Um dos primeiros DVDs que comprei foi de “Legalmente Loira”. Não porque a protagonista era linda, loira e tudo nela era cor de rosa, mas por ser um daqueles filmes que assistia e via uma mulher com uma carreira legal, com um guarda-roupa incrível e um príncipe para chamar de seu no fim do dia. É claro que naquela época, eu ainda nem sabia o que queria da vida. Mas ao assistir “De Repente 30”, “Dez Coisas que Odeio em Você” ou até mesmo “Como Perder Um Homem em Dez Dias”, eu sentia que as portas do universo me proporcionariam tudo aquilo que eu via as protagonistas conquistando. Contudo, assim como elas envelheceram, eu também estou envelhecendo e vejo que a realidade não é como aquela que os filmes de comédias românticas de 2000 venderam por toda minha infância e adolescência.

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Por mais irreais que pudessem ser, muitos desses filmes até hoje são os favoritos de muita gente devido aos personagens extravagantes com os quais nos identificamos e amamos com facilidade. E foi com as comédias românticas que muitas atrizes construíram suas carreiras. É claro que algumas trilharam caminhos diferentes, seguiram por outras profissões dentro e/ou fora do entretenimento, aceitaram papéis menores, outras usaram a fama para crescer e conseguir trabalhos de mais destaque e valor crítico, mas há uma que foi contra a maré e tem mudado a forma como Hollywood trata as mulheres. Esse especial é sobre Reese Witherspoon e o empoderamento e empreendedorismo feminino na indústria cinematográfica.

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Reese é Elle Woods em Legalmente Loira / Reprodução

O início

Laura Jeanne Reese Witherspoon é a caçula de uma família pequena de New Orleans. A atriz cresceu no Tennessee e começou sua trajetória bem jovem no longa “No Mundo da Lua”. Logo, sua carreira despontou em produções televisivas, com participações especiais e filmes pequenos, como par romântico de Mark Wahlberg no thriller “Medo”, como uma adolescente que passa a viver em um mundo em preto e branco em “Pleasantville” ou como a jovem vítima de uma aposta em “Segundas Intenções”, ao lado de Sarah Michelle Gellar e Ryan Phillippe. Entretanto, foi no ano seguinte, como Tracy Flick, uma aluna obcecada em ser presidente da escola em “Eleição”, que Reese conseguiu o primeiro papel que determinaria o resto de sua carreira. A jovem atriz chegou com tudo em Hollywood, e a cada escolha ganhava mais reconhecimento e sucesso mundial: participou de “Psicopata Americano”, em “Friends”, no seu auge, como Jill, irmã de Rachel (Jennifer Aniston), e estrelando o filme que lhe daria a sua segunda indicação ao Globo de Ouro e seu primeiro sucesso mundial como protagonista: Elle Woods, em Legalmente Loira.

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A sua primeira indicação ao Oscar foi com a biografia do músico Johnny Cash, em que ela interpretou June Carter, sua esposa – uma interpretação impecável, diga-se de passagem. Sucesso mundial, Reese apareceu em várias comédias românticas como “Lar Doce Lar”, “Surpresas do Amor”, “E Se Fosse Verdade…”, filmes que levaram muita gente ao cinema e arrecadaram milhões de dólares, fazendo com que os títulos se destacasse entre algumas das produções mais rentáveis do gênero. Porém, veio a exaustão. Conhecida como uma princesa dos anos 2000, a atriz só performava os mesmos papéis e foi com “Água para Elefantes” e “Guerra é Guerra!”, dois filmes que não foram sucesso de bilheteria, tampouco de crítica, mas fizeram com que Reese se tornasse uma das atrizes mais bem pagas do cinema no final da década passada.

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Reese em Água para Elefantes / Reprodução

A matéria que deu errado

Em 2012, a New Yorker Magazine, publicou uma matéria em que a atriz era chamada de “washed up”, se referindo à atitude subjugada da atriz de não entrar na briga pela igualdade de salários abertamente. Descontente com o texto, ela respondeu, não com palavras, mas sim, com seu trabalho.

Na época, ela estava com 36 anos e vivia recebendo propostas de papéis bobinhos e sem destaque. Infelizmente, é raro uma atriz com menos de 30 anos conseguir um papel de destaque. Muitas ficam longe das câmeras e quando retornam, interpretam avós ou mães de atores mais jovens. A atriz Meryl Streep  viveu isso e fez comentários públicos sobre esse tema. O mesmo não acontece com os atores, quanto mais velho e grisalho, são considerados galãs que nem sempre interpretam o pai ou o avô e sim o namorado de uma jovem atriz. Comportamento machista que tem sido enfrentado por Reese.

Em diversas entrevistas nos últimos anos, a virada de chave foi receber o roteiro de um filme e, ao terminar de lê-lo, Reese ligou para o seu agente perguntando quem aceitaria um papel para um filme tão ruim, ao que recebeu a resposta de que outras três atrizes do primeiro escalão estavam na corrida por ele, que, além de tudo, era minúsculo e, como esperado, de esposa do protagonista. Assim nasceu sua produtora, a Pacific Standart, e, um novo capítulo bem sucedido de sua carreira.

Se os papéis não vinham até ela, a atriz criava. Cansada da oferta de personagens fracas e das questões machistas, misóginas e sexistas não só nos sets de filmagens, Reese montou uma produtora  com o objetivo de encontrar trabalho para si mesma, mas também para outras atrizes e – de qualquer idade – como ela gosta de ressaltar. Além disso, brigou por mais mulheres na direção e na produção como um todo a fim de proporcionar um ambiente mais inclusivo e saudável para as profissionais.

“Me lembro de estar em filmes em que eu era a única mulher no set e tinham 150 homens. Com sorte teriam duas mulheres no departamento de figurino”, ela conta à Vanity Fair. “Lembro que eu era apenas uma menina e colava nelas.”

Em 2014, a sua produtora teve sucessos como “Livre”, filme baseado no livro de memórias homônimo da escritora Cheryl Strayed e estrelado por Reese, que lhe rendeu sua segunda indicação a Melhor Atriz no Oscar; e Garota Exemplar. Desde muito cedo, Reese lia muito, e muito rápido. Seu foco com a produtora foi exatamente focar em mulheres e personagens femininas multifacetadas de diferentes origens e etnias que não tinham espaço para contarem suas tramas. Porém, foi com “Big Little Lies“, que tudo mudou por completo. Baseado no best-seller de Liane Moriarty, produzido ao lado de Nicole Kidman e com direção de Jean-Marc Vallée, a minissérie da HBO fez seu poder, talento e influência como atriz, produtora e acima de tudo, mulher empreendedora, ser visto pelo mundo inteiro. A história é sobre um grupo de mulheres de uma comunidade da Califórnia que veem suas vidas tranquilas mudarem com a chegada de uma nova moradora e, eventualmente, o assassinato de uma pessoa conhecida. A série foi sucesso de público e crítica, levando os prêmios principais em diversas cerimônias, incluindo Melhor Série e indicação de Melhor Atriz no Globo de Ouro e no Emmy.

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“Acho que há uma falácia sobre, por eu ter sido uma atriz, as pessoas me darem as coisas. Ninguém me dá nada. Eu acordo mais cedo e fico acordada até mais tarde. Vou colocar o meu dinheiro onde está minha boca. Eu tenho que ler mais rápido e responder mais rápido do que outros produtores. Eu tenho que ligar e ligar e ligar para executivos até que eles digam sim para os meus projetos.” — entrevista para revista Glamour.

A mudança tem nome: ambição

Reese Witherspoon é exemplo para pessoas que estão insatisfeitas e resolveram tomar o controle da situação e mudar a carreira. A indústria do entretenimento como um todo é conhecida por ser majoritariamente comandada por homens brancos, cis, hetéros que perpetuam costumes machistas. Infelizmente, a mulher é vista como mais uma forma de lucrar, e que podem ser descartadas quando passam de certa idade, enquanto atores homens recebem mais prestígio e poder à medida que envelhecem. Os cabelos brancos, em um homem, são uma questão de status, experiência, enquanto para uma mulher, é falta de cuidado. Com muita dedicação e talento, a atriz conseguiu dar oportunidade e visibilidade para várias mulheres. Em seu discurso no Women of The Year Awards da revista americana Glamour, Reese falou sobre isto:

“Eu acredito que ambição não é uma palavra suja. É somente acreditar em você mesma e nas suas habilidades. Imaginem isso: o que aconteceria se todas nós fossemos corajosas o suficiente para sermos um pouquinho mais ambiciosas? Eu acho que o mundo iria mudar.”

A produtora de Reese conta com algumas produções em andamento, de diversos como a segunda temporada de Big Little Lies, que contará com Meryl Streep no elenco, duas séries em potencial com as emissoras ABC e NBC, além de diversos projetos em produção para o cinema, entre eles, “Something In The Water” e adaptação do livro “The Gilded Years” da autora Karin Tanabe sobre a primeira mulher negra a frequentar a Universidade de Vassar, em 1890, com Zendaya no papel principal. Reese também conseguiu fechar um dos projetos mais ambiciosos da atualidade com sua nova série com Jennifer Aniston, em sua volta à televisão desde “Friends”, com o orçamento de 12 milhões (para quem não sabe, um episódio de “Game of Thrones” custa, em média, 15 milhões) sobre as guerras entre programas matinais. A Apple se comprometeu a fazer duas temporadas de dez episódios cada, sem nenhum roteiro finalizado.

Além de sua produtora de produtos audiovisuais, a loira também tem a sua linha de roupas, acessórios e decoração inspiradas no estilo sulista dos Estados Unidos, chamada Draper James. E mais recentemente a Hello Sunshine, uma companhia de mídia focada na criação e curadoria de histórias focadas em mulheres, que é encarregada de vários projetos, inclusive, uma série com a incrível Octavia Spencer e outro projeto com Kristen Wiig. Por último, mas definitivamente não menos importante, “Uma Dobra no Tempo”, primeiro filme com o orçamento maior a 100 milhões dirigido por uma mulher negra — ninguém menos que Ava DuVernay —, que protagoniza ao lado de suas amigas Oprah Winfrey e Mindy Kaling contando a história de uma garota, uma das primeiras protagonistas negras em um filme de fábula infantil, à procura do seu pai desaparecido.

Pode parecer pouco, mas Reese tem provocado muitas mudanças no mundo do entretenimento mostrando que é capaz de fazer muito mais para influenciar positivamente a indústria cinematográfica. Através da sua ambição, a atriz tem ajudado muitas mulheres a contar suas histórias. A atriz é exemplo de força, dedicação, talento e coragem.

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