Resenha | A Saga do Monstro do Pântano

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Resenha a Saga do Monstro do PantanoQuando o Monstro do Pântano se dirige ao seu adversário com essas palavras, nós entendemos que o personagem a nossa frente não é um super-herói. Ou um monstro, como ele mesmo tantas vezes insiste em definir a si próprio. Ele é uma ideia. Um conceito. A flora viva que interage com um mundo que não o compreende, e que talvez, no fundo, não tenha lugar para ele. O que ele faz então? Busca, nos cantos escondidos, tais quais as pequenas plantas que nascem, resistem e perduram entre as frestas de concreto das megalópoles, o seu lugar para existir.

Criado nos anos 70 por Len Wein (lenda dos quadrinhos, mais conhecido por ser o criador do mutante favorito da galera, o Wolverine) e Bernie Wrightson, o Monstro do Pântano encontraria o seu potencial 10 anos depois nas mãos de um jovem e ávido escritor inglês, Alan Moore. Moore assumiria relutantemente o título, que passara por diversos percalços, a pedido do próprio Wein. O inglês concorda, desde que ele tenha a liberdade de reformular, recriar e extrapolar o personagem. O resultado está sendo republicado desde 2014 pela Panini Comics no Brasil em A Saga do Monstro do Pântano, que chega agora ao quarto volume, onde, nos anos 80, junto aos bons desenhistas Stephen Bissete e John Totleben, Moore reconstrói um personagem que já havia feito muito sucesso nos quadrinhos de terror da década de 70, alçando-o a condição de leitura indispensável e clássico das HQ’s.

A Saga do Monstro do Pântano – Livro 1
A Saga do Monstro do Pântano – Livro 1

Caso queira saber mais sobre a fase inicial de Wein e Wrightson, a Panini também publicou no ano passado o volume Raízes, onde o personagem é apresentado. Mas se quiser partir direto para a brilhante fase de Moore, vá sem medo: o trabalho que o autor faz é de reformulação, tornando o seu Monstro substancialmente diferente do de Wein. Essa diferença fica clara até mesmo na compreensão do personagem sobre si mesmo. Explico. Mas antes, uma breve sinopse sobre a sua origem.

“Esse não é o caminho da natureza bruta. Não é o caminho do verde.”

Alec Holland é um cientista que, pego em uma explosão, acaba arremessado em um pântano da Louisiana, nos EUA. Esse pântano estava coberto por uma substância chamada fórmula biorrestauradora, que funde o corpo de Holland as plantas do charco. Quando emerge, Alec Holland havia se tornado um monstro coberto pela flora local. O Monstro do Pântano.

Até aí, o leitor desavisado poderia dizer: nada demais. Uma origem padrão para um personagem de ficção. Cientista ganha poderes bizarros após acidente bizarro e sai por aí surrando inimigos bizarros. Mas, se você conhece Alan Moore, sabe que o sujeito é um subversivo. O óbvio não faz parte de seu repertório. A partir do número 20 da série, onde se inicia o trabalho de Moore com o personagem, o que se vê é uma releitura não do homem Alec Holland e sua condição como planta; é uma releitura de uma massa vegetal que acredita ser homem. Na edição Lição de Anatomia, Moore reconstrói o personagem da maneira mais criativa e aterrorizante possível: Alec Holland está morto e o que vemos caminhando como o Monstro do Pântano é o eco da vida que persiste. Pois seres humanos morrem; a natureza não.

A Saga do Monstro do Pântano – Livro 1
A Saga do Monstro do Pântano – Livro 1

A parte mais instigante da série talvez seja justamente a perspectiva que Moore nos dá sobre a narrativa: é um quadrinho de horror, mas o horror não está nas ações dos personagens. Está na perspectiva da “natureza” sobre as ações dos personagens. Isso fica bastante claro no relacionamento e posterior conflito do Monstro com Jason Woodrue, o Homem-Florônico. Woodrue acredita que compreender o Monstro o ajudará a compreender mais sobre si mesmo; ele também, um amálgama de homem e vegetal. Mas o que Woodrue não entende é isso: ele ainda é homem, e pensa como tal. Na sua tentativa de compreender o Monstro, comete erros banais, que rendem situações estarrecedoras (se você viu a cena em que ele come o tubérculo e não se sentiu enojado, vá se tratar).

O Homem Florônico, não obstante, é um exemplo da habilidade de Moore de subverter e reconstruir personagens, marca dos grandes escritores de HQ’s. Até então um vilão B do Universo DC (como bem lembram os membros da Liga da Justiça, ele só havia apanhado em todas as suas aparições até ali), ele ganha novos contornos, com um objetivo claro: fazer oposição não ao personagem Monstro do Pântano, mas a ideia de natureza que ele representa. O Monstro é a natureza bruta; paciente, perene, que cresce sem querer crescer, que existe onde ninguém acredita ser possível; Woodrue se apresenta como uma visão opressiva da natureza, aquela que ameaça o modo de vida humano. Em poucas páginas, um vilão de quinta categoria se torna um personagem multidimensional.

Mas esta é apenas a primeira parte. Com o desenrolar dos 3 volumes, o que vemos é o Monstro encontrando seu lugar no mundo e entre as pessoas sendo apenas o Monstro, e não mais Alec Holland coberto por vegetais e com poderes. No caminho, ações indescritíveis, que vem não apenas dos vilões e situações absurdas e horríveis que o cercam, mas também das pessoas a sua volta, que também são capazes de atos absurdos e horríveis.

Moore faz parte de uma leva de escritores que revolucionou os quadrinhos nos anos 80, sendo um de seus representantes mais importantes.  Junto a outros gênios como Neil Gaiman, Jaime Delano, Grant Morrison e outros hoje bastante conhecidos do público em geral por trabalhos épicos, voltados a um público mais adulto e maduro. Algo impensável na época, visto que os quadrinhos ainda eram vistos pela pecha de “coisa de criança”. Moore e outros escritores desse período ajudaram a elevar os quadrinhos ao status de verdadeira e reconhecida arte, e o seu Monstro do Pântano é um exemplo desse trabalho. Como um expoente do selo Vertigo, da DC, o Monstro de Moore fez com que se abrissem HQ’s sem saber o que se esperar. Que tipo de horror aguardava os leitores ali.

Entretanto, o Monstro de Moore ainda é um personagem que faz a transição desse período das HQ’s. O leitor mais experiente, que talvez já conheça outras obras do autor como V de Vingança e Watchmen, pode estranhar a verborragia e a falta de ousadia do autor, visto que o oposto o caracteriza em suas outras obras. Mas isso não deve importar. A leitura do Monstro tem que ser feita pelo que ele é: uma obra revolucionária, que ditaria a maneira como se fariam quadrinhos pelas próximas décadas, e que revelariam uma das maiores mentes contemporâneas não apenas dos quadrinhos, mas das artes em geral.

O Monstro do Pântano é um quadrinho de horror. Mas é impossível não se sentir revitalizado depois da sua leitura. Pois sua natureza perene, que existe seguindo o pulsar da vida vegetal, ao mesmo tempo nos surpreende e nos acalma. Se o leitor se permitir percorrer esse caminho, talvez a leitura do Monstro o afaste um pouco de sua existência caótica e o conecte um pouco mais a consciência do mundo a sua volta. Talvez mostre que a vida é um pouco mais do que aquilo que vemos ignorantemente e apressadamente no nosso dia-a-dia. De uma forma ou de outra, se você permitir, o Monstro encontrará um caminho até você.

Porque, tais quais as pequenas plantas que nascem, resistem e perduram entre as frestas de concreto das megalópoles, a vida sempre encontra um caminho.

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