“Tornar um mundo de super-heróis realista – fazendo dele uma realidade alternativa de lógica hermética onde todas as peças fazem sentido e operam logicamente – me parece menos uma história de super-heróis em si e mais o ramo da ficção científica que produz suas histórias introduzindo alguma mudança no mundo como ponto de partida para extrapolação, explorando os desdobramentos de uma mudança tecnológica, histórica, política ou de qualquer aspecto do mundo. ‘Como seria o mundo se…’ é o que tal tipo de história pergunta e, embora seja uma forma perfeitamente válida de ficção, simplesmente não me interessa.” – Kurt Busiek

Na sua cara, Christopher Nolan. Este colunista tem uma birra particular para revelar: não gosta de coisas muito sérias quando se trata de super-heróis. Claro que histórias sérias, facetas mais sombrias e ambientes noir são recursos válidos quando se explora os diversos aspectos que constituem um personagem. Quando alguns deles completam 70 anos, como os bons e velhos Superman, Batman, etc., é necessário variar, extrapolar, explorar, expor. Um super-herói é, antes de tudo, uma ideia dentro de uma história, e histórias precisam surpreender. E essa é a melhor definição para um dos (re) lançamentos da Panini/Vertigo nesse ano no Brasil, a maravilhosa e multi-premiada Astro City: Vida na Cidade Grande, de Kurt Busiek, Alex Ross (sim, eles de novo!) e Brent Anderson. Uma série que, nos anos noventa, quando foi lançada originalmente, revitalizou e surpreendeu o universo dos heróis como não acontecia desde os anos 80. Mas o que aconteceu lá para que essa série, que em uma primeira leitura parece leve e propositalmente cheias de clichês e referências, fosse tão surpreendente?

Uma breve história dos quadrinhos. Nos anos 50, um grupo de imbecis desocupados que insistentemente se intitulava “Congresso Americano”, num arroubo de iluminada epifania, descobriu que a causa da degeneração moral dos seus jovens pós-segunda guerra (afinal, como eles poderiam culpar a paranoia demente do anti-comunismo?) era das HQ’s, em particular das de super-heróis. Sim, é sério. Já está rindo? Calma, tem mais. Para fundamentar o brilhantismo do congresso americano, um livro chamado “A Sedução dos Inocentes”, onde um pseudo-psicólogo se utiliza de pseudo-ciência para acusar as HQ’s dos mascarados de disseminar ideias que iam do anti-patriotismo até o homossexualismo, é lançado no mesmo período.

O resultado? Um crime institucional chamado “Comics Code”, que na prática era uma forma legítima de censura nas HQ’s americanas (vai uma democracia aí?). O CC imperou durante décadas, imbecilizando as HQ’s ao extremo, tornando as histórias tão superficiais e infantis quanto possível, e os heróis unidimensionais e rasos. As HQ’s quase morreram. Stan Lee, Jack Kirby e a Marvel deram um respiro para aos quadrinhos, com a criação de heróis mais complexos e profundos nos anos 60 e 70, mas não bastou para melhorar a qualidade geral. O chicote do CC ainda estalava sobre as editoras.

Aí, vieram os anos 80 e a invasão britânica. Já falamos um pouco sobre o assunto na resenha do Monstro do Pântano. Aqueles escritores lideraram a revolução contra o CC naquela década. Embora não abolido por completo, fora tornado irrelevante. E clássicos absolutos dos quadrinhos nasceram e elevaram, finalmente, as HQ’s a categoria de arte, com seu principal expoente Sandman, de Gaiman, comovendo e surpreendendo mesmo os mais críticos da nona arte. Já os nossos amigos encapuzados foram representados nessa revolução com os apoteóticos Watchmen, de Alan Moore e Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, onde os super-heróis foram desconstruídos, suas feridas expostas, e toda a profundidade das suas psiques reveladas. Os super-heróis haviam deixado de ser coisa de criança, para se tornarem, diria Nietzsche, humanos, demasiado humanos.

Mas, no meio do caminho, chegando aos anos 90, houve um desvio. A exploração das facetas mais sombrias dos heróis, como maneira de dar complexidade e profundidade a eles, foi confundida. E durante os anos 90, os heróis que vendiam e eram “legais” eram os psicóticos, violentos e amorais, sob pretexto de serem “realistas”. Com a chegada dos anos 2000 e a explosão dos heróis no cinema, essa tendência se agravou. Após o estrondoso sucesso do Batman hiper-realista de Christopher Nolan, praticamente se consolidou.

Por isso, para os amantes das clássicas HQ’s de super-heróis, Astro City é um bálsamo. A citação de Busiek, extraída da introdução do Volume 1 da republicação, não é ao acaso. Ela revela uma visão instigante dos heróis, em que, para que eles sejam críveis e nós nos sintamos próximos deles, não é necessário que eles sejam violentos ou sombrios ou realistas. Basta que eles sejam eles, e nós sejamos nós. Porque a função deles é serem inacreditáveis. A nossa, de acreditar. A segunda edição, que conta a história do encontro do editor Elliot Mills com os heróis daquele mundo, nas circunstâncias mais surreais possíveis, nos coloca na posição em que devemos estar como leitores quando lemos Astro City: testemunhas do fantástico, coadjuvantes do fabuloso. Não à toa, é a edição mais comovente, principalmente por encontrar ecos na obra-prima do time Busiek/Ross: Marvels, que mostra o Universo Marvel do ponto de vista dos seus habitantes comuns.

O volume nos apresenta histórias que não apenas nos reaproximam dos heróis e aquilo que eles representam, mas que reconstroem a ideia de super-herói, que fora desmontada nos anos 80. Os heróis apresentados em Astro City são humanos sim; cheios de falhas, incertezas e desejos particulares. Mas não é por isso que eles cedem. Ver o Samaritano sonhando com seus voos livres enquanto se digladia com sua rotina constante e até um tanto enfadonha de salvar o mundo a todo instante não parece ao leitor uma realidade muito mais distante do que a de um pai que acorda todos os dias para ir ao seu trabalho maçante e pagar as contas enquanto sonha acordado com a viagem perfeita com a sua esposa e seus filhos. O encontro entre Vitória Alada e ele não nos parece mais estranho do que um constrangedor primeiro encontro com alguém que posteriormente veio a se tornar um amor. A única coisa que os separa de nós são… bem, super-poderes que os tornam deuses. Mas, em Astro City, isso é apenas um detalhe. Esse talvez seja o seu grande trunfo. Todos entendemos que estamos em uma cidade de magos, monstros, heróis e vilões. Mas mesmo assim, nada parece estranho. Pelo contrário, nos parece estranhamente familiar. Pois, como a vida, ela pode sim ser hora realista, hora fascinante.

Para o leitor mais experiente, como já mencionei acima, a proposta de Astro City vai evocar suas memórias de Marvels. Pela proposta e obviamente pelo estilo dos envolvidos. Mas, no entendimento desse colunista, Astro City está para Marvels como Walking Dead está para os filmes de G. Romero: ao terminar de ler Marvels, fica aquela vontade de “quero mais”. Astro City está aí para sanar essa vontade. Até porque, não dá para ter o bastante do envolvente argumento de Kurt Busiek e das incríveis artes de capa de Alex Ross. Brent Anderson é também um desenhista sólido, que consegue dar conta da necessidade de lidar concomitantemente com o fantástico e o ordinário, qualidades latentes da HQ.

Portanto, dê um tempo na sua própria rotina e se permita imergir no inacreditável. Não como um herói fantástico, mas como alguém que compartilha essa realidade com eles.

Às vezes, mais divertido do que ser o invencível herói que voa entre as nuvens, é ser a pessoa lá embaixo, dedo em riste para o alto, gritando: Vejam lá no céu!!

8 COMENTÁRIOS

  1. Olá.
    Eu gosto de HQ’s mesmo não tendo lido nenhum, por falta de oportunidade.
    Mas minha amiga e colega de classe do ano passado era apaixonada e sempre vinha com um diferente pra ler durante a aula. Isso me cativou e me deixou ainda mais interessada, amo desenho então esse foi o primeiro ponto.
    Este parece ser um bom HQ, vou pesquisar mais sobre ele. Quem sabe não seja um dos primeiros que lerei?
    Abraço!

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