terça-feira, 22, setembro, 2020

O Rei Arthur Pop

Guy Ritchie parece querer se tornar um especialista na arte de adaptar para as telonas histórias e mitos antigos. Começou em 2009 com Sherlock Holmes, teve prosseguimento em 2011 com a sequência Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras e continua até os dias de hoje com este Rei Arthur – A Lenda da Espada. No entanto, se o seu estilo mais “pop” e despojado casou perfeitamente com as histórias investigativas do célebre detetive londrino, no caso da lenda dos cavaleiros da Távola Redona e o seu principal expoente, o monarca da Grã-Bretanha, ficou claro que não são todas as histórias que combinam com as suas idiossincrasias visuais.

Desenvolvido pelo próprio diretor e por Lionel Wigram e Joby Harold (este último também concebeu o argumento inicial ao lado de David Dobkin), o roteiro tem início durante uma batalha entre os humanos e os magos. Logo após a vitória dos homens, o rei Uther (Eric Bana) é assassinado pelo irmão Vortigern (Jude Law), que lhe rouba o trono. Porém, momentos antes de morrer, ele assegura-se de que Arthur, o seu único filho, sobreviva. Décadas depois, já adulto, o órfão (Charlie Hunnam) parte em uma jornada para tomar aquilo que é seu por direito natural.

Rei Arthur – A Lenda da Espada é um filme com muitos problemas, e um dos seus principais equívocos é a indecisão dos realizadores sobre qual tom adotar. Na cena inicial, em que o público vê elefantes gigantes, ninfas e seres com superpoderes, chega-se a conclusão de que acompanharemos uma obra de fantasia. Entretanto, em outros momentos, tudo é mais sóbrio, e a impressão é de que a produção deseja ser levada mais a sério. Além disso, há também um esforço visível para introduzir elementos cômicos, com espaço até mesmo para típicos números de comédia pastelão.

1
Rei Arthur: A Lenda da Espada | Imagem: Warner

Se todos esses elementos fossem empregados no momento certo e de uma maneira harmônica, eles transformariam o filme em um sucesso absoluto. Afinal de contas, quase ninguém consegue resistir a uma mistura eficiente de magia, drama e risos. Entretanto, do jeito que está, o resultado é desconjuntado, e, ao invés de se alinharem, cada uma dessas atmosferas distintas acaba por aniquilar a outra, fazendo o espectador se sentir inseguro sobre a verdadeira natureza da história que está sendo narrada. Estamos assistindo a um filme de fantasia no estilo de Game Of Thrones (aliás, atores da série também dão as caras aqui), um longa medieval à la Excalibur ou uma comédia do grupo Monty Phyton? Difícil dizer.

Essa indefinição de tom também é um demérito compartilhado pelos roteiristas, que, não sabendo qual tipo de filme desejam fazer, são incapazes de decidir se trabalham com personagens tridimensionais ou arquétipos narrativos. Portanto, às vezes, Vongertern é o típico vilão maquiavélico dos contos de fadas (a performance exagerada e blasé de Jude Law contribui muito para essa caracterização), mas, em outros instantes, parece que os roteiristas, ao darem a ele momentos de vulnerabilidade, querem dramatizá-lo. No fim, é impossível dizer qual era a intenção inicial (esse mesmo problema também acomete o desenvolvimento de Arthur e Uther, embora em uma escala menor).

Rei Arthur – A Lenda da Espada
Jude Law em Rei Arthur: A Lenda da Espada | Imagem: Warner

Outra falha dos roteiristas é a maneira com que estruturam a história. Ao optarem por iniciar a narrativa com o embate entre Uther e Vongertern, eles são obrigados a abordarem a infância, juventude e o começo da vida adulta de Arthur em poucos minutos (para dar conta de três décadas de vida do personagem, a montagem, numa breve passagem, precisa recorrer a uma série de elipses que, se criam um efeito cinematográfico atraente, não deixam de ser uma saída ordinária) e a usar um número excessivo de visões, sonhos e flahsbacks para estabelecer as motivações do protagonista. Respectivamente, essas escolhas acabam comprometendo a conexão emocional do espectador com os dramas internos de Arthur e deixando exaustiva a experiência de assistir ao longa.

No entanto, o grande culpado pelo fracasso do filme é mesmo Guy Ritchie. Desde o momento em que a história começa, é evidente a falta de intimidade do diretor com o material e o escopo épico da produção. Vale lembrar que Ritchie surgiu como um cineasta independente e foi só recentemente que ele começou a participar de super produções. E, ainda assim, nenhum dos seus últimos projetos teve de lidar com tanto CGI e efeitos digitais quanto Rei Arthur – A Lenda da Espada (às vezes, a obra parece ser um jogo de videogame). Como não poderia deixar de ser, o saldo de tamanha incompatibilidade é um filme que, ora parece ser dele, ora parece ser de outro diretor desprovido de qualquer marca autoral.

É bem provável que Ritchie tenha percebido essa genericidade, afinal, ele faz questão de interromper o ritmo da narrativa (que já é extremamente problemático em razão da natureza fragmentária do roteiro, que, por vezes, como já mencionado, se divide em sonhos e visões) para compor típicos momentos “richtianos”, em que há um abuso de movimentos de câmera rápidos e truques de montagem. Aliás, as entediantes sequências desenvolvidas paralelamente parecem ter sido mais uma imposição do diretor para dar ao longa a sua assinatura estilística do que uma real necessidade da história. No entanto, nada disso surte efeito e o resultado acaba contribuindo ainda mais para o fracasso da produção.

Para não dizer que tudo são lágrimas, há um pouco de divertimento no filme, e ele provém da atuação segura e carismática de Charlie Hunnam. No entanto, os mesmos adjetivos não podem ser usados na hora de falar dos seus parceiros de elenco. Eric Bana tem pouco tempo em cena para deixar alguma lembrança positiva, Jude Law investe em um overacting incompatível com as outras performances e Djimon Hounsou pouco faz para tornar seu Bedivere em alguém memorável (a construção do personagem também não ajuda).

Terminando com um gancho para uma sequência que, devido ao insucesso do primeiro filme na semana de estreia nos Estados Unidos, talvez nunca ganhe sinal verde do estúdio, Rei Arthur – A Lei da Espada é o segundo grande tropeço de Guy Ritchie. Não é tão ruim quanto Destino Insólito (poucos conseguem essa proeza), mas está muito longe da qualidade dos trabalhos mais bem sucedidos do diretor. Agora, é esperar que ele se saia melhor em Alladin, pois no filme atual…

Veja a ficha técnica e elenco completo de Rei Arthur – A Lenda da Espada

Nota do Thunder Wave
O longa se torna fraco por não encontrar seu tom.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por Favor insira seu nome aqui

Siga nossas redes sociais

7,010FãsCurtir
3,084SeguidoresSeguir
4,362SeguidoresSeguir

Resenha | Com amor, Simon

0
Com amor, Simon é uma história de amor adolescente que aquece qualquer coração e nos faz torcer para que eles fiquem juntos e que consigam superar todos os conflitos, dificuldades e julgamentos que essa nova realidade lhes reserva... todo amor é válido.

The Walking Dead | Cena de momento íntimo causa nojo nos...

0
Cena de momento íntimo entre Negan e Alpha causou reações negativas nos fãs de The Walking Dead. Veja.
pt_BRPT_BR
en_USEN pt_BRPT_BR
Thunder Wave-Filmes, Séries, Quadrinhos, Livros e Games Thunder Wave