envolvimento do público com qualquer produto audiovisual restringe-se aos minutos iniciais de seu primeiro ato. Aqui, somos introduzidos aos protagonistas e ao panorama geral, bem como o incidente incitante que marca a entrada dos nossos heróis em uma jornada sem volta. Isso ocorre, mas num ritmo tão frenético que é quase impossível criarmos laços afetivos com qualquer um deles; eles parecem já se conhecer, mas ao mesmo tempo não fazem a mínima ideia de como interagirem um com o outro; eles se tornam grandes amigos sim – esta é uma das marcas de previsibilidade da narrativa -, mas a evolução das relações de amizade é desequilibrada e destoante.

O time é formado por Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Billy (RJ Cyler), Trini (Becky G) e Zack (Ludi Lin), e todos são unidos por acontecimentos ocasionais que envolvem a explosão de uma mina de ouro desativada. Compreendemos como todos chegaram até lá, mas não conseguimos encontrar um motivo sequer que faça jus à convergência dos eventos. A inconstância é tamanha que, enquanto em uma sequência Jason e Billy mal se entreolham, na outra eles já estão fugindo das autoridades da cidade de Angel Grove, divagando sobre o que encontraram nas entranhas de uma montanha de pedras.

Crítica Power Rangers
O time de Power Rangers.
Imagem: Divulgação

O foreshadowing, característica que permite aos espectadores preverem de forma coercitiva e envolvente as situações decorrentes, firma-se constantemente como simulacros e fórmulas da série de TV, que em nada adicionam para a complexidade da trama e que são construídos de forma equivocada no filme; é de esperar que os momentos de virada estejam bem delineados – e podemos inclusive compreender muito bem a jornada do herói com as etapas pelas quais os Rangers passam: negação, aceitação, treinamento, enfrentamento, decadência e ressureição.

Mais uma vez, todos estes elementos poderiam ser explorados de forma a tornar Power Rangers um filme competente. Mas a falta de equilíbrio entre os atos deixa a desejar e rouba o foco da própria história. Até mesmo a aparição de Bryan Cranston como Zordon – um ex-Ranger cuja essência está presa à maquinaria de uma nave espacial – não é o suficiente para elevar o nível do filme. Seus diálogos, ao contrário da idealização metafórica própria de um arquétipo de guardião, são vazios e desconexos com os acontecimentos que vemos em cena.

Resenha Power Rangers o filme
Bryan Cranston como Zordon.
Imagem: Divulgação

Vale citar aqui que a atuação de Banks como Rita Repulsa é essencialmente escrachada. Claro que não se pode esperar muito vindo de uma vilã cujo nome é o supracitado, mas até aqui os erros parecem encontrar um novo nível. A construção das cenas de batalha é interessante, perscrutada com slow motions e diegeses deslocadas, mas seus bordões vilanescos, adornados com alguns tiques nervosos e cacoetes da própria personalidade, saturam demais tais sequências.

Apesar de todos esses deslizes, estaria sendo hipócrita se dissesse que Power Rangers não é um filme divertido. Sua pretensão por vezes é superestimada, visto que a narrativa adota um tom mais macabro como forma de condensar a trama principal e acaba se transformando numa junção desigual de vários estilos. Entretanto, momentos pontuais – como a utilização da música-tema da série televisiva, o momento em que os Rangers “morfam” e a batalha final entre dois gigantes maniqueístas – ajudam na conexão nostálgica já citada em outros parágrafos entre o público e os super-heróis.

Em suma, Power Rangers têm seus momentos de glória, mas os equívocos infelizmente falam mais alto. É de esperar que uma continuação seja feita – e nós só podemos aguardar uma melhora significativa tanto de linguagem quanto de técnicas artísticas.

 

Nota do Thunder Wave
Power Rangers tem seus momentos de glória, mas os equívocos na trama atrapalham a qualidade do longa.

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