domingo, 5, julho, 2020
Início Filmes Críticas Crítica: Os Oito Odiados

Crítica: Os Oito Odiados

Desde a estreia como diretor em Cães de Aluguel, passando pelo filme que o consagrou em Pulp Fiction, tem sido habitual encontrar Quentin Tarantino apresentando sua forma peculiar de fazer cinema em trabalhos que evocam diferentes gêneros cinematográficos. Blackexplotation (Jackie Brown), artes marciais (Kill Bill) e guerra (Bastardos Inglórios) foram alguns dos gêneros que receberam uma roupagem “tarantinesca” e originaram filmes que estabeleceram de vez o nome de Tarantino entre os dos grandes realizadores da contemporaneidade.

Em 2012, chegou a vez do western ser apresentado pela perspectiva do cineasta, o que resultou em Django Livre, um dos mais bem-sucedidos longas da carreira do diretor e vencedor do Oscar de Melhor Roteiro, também escrito por Tarantino. Tamanho sucesso pode ter contribuído para que o realizador permanecesse com os dois pés fincados no gênero norte-americano por natureza e realizasse um segundo western, Os Oito Odiados (The Hateful Eight, EUA, 2015), longa que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (07).

Ambientado pouco tempo depois da Guerra Civil Estadunidense, Os Oito Odiados tem início quando, durante uma forte nevasca, uma diligencia é parada no meio da estrada por um misterioso homem. Dentro dela, estão John “O Carrasco” Ruth (Kurt Russell), caçador de recompensas conhecido por sempre entregar suas encomendas vivas, para que sejam enforcadas, e Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), a procurada que vale 10.000 dólares, viva ou morta. Conhecido de Ruth, o homem que pede carona na diligência é Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), veterano de guerra, que também tem uma recompensa a ser coletada por estar transportando três malfeitores procurados; porém, diferentemente do colega de profissão, o caçador Warren leva os seus devidamente mortos.

hateful eight
Os Oito Odiados | Imagem: Divulgação

Tendo como destino a cidade de Red Rocks, local onde O Carrasco deve entregar Daisy para o enforcamento, o Major é aceito no transporte. No caminho, encontram Chris Mannix (Walton Goggins), que também precisa chegar em Red Rocks, para, supostamente, assumir a posição de novo xerife da cidade. Chris embarca como o quarto passageiro da diligência, que, devido ao péssimo tempo, precisa realizar uma parada no armazém de Minnie Mink (Dana Gourrier), que deixa o local aos cuidados do mexicano Bob (Demián Bichir), para fazer uma viagem ao norte do país. No local, os passageiros da diligência recém-chegada encontram hóspedes já instalados: o executor Oswaldo Mobray (Tim Roth), o fazendeiro Joe Cage (Michael Madsen) e o General Sandy Smithers (Bruce Dern). Com o passar da noite, todas as tensões resultantes do conflito bélico recentemente ocorrido vêm à tona, o que desencadeia uma série de acontecimentos capazes de revelar quais são, verdadeiramente, as intenções de cada indivíduo ali presente.

Se há algo que é sempre esperado de um filme de Quentin Tarantino é o capricho técnico. Belamente fotografado por Robert Richardson, parceiro do cineasta desde Kill Bill, Os Oito Odiados é um filme bonito de ser visto. A paisagem branca em decorrência do inverno no estado de Wyoming contribui para a realização de belos planos que, infelizmente, se fazem presentes apenas no primeiro ato do longa-metragem. No entanto, o ótimo trabalho de Richardson é também perceptível (talvez com maior evidência, inclusive) nas cenas internas, que se desenvolvem no interior do armazém, uma vez que se trata de um ambiente escuro, sempre muito difícil de fotografar de maneira a passar uma genuína sensação de opressão e desconforto, algo essencial para a narrativa deste filme.

Os Oito Odiados
Os Oito Odiados | Imagem: Divulgação

O trabalho de edição realizado por Fred Raskin merece igual destaque, uma vez que as três horas e sete minutos de projeção desenrolam-se num bom ritmo e quem está acostumado a ver filmes de longa duração sabe o quão desafiador é para um editor atribuir um bom ritmo a produções extensas. No entanto, vale ressaltar que há quem discorde da opinião aqui apresentada, o que faz com que a impressão quanto ao ritmo apresentado por Os Oito Odiados seja algo bem subjetivo. Isso dito, saiba que as mais de três horas de projeção podem agradar ou incomodar o espectador, dependendo daquilo a que o público se apegar.

Talvez a culpa pelas diferentes sensações que a longa duração da produção possa gerar esteja no roteiro. Também escrito por Tarantino, como de costume, o texto de Os Oito Odiados é predominantemente dialógico, o que aproxima bastante o filme de uma peça teatral. Por isso, a decepção a quem não tem paciência para filmes que priorizam mais os diálogos do que a ação é bem provável. Os fanáticos pelos trabalhos do cineasta podem estranhar tal observação, uma vez que, para muitos, o grande forte dos roteiros de Quentin sempre foram os diálogos. Contudo, parece que a “Fórmula Tarantino” parece estar desgastada e, mesmo muito bons, os diálogos desta produção não geram o mesmo impacto das produções anteriores, o que faz com que Os Oito Odiados torne-se cansativo também aos mais ardorosos fãs do cineasta (desde que estes avaliem o filme mais com a razão do que com a emoção). Seria um sinal dos tempos? O fato de Quentin Tarantino ter declarado que pretende realizar apenas mais dois filmes como cineasta pode ser um indício de que sua carreira esteja, de fato, chegando ao fim, não porque ele não tenha mais a capacidade de entregar bons filmes, mas talvez porque ele já não tenha mais nada de novo a oferecer ao seu público. O desgaste estilístico presente em sua mais recente obra deixa isso evidente.

Mesmo com um texto que, por ele apenas, não causa grande impacto, o elenco de Os Oito Odiados simplesmente arrebenta, o que também termina por ser o mínimo a se esperar de nomes como Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Leigh, Tim Roth e demais colaboradores. Todos estão bem em seus papéis, com exceção do limitado Channing Tatum (Jody) que, quando aparece em cena, destoa dos demais presentes na tela.

Antepenúltimo filme de um dos mais queridos cineastas de Hollywood, Os Oito Odiados entrega tudo aquilo que se espera de um filme de Quentin Tarantino. No entanto, não há como negar que, após uma carreira que já dura mais de 20 anos, onde uma fórmula foi criada e segue repetida com sucesso, uma hora, o cansaço inerente ao passar do tão implacável tempo daria os seus primeiros sinais.

Veja a ficha técnica e elenco completo de Os Oito Odiados

Quer comentar sobre as produções com pessoas que possuem o mesmo interesse? Entre no nosso grupo do facebook e comece a discussão!

Nota do Thunder Wave
A trama entrega aquilo que os fãs de Tarantino esperam, mantendo o mesmo padrão

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por Favor insira seu nome aqui

Siga nossas redes sociais

7,041FãsCurtir
3,084SeguidoresSeguir
4,389SeguidoresSeguir

Resenha | A Grande Gripe – John M. Barry

0
Finalmente lançado no Brasil, com atraso de aproximadamente 16 anos, o livro A Grande Gripe: A História da Gripe Espanhola, A Pandemia...

Crítica: Greenleaf – 3ª Temporada

4
Desde que Greenleaf estreou no catálogo da Netflix Brasil, a série arrebatou a atenção e também, a predileção da audiência. Já de cara, a...
Crítica: Os Oito Odiados 5

Um adeus a Merlin

pt_BRPT_BR
en_USEN pt_BRPT_BR
Thunder Wave-Filmes, Séries, Quadrinhos, Livros e Games Thunder Wave