terça-feira, 24, novembro, 2020
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Crítica: Creed – Nascido Para Lutar

Rocky Balboa é, seguramente, um dos mais queridos e carismáticos personagens criados para o cinema. Protagonista de uma cinessérie de qualidade irregular, iniciada em 1976 com Rocky: Um Lutador e concluída em 2006 com Rocky Balboa – estes os dois melhores filmes da saga –, o Garanhão Italiano é a primeira referência que vem à mente quando o assunto na mesa de bar cinéfila são as produções que apresentam como tema o boxe. Quando pensávamos que nunca mais veríamos Sylvester Stallone interpretando o mais icônico de seus personagens, eis que surge Creed: Nascido Para Lutar (Creed, EUA, 2015), longa-metragem que promete ser uma nova série cinematográfica, derivada da protagonizada pelo azarão da Filadélfia.

Partindo de uma premissa simples, Creed conta a história de Adonis Johnson (Michael B. Jordan, de Quarteto Fantástico), jovem que cresceu alternando sua presença entre lares adotivos e reformatórios, cuja principal característica é meter-se em encrencas que sempre resultam em brigas. Após uma delas, numa detenção para jovens delinquentes, Adonis recebe a visita inesperada de Mary Anne (Phylicia Rashad, da série televisiva O Toque de um Anjo), viúva de Apollo Creed, e descobre ser filho do lendário lutador, fruto de um caso extraconjugal. A mulher decide adotar o garoto, que cresce num ambiente rico e saudável. No entanto, o conforto do lar acolhedor e a bem-sucedida carreira profissional não são páreos para a vontade que Johnson tem de se tornar um boxeador.

Creed - Nascido Para Lutar
Creed – Nascido Para Lutar | Imagem: Warner

É justamente em seu protagonista que se encontra o maior problema de Creed: Nascido Para Lutar. As motivações de Adonis não convencem e a construção do personagem, promovida pelo texto de Ryan Coogler (Fruitvale Station: A Última Parada) em parceria com o roteirista estreante Aaron Covington, é falha. A paixão pelo boxe pode estar presente e, pelo que o filme mostra logo em seu início, parece conviver bem com a carreira que Johnson desenvolve no “emprego de verdade”. Em lutas clandestinas, o protagonista cria um caminho paralelo e mostra-se extremamente talentoso. No entanto, quando Adonis decide largar tudo para investir numa carreira como lutador profissional, fica evidente a ingênua escolha dos escritores por desenvolver o personagem a partir de um determinismo bobo, como se o talento e a vontade para seguir carreira no boxe tivessem sido transmitidos de pai para filho pelos genes. Aliás, numa determinada altura da produção, Johnson afirma ter aprendido a ser boxeador sozinho, o que confirma o determinismo tolo sobre o qual o personagem é construído.

Se Adonis Johnson é um personagem que sofre para cativar, o mesmo não pode ser dito de Rocky Balboa (Stallone). Quando o personagem entra em cena pela primeira vez, de maneira muito discreta por sinal, o longa parece ganhar alma e engana-se quem acha que esta sensação é proveniente de puro saudosismo. O Rocky presente em Creed: Nascido Para Lutar deixa evidente a passagem do tempo e como isso afeta até mesmo os grandes campeões. Procurado por Adonis quando este opta por dar início à carreira de boxeador profissional, Balboa está afastado do ringue, este uma mera lembrança presente nas fotografias que decoram o Adrian’s, restaurante que o ex-pugilista mantém como a lembrança e o carinho que carrega pela eterna companheira, cujo nome batiza o local. O próprio ambiente representa ricamente o conflito de Rocky: o homem que administra o pequeno restaurante não é mais o mesmo; ficou apenas o ser humano, restando à lenda ser apenas fragmentos de memória presentes numa parede. Relutante em treinar o filho de seu maior rival e melhor amigo, o dilema de Rocky mostra-se infinitamente mais interessante e envolvente do que o do protagonista de Creed, assim como as motivações que o levam a tomar sua decisão.

Crítica Creed - Nascido Para Lutar
Creed – Nascido Para Lutar | Imagem: Warner

É neste equilíbrio entre um protagonista fraco e um (pretenso) coadjuvante riquíssimo que a narrativa se desenvolve, alternando momentos bons e ruins, dependendo de qual personagem aparece em cena. Cabe, então, a Ryan Coogler, também diretor do longa, ser o fiel da balança e, neste quesito, Creed: Nascido Para Lutar ganha pontos. Os bons atores, mesmo com papéis que não oferecem tanto, apresentam desempenhos interessantes, o que pode ser fruto do trabalho de direção; mas é no manejo da câmera que está a maior qualidade do cineasta. Sua câmera ágil permite ao espectador acompanhar o protagonista de perto, gerando uma proximidade que, se não vem pelo texto, surge pelo visual. Hábil ao lidar com planos-sequência, entrega uma cena marcante, a primeira luta profissional de Adonis, riquíssima pelo realismo nela presente. Pena que tamanha desenvoltura não se estenda por todos os 133 minutos, culminando num clímax que nada mais é do que uma variação do que vimos ao longo dos filmes da série Rocky.

Para uma produção que tanto fala sobre a necessidade de trilhar um caminho próprio, desvinculado de um nome que carrega uma relevância histórica, e promete ser o início de uma nova franquia, Creed: Nascido Para Lutar reverencia demais o passado (o tema de Rocky, que toca durante o último combate, põe tudo a perder). Se não fosse pela presença de Sylvester Stallone que, surpreendentemente, aparece mais do que o esperado, o filme seria apenas mais um sobre luta com temática edificadora, desses que encontrávamos esquecidos nas prateleiras das falecidas videolocadoras. Por isso, fica a pergunta: será que os próximos e inevitáveis filmes dessa nova série terão fôlego para seguir um caminho próprio, desvinculado de sua origem? Eu, particularmente, acho difícil.

Veja a ficha técnica e elenco completo de Creed – Nascido Para Lutar

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Nota do Thunder Wave
O protagonista tenta, mas o foco continua sendo Sylvester Stallone

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