Nathan Harris faz uma estreia impactante e audaciosa com seu livro A Doçura da Água. Mostrando a batalha de dois negros libertos tentando viver normalmente em sociedade, uma família empatica que acredita que todos são iguais e um julgamento excessivo de dois homossexuais, a obra apresenta muitas camadas de preconceito que precisam ser quebrados.

A Doçura da Água se passa na cidade fictícia de Old Ox, em Geórgia, pouco depois da Emancipação dos escravos, uma solução que parece ter sido aceita forçadamente pelos senhores, que tiveram que abrir a opção da liberdade àqueles que queriam partir. Os irmãos Prentiss e Landry resolvem aproveitas essa oportunidade e saem em busca da sua liberdade, não demorando muito para descobrir que eles não serão bem aceitos pela sociedade. Sobrevivendo escondidos em uma parte das terras de George Walker, eles acabam encontrando com ele em uma das suas caçadas a um animal misterioso na floresta.

Com seu filho dado como morto na guerra e sua mulher Isabelle sofrendo o luto, George se simpatiza por esses irmãos e nutre uma estranha necessidade de mantê-los por perto. Ele começa uma nova plantação para empregar os garotos, que ficam trabalhando em sua casa em troca de um salário para poder criar uma vida fora dali. É óbvio que a população não simpatiza com essa solução de George e rapidamente cria obstáculos em seu caminho, que ao longo dos acontecimentos vão ficando cada vez mais perigosos.

Escolhido para o Clube do Livro de Oprah e amplamente divulgado por estar na lista de leitura de Obama e a longa lista do Booker Prize, A Doçura da Água dominou o público americano. Com sua temática envolvendo uma guerra e uma ampla crítica ao sempre polêmico estado do Texas, o contexto político, disfarçado em ficção, é gritante. Entretanto, esses são assuntos que provavelmente interessam mais aos conterrâneos familiarizados com algumas dessas situações, deixando para o público brasileiro uma boa parte da obra com informações nas entrelinhas que podem ficar sem o devido entedimento.

Porém, a crítica ao preconceito empregada na narrativa funciona em qualquer região. Tratando de dois negros que estão tentando viver seu direito de liberdade, mas aos olhos dos outros não passam de escravos fugidos, a história apresenta acontecimentos tristemente atuais, que envolvem até mesmo assassinatos, que lembram bastante as notícias que estão sempre em pauta atualmente. Em paralelo, um romance homossexual proibido apresenta o outro lado da questão. Sensível e odiado, esse núcleo mostra os limites do medo e até onde a necessidade de se moldar pela sociedade pode te levar.

A Doçura da Água é uma pesada reflexão sobre aceitação e preconceito, que deixa uma clara mensagem. Usando de vários tipos de dificuldades pessoais e superações, a trama não envolve apenas os negros, mas também a libertação de mulheres tendo que achar seu caminho sem seus maridos numa sociedade machista, homens encontrando sua sexualidade e pessoas que mostram que uma atitude mais humanizada pode abrir mentes.

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